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A sessão de debate semanal no Parlamento britânico aqueceu ainda antes de começar. Faltavam cinco minutos para o início do debate e uma imagem das televisões na Câmara dos Comuns revelava o frenesim, com praticamente todos os deputados trabalhistas de cabeça baixa, a ver a mais recente notícia no seu telemóvel: Christian Wakeford, deputado conservador eleito em 2019 pelo círculo eleitoral historicamente trabalhista de Bury South, decidiu trocar os tories pelo Labour.

“Não posso continuar a apoiar um governo que se tem mostrado consistentemente distante das pessoas”, disse o deputado em comunicado, que deixa evidente como Wakeford e outros colegas eleitos na Red Wall temem perder os seus lugares devido à impopularidade de Boris Johnson, debaixo de fogo por uma série de escândalos com festas em Downing Street durante o confinamento.

O líder da oposição aproveitou e abriu a sua intervenção no Parlamento dando as boas-vindas a Wakeford: “Como tanta gente no país, concluiu que o primeiro-ministro é incapaz de liderar”, decretou Keir Starmer. De seguida, aproveitou uma série de intervenções para atacar Boris Johnson pelas festas.

Primeiro disse que não havia festas e depois apareceu o vídeo. Depois disse que estava furioso — até se descobrir que esteve numa. Na semana passada disse que não tinha percebido que estava numa festa e — surpresa — ninguém acreditou nele. Agora tem uma nova defesa: a de que não sabia que estava a quebrar as regras. Porque é que acha que esta vai resultar?”, afirmou.

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Starmer aproveitou ainda uma pausa ordenada pelo presidente do Parlamento devido ao barulho que se sentia na sala para lançar uma indireta: “Tenho a certeza que o whip lhes disse para trazerem a sua própria bebida”, disse, referindo-se à figura que assegura a disciplina de voto de cada partido.

O líder da oposição usou ainda a cartada da fotografia da Rainha sozinha durante o funeral do Príncipe Filipe, em contraste com as notícias de uma festa em Downing Street na noite anterior. “Ela seguiu as regras do país que lidera. Na noite anterior, encheu-se uma mala de bebidas para ser levada para Downing Street”, apontou.  “Não tem vergonha de não ter apresentado a sua demissão?”, perguntou ao primeiro-ministro. O presidente do Parlamento, porém, relembrou que a Família Real não deve ser comentada na Câmara dos Comuns e isentou Boris Johnson de responder.

A sessão foi marcada por palavras duras por parte dos deputados da oposição, que repetidamente pediram a demissão do primeiro-ministro. “Mais de 150 mil britânicos morreram e ele continua a rir-se”, afirmou Ian Blackford, do Partido Nacional Escocês. “Quando o primeiro-ministro perde mais tempo a tentar convencer os britânicos de que é estúpido e não desonesto, não estará na altura de sair?”, acrescentou a trabalhista Diana Johnson.

Boris Johnson usa alívio das restrições à Covid para tentar aligeirar pressão

Boris Johnson ignorou as provocações, com exceção da deserção do seu deputado. Johnson vaticinou que o “Partido Conservador ganhou em Bury South pela primeira vez em várias gerações com este primeiro-ministro”. “E vamos ganhar outra vez”, prometeu.

Quanto aos ataques e pedidos de demissão, Johnson usou sobretudo duas palavras: “inquérito” e “vacinas”. Por um lado, sublinhou uma e outra vez que o inquérito às festas de Sue Gray ainda está a decorrer — mas recusou comprometer-se com uma demissão se o inquérito concluir que mentiu. Por outro, tentou uma e outra vez puxar o debate para o combate à Covid, onde crê que o seu governo pode reclamar alguns louros.

“Se tivessem dado ouvidos a Keir Starmer, ainda estaríamos na UE e nunca teríamos conseguido a vacina tão depressa”, afirmou o primeiro-ministro. O processo de vacinação foi uma “demonstração de confiança pública”, pela adesão massiva, diz. “E de patriotismo, porque a vacina foi um feito britânico”, acrescentou.

O fim de muitas das restrições em vigor contra a Covid-19 foi apresentado por Boris Johnson aos deputados como uma grande vitória. “Confiaremos no julgamento dos britânicos”, afirmou o primeiro-ministro ao explicar que as máscaras deixam de ser obrigatórias em espaços fechados e passam apenas a ser recomendadas. Os britânicos deixam ainda de ter de apresentar o certificado Covid para entrar em determinados espaços e acaba a recomendação de teletrabalho.

A estratégia é a “Operação Carne Vermelha” confirmada por fontes de Downing Street aos jornais britânicos: aligeirar as restrições contra a Covid, na esperança de que o primeiro-ministro recupere algum apoio, perante as notícias de que uma moção de censura interna está cada vez mais próxima.

O plano da “Empada de Porco” que pode derrubar Boris Johnson

Na Câmara dos Comuns, no entanto, não houve sinais de que a pressão possa baixar. “Em nome de Deus, vá-se embora”, pediu o deputado conservador e antigo ministro David Davis. A oposição, como seria de esperar, aplaudiu.