Em junho de 2019, na antecâmara do Campeonato do Mundo de futebol feminino, escrevia-se no Observador que esse mesmo Mundial poderia ser o mais importante de sempre — apesar de não contar com a melhor jogadora do mundo. A competição, entre os recordes de audiência, a nova vitória norte-americana e as consequências que teve na igualdade salarial, foi mesmo a mais importante de sempre; a melhor jogadora do mundo da altura, Ada Hegerberg, fez muita falta a uma Noruega que caiu nos quartos de final.
Esta quinta-feira, a mesma Noruega recebeu a notícia que procurava há cinco anos: ausente da seleção desde 2017, Ada Hegerberg vai voltar ao futebol internacional e já foi convocada para os jogos contra o Kosovo e a Polónia, a contar para a qualificação para o próximo Campeonato do Mundo. “Estar de volta é uma sensação incrivelmente boa. Vou cumprir o meu papel para nos ajudar a alcançar grandes feitos, tanto dentro como fora de campo. Pelo futebol, pela Noruega mas também pela próxima geração. Tive a possibilidade de ter conversas muito honestas com a Federação. Estou muito contente por poder voltar à equipa e começar uma nova história”, disse a avançada de 26 anos do Lyon.
Um Mundial que não tem a melhor do mundo e é o mais importante de sempre. Mas porquê?
Ora, este regresso de Hegerberg à seleção deixa desde já antever que a jogadora poderá estar presente no Europeu do próximo verão, em Inglaterra, onde Noruega integra o grupo do país anfitrião e ainda da Irlanda do Norte e da Áustria. A confirmar-se, é uma boa notícia não só para a Noruega, que no Euro 2017 nem passou da fase de grupos, como também para a própria avançada: que voltou à competição no passado mês de outubro ao fim de 20 meses de ausência devido a uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho.
No Lyon desde 2014, Ada Hegerberg já conquistou cinco Ligas dos Campeões, seis ligas francesas e cinco Taças de França, tendo sido a vencedora da Bola de Ouro feminina em 2018. A jogadora, durante vários anos considerada a melhor do mundo, renunciou à seleção da Noruega em 2017, logo após o final do Europeu, e não voltou a representar o próprio país desde aí. O motivo, segundo a avançada, foi a inexistência de apoio à equipa feminina dentro da Federação (num país onde o futebol feminino é largamente mais bem sucedido do que o masculino); o motivo, segundo a Federação, foi o desrespeito da avançada pela seleção nacional.
Em 2017, no Europeu em que a Noruega foi escandalosamente eliminada ainda na fase de grupos com três derrotas em três jogos, Hegerberg anunciou a saída da seleção devido à “falta de preparação, execução e comunicação” da Federação Norueguesa de Futebol. “Esta decisão não é apenas uma consequência do Euro. Tem como base a minha experiência com a seleção durante um longo período de tempo”, explicou a jogadora, na altura, através de um comunicado oficial. A Noruega respondeu, garantindo que a notícia surgia como “um choque” porque Hegerberg nunca tinha levantado este tipo de questões internamente, e foi a partir desse momento que a discussão subiu — ou desceu, conforme as perspetivas — de nível.
A avançada mostrou-se “estupefacta” com a reação da Federação, já que garantia que tinha questionado as altas chefias inúmeras vezes, e endureceu o discurso, afirmando que sentia que se tornava “pior jogadora” sempre que ia à seleção — comentário que não caiu bem junto das colegas de equipa. Martin Sjögren, que ainda hoje é o selecionador, defendeu que nenhuma jogadora devia ser obrigada a jogar e deixou bastante claro o seu posicionamento quando votou para a eleição da vencedora da Bola de Ouro do ano passado, já que não atribuiu nenhum dos três votos que tinha a Ada Hegerberg.
Na altura do último Mundial, em 2019 e numa entrevista à revista norueguesa Josimar, a jogadora de 23 anos voltou a comentar o assunto e a sublinhar os motivos que a levaram a abandonar a seleção. “Não éramos levadas a sério. Não existia uma cultura de treino com qualidade nem existia a vontade de ser melhor”, explicou, acrescentando depois que chegou a ter pesadelos sobre representar a seleção e que jogar pela Noruega lhe dava “um sentimento depressivo”. Quando marcou um hat-trick na final da Liga dos Campeões de 2019, em que o Lyon goleou o Barcelona, Ada Hegerberg envolveu-se numa bandeira da Noruega durante os festejos. Rapidamente, para afastar quaisquer comentários, atirou: “Tenho saudades de jogar pelo país, não tenho saudades de jogar pela minha Federação”.
Cinco anos depois, Ada Hegerberg vai voltar à seleção da Noruega muito devido aos esforços de Lise Klaveness, antiga jogadora e internacional que venceu as eleições no início deste mês de março e que é a nova presidente da Federação do país. Mas, independentemente disso, o futebol feminino vai voltar a contar com Ada Hegerberg nas maiores competições de seleções.