Ada Hegerberg gosta de ser das primeiras a fazer as coisas. Foi a primeira mulher a levantar a Bola de Ouro, em 2018, o ano em que a FIFA decidiu começar a atribuir ao futebol feminino o mesmo prémio que dá ao futebol masculino desde os anos 50. Já ganhou quatro vezes a Liga dos Campeões, sempre ao serviço do Lyon, e na final do ano passado tornou-se a primeira a marcar três golos numa final europeia, com um hat-trick em 16 minutos. No verão passado, decidiu também tomar a decisão quase inédita de renunciar à seleção da Noruega e falhar o Mundial, por diferendos com a Federação. Agora, tornou-se a primeira a aproximar o valor dos contratos publicitários das mulheres aos valores dos contratos publicitários dos homens.

Um Mundial que não tem a melhor do mundo e é o mais importante de sempre. Mas porquê?

Esta segunda-feira, a Nike anunciou que assinou um contrato de 10 anos com a avançada norueguesa, que até aqui era patrocinada pela Puma. Ainda que os valores e os termos definitivos do vínculo não tenham sido anunciados, a Forbes garante que a norueguesa de 24 anos vai receber anualmente uma quantia que chega aos seis dígitos e que a torna a primeira a receber algo aproximado àquilo que os jogadores recebem por compromissos publicitários. Por exemplo, e se olharmos apenas para os atletas que têm contratos de longa duração com a Nike, Mbappé chega a receber quatro milhões de dólares anuais pelo vínculo com a marca, enquanto que Sterling aufere cerca de dois milhões.

“Para mim, pessoalmente, este é um passo gigantesco na minha carreira. Sinto que a Nike inspirou milhões de pessoas no desporto e eles são quem acaba por fazer a diferença quando se trata de elevar a mulher no desporto e criar uma forma de comparação. Espero que esta parceria possa escrever história outra vez, dentro de campo, quando eu voltar”, disse Hegerberg em entrevista à Forbes, onde também falou sobre os efeitos da pandemia no futebol. “Tem sido difícil para o futebol masculino. Por isso, obviamente, se olharmos de uma forma histórica, é sempre o elo mais fraco que acaba por sofrer mais com uma crise destas. E sinto que o futebol feminino ainda está numa fase em que é o elo mais fraco do futebol”, acrescentou a norueguesa.

Ada Hegerberg falhou o Mundial 2019, conquistado pelos Estados Unidos e onde a Noruega caiu nos quartos de final, por um diferendo com a Federação sobre a igualdade de pagamento para a equipa masculina e para a feminina. A luta da avançada do Lyon, que ainda não anunciou se e quando pretende voltar à seleção, acabou por inspirar outras batalhas: no início do ano passado, meses antes do Mundial, várias jogadoras da seleção norte-americana decidiram processar a própria Federação por aquilo a que chamaram “discriminação de género institucionalizada”. Sobre isso, a norueguesa considera “muito importante” que os líderes do desporto, incluindo do desporto feminino, “mantenham as vozes bem claras”.

Seleção de futebol feminino processa Federação de Futebol dos Estados Unidos por discriminação de género

Certo é que a Nike decidiu assinar Ada Hegerberg não só pelo facto de ser uma das melhores jogadoras do mundo — e para tomar uma atitude relativamente à igualdade de pagamento — como também pelo ativismo da avançada norueguesa fora dos relvados. Ao lado de Raheem Sterling e de Megan Rapinoe, que alastram as respetivas áreas de intervenção ao racismo e às causas LGBT, Hegerberg é nesta altura uma das atletas mais influentes do mundo e a mulher que está na linha da frente da promoção do futebol feminino.