Hoje e sempre, Alfredo Quintana. Sempre que Rui Silva era agarrado com mais força em ação ofensiva e a manga da camisola subia um pouco mais, ali estava, tatuada no braço direito, a imagem do guarda-redes. Sempre que Gustavo Capdeville fazia uma defesa, olhava para o céu como que a agradecer ao luso-cubano pela inspiração. “É intuitivo, sinto tanto o momento da defesa e agradeço às pessoas que me ajudaram. Tudo o que sou hoje, devo muito a ele. Está sempre comigo, faz parte das defesas, de vitórias e derrotas. Jogo sempre com a camisola dele, como um amuleto da sorte. Caminhamos juntos. partiu muito cedo”, contou no final da partida com a Islândia, mostrando a camisola que usa por baixo do equipamento.

O lema era bom mas os problemas estavam lá: Portugal perde com Islândia no arranque e joga “final” com Hungria no Europeu de andebol

Os dois jogadores foram talvez os únicos a ter um rendimento mais próximo do normal na estreia da equipa nacional no Campeonato da Europa, com uma derrota frente à Islândia por 28-24 que esconde em parte o que se passou no encontro: uma defesa pouco agressiva, um ataque com muitas falhas técnicas e turnovers, uma eficácia abaixo do que é costume sobretudo nos remates aos seis metros. Com isso e com a surpresa dos Países Baixos logo a abrir a competição frente à Hungria (31-28), Portugal enfrentava uma “final” logo na segunda jornada da primeira fase de grupos. E as contas eram simples: quem perdesse, estava fora.

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“Espero um tipo de dificuldade diferente em relação ao jogo com a Islândia porque a Hungria tem outras armas e outra forma de jogar, com jogadores mais possantes, com maior peso e maior envergadura. Vai ser diferente. É sempre triste perder quando criámos uma expectativa grande. A forma como nos preparámos não foi a que gostaríamos e sabíamos que podia acontecer um jogo menos sucedido. Agora, com o pouco tempo de recuperação, é tentar corrigir coisas importantes que falharam com a Islândia, como os erros defensivos, que foram muitos, e para os quais os atletas estão já alertados”, comentara Paulo Pereira no lançamento do encontro, depois de na véspera ter assumido que a Islândia foi melhor.

Agora sim, “o” feito histórico: Portugal goleia Hungria e assegura melhor participação de sempre no Europeu

O último encontro em fases finais entre os dois conjuntos até tinha redundado num triunfo substancial de Portugal diante dos magiares por 34-26 no Europeu de 2020, o que permitiria depois discutir com a equipa da Alemanha o quinto e sexto lugares. No entanto, fosse pela qualidade das opções, fosse pelo estilo mais físico de jogo, fosse pelo apoio do público, a Hungria partia com ligeiro favoritismo até pela forma como os condicionalismos de lesões (Portela, Luís Frade, André Gomes e João Ferraz de fora) e casos positivos de Covid-19 marcaram o período de preparação. No final, e apesar das melhorias em relação ao que se passara na sexta-feira, as duas exclusões madrugadoras de Iturriza e Salina condicionaram o comportamento na defesa da Seleção, que mesmo assim reentrou no jogo e morreu na praia apenas nos últimos segundos, dependendo agora da Islândia, que tem de ganhar aos Países Baixos e à Hungria, e de si própria, tendo para isso de ganhar de forma obrigatória ao conjunto que foi uma das revelações da primeira jornada.

Portugal teve uma entrada determinada no jogo, beneficiando de um Miguel Martins em grande plano no arranque (ao contrário do que se passara com a Islândia quando entrou) e de um Capdeville muito inspirado na baliza para chegar ao 3-0 e sofrer o primeiro golo apenas aos cinco minutos e num livre de sete metros. No entanto, e com o passar do tempo, os anfitriões foram serenando no jogo, conseguiram contar com o forte apoio do público para recuperarem e chegaram pela primeira vez ao empate aos 13′ (5-5), numa fase em que a Seleção Nacional jogava a segunda vez em inferioridade por exclusão de Salina. As exclusões continuavam a pesar e os magiares aproveitaram para dobrar mesmo a metade na frente (7-6).

Fábio Magalhães, com um remate aos nove metros, quebrou o maior período sem golos de Portugal mas a Hungria tinha conseguido acertar em termos defensivos e a Seleção conseguia apenas criar desequilíbrios explorando os remates de ponta já com Miguel Alves e Leonel Fernandes em campo. Foi aí que voltou a aparecer a versão guerreira dos Heróis do Mar, que aumentaram a presença no jogo, recuperaram de uma desvantagem de dois golos com Gilberto Duarte a fazer o empate a 12 e, mesmo com Victor Iturriza com duas exclusões, Rui Silva marcou nos últimos segundos o 15-14 com que se atingiu o intervalo já com troca de guarda-redes na baliza, com Manuel Gaspar a entrar com sucesso para o lugar de Capdeville.

O segundo tempo começou com o equilíbrio a ser a tónica principal, com as duas equipas a terem um longo período de ataques marcados e falhados quase em espelho que foi mantendo o resultado empatado ou com a Hungria por um golo na frente até uma falha nacional que levou ao 23-21 para os magiares e à aposta no 7×6 alguns minutos depois de um desconto de tempo pedido por Paulo Pereira. Portugal empatou mesmo não convertendo o primeiro ataque em superioridade mas uma série de ataques falhados deu ao conjunto anfitrião uma vantagem de três golos a dez minutos do final (27-24) que parecia ter acabado de vez com a partida até à recuperação que empatou de novo o jogo a 28 a quatro minutos do final, a um livre de sete metros travado por Capdeville, ao empate com apenas 12 segundos para jogar (numa jogada “pensada” por Rui Silva no desconto) e ao golo decisivo apenas a quatro segundos do último apito (31-30).