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Mário Cajica, estreia do Benfica na fase liga da Liga Europa, com uma vitória por 2 x 0 frente ao AC Milan do Ruben Amorim. Vitória histórica, e é um Benfica que entra aqui em ótimo registo, com o pé direito, depois de ter feito nove alterações face ao 11 do último jogo. Foi muita a coragem de Marco Silva. Podia ter dado errado e talvez se tivesse dado errado, sofreria muitas críticas. Talvez uma acusação de quem já está a pensar no clássico.
Nem sei se assim seria, porque, de facto, o Benfica, para todos os efeitos, partia menos pressionado que o AC Milan. O Benfica sabia que, em teoria, este seria o jogo mais complexo. Haveria sempre essa lógica de que o Benfica teve aqui uma sobrecarga grande de jogos e, portanto, haveria aqui a possibilidade e a necessidade de rodar alguns jogadores face também ao jogo, que acho que toda gente considera que é muito mais importante para o futuro do Benfica, que é o jogo no Dragão, do que propriamente este. Portanto, eu acho que havia até mais a perder do lado da equipe do Ruben Amorim.
E achas que o fato de haver mais a perder do lado do Ruben Amorim trouxe também alguma leveza a esta equipe do Benfica?
Exatamente, era por aí que eu ia pegar. Ou seja, isso sentiu-se desde logo e eu acho que o Ruben Amorim também tocou nesse tema quando analisou o jogo na reação à partida, que com o primeiro gol do Benfica, as coisas automaticamente mudaram muito. O Benfica, como diz muito bem, parecia uma equipe muito mais leve, muito mais descomplexada. As coisas fluíam de forma muito mais naturais.
Jogadores motivados também pelo palco e pelo fato de estarem a receber alguns deles os primeiros minutos, isso faz muita diferença.
Exatamente. Muitos jogadores que percebiam que esta, perante o palco que era, era uma grande oportunidade para também muitos desses jogadores reentrarem aqui no leque de opções de Marco Silva e, portanto, era quase que uma situação de win-win. Marco Silva procurava mais soluções e os jogadores, claro, querem e queriam mostrar que poderiam ser opções já a contar pro jogo do Dragão, por exemplo. Portanto, dito isto, acho que o Benfica fez uma exibição extraordinária.
Uma primeira parte irrepreensível, de grande domínio e também aqui com grande gol de nota artística de Lukebakio, que, como vocês disseram na emissão, tu e o João, finalmente marcou um gol neste seu movimento típico de puxar pra meia carcaça. Costuma atirar muitas bolas ao poste, costuma estar sempre perto, hoje fez o gosto.
Estava difícil. E até fizemos o comparativo com a época passada, o jogo em Newcastle, que o Lukebakio até foi dos elementos mais ativos do Benfica e que, pra mim, nem fez nem metade do jogo que fez hoje. E a verdade é que nesse foi ao poste e desta vez, finalmente, a bola entrou e é um belo gol do Lukebakio e, acima de tudo, uma boa exibição globalmente do Lukebakio. Sabemos que tecnicamente e no um pra um, nesses momentos, é um jogador superdesequilibrador. Falta-lhe tudo o resto, às vezes, sem bola, mas mesmo hoje sentiu o Lukebakio diferente. Mesmo quando o Benfica fechava, e teve que fechar em alguns momentos o bloco, o Lukebakio acompanhou a equipe. Portanto, sentiu-se aqui um jogador completamente diferente. Eu acho que o Lukebakio e o Kaminski claramente que ganharam aqui mais uns quantos pontos.
Sudakov voltou a merecer a confiança de Marco Silva, perdeu recentemente o lugar pra Estiani, que de resto acabou também por fazer vários gostos do Marco Silva. Já jogou à esquerda, agora está a jogar atrás do avançado. Dá pra tudo. E em que lugar fica o jogador que agora vê Estiani ocupar-lhe? Sudakov aproveitou hoje pra ganhar algum lugar?
Eu creio que não foi uma exibição, outra vez, de encher o olho do Sudakov. Teve aqui e ali alguns pormenores e aquele arremate à entrada da área que levou muito perigo, mas continua sendo, pra mim, curto, até tendo em conta o ritmo exhibicional que o Benfica apresentou. Claramente que se pedia um bocadinho mais em alguns momentos ao Sudakov e continua se a pedir um bocadinho mais ao Sudakov. Portanto, objetivamente, não acho que tenha sido um jogo que nos faça pelo menos pensar que o Sudakov ganhou pontos. Acho que muito se calhar não os perdeu, mas também não creio que os tenha ganho. De qualquer forma, como dizia, uma exibição muito boa do Benfica, dominadora, acima de tudo, com muita clareza naquilo que queria do jogo, a saber os momentos em que tem de pressionar, a saber os momentos em que tem de ir pra cima, a saber os momentos em que tem de baixar e atacar as transições e o espaço. Uma equipe super sólida e competente. E o mérito é, claro, de Marco Silva, pela forma como manietou o adversário, pela forma como organizou a equipe. Do outro lado, um AC Milan que roçou o paupérrimo em termos exibicionais.
Rossoneri. Eu não posso, por conta dessas horas adiantadas.
Podes continuar. Mas defensivamente com muitos problemas e a verdade é que também ofensivamente uma equipe que pouco ou nada conseguiu criar.
Gonçalo Ramos, quase invisível.
E mesmo assim ainda tentou uma vez ou outra baixar e ligar-se à equipe, mas era praticamente impossível, porque não havia fluidez no jogo interior. O AC Milan diria que só com a entrada do Saelemaekers, já na segunda parte, é que teve ali um bocadinho mais de qualidade.
Rabiot, que é um grande nome do futebol que já não acrescentou muito.
Mas também já entrou numa fase muito difícil.
Diego Moreira acabou por responder com alguma jogada interessante.
Agitou um pouquinho, mas acabou por colidir com o melhor Bennacer, que foi o Bennacer da segunda parte. Eu diria que o Chukwueze, se calhar, foi o elemento que mais conseguiu agitar em alguns momentos ali do lado direito, porque de resto foi muito pouco e eu acho que o Ruben Amorim tem que sair com muita preocupação deste jogo, porque, de facto, foram poucas ideias e muito pouco futebol aquilo que o Milan apresentou frente à equipe do Benfica.
O Benfica na primeira parte foi totalmente dominante, conseguiu ter mais bola, foi sempre mais perigoso e nunca deixou que o Milan criasse grande perigo. Um registro mais ou menos semelhante ao da segunda parte, sendo que na segunda parte o Milan foi tendo a capacidade pra ter um pouco mais bola, mas dá a ideia de que foi também um domínio consentido pelo Benfica, que conseguiu sempre manter a sua baliza intacta Protegida e quando não estava protegida, quando foi atacada pela meia distância, o único recurso que o Milan usou, esteve Trubin, que não tem sido habitual e que hoje fez uma belíssima exibição. Como disseste na emissão, entre os postes, sabemos que não é problema para Trubin.
Sim, muito sólido. E mesmo nas saídas, teve um ou outro problemazinho, mas acabou por resolver bem. Acho que é uma bela exibição do Trubin. Efetivamente, acho que é até inglório estarmos aqui a apontar o dedo a um ou outro jogador do Benfica, porque eu acho que hoje foi, de facto, uma exibição muito boa do Benfica. Se calhar, a grande exibição do Benfica de Marco Silva até o momento, isso é claro, também tendo em conta o adversário que tinha pela frente.
E o contexto, de vir de uma sequência de grandes jogos, ter de fazer esta gestão por questão do plantel face a um clássico, também está tudo a correr feição. Se o Benfica ganha o clássico do próximo domingo, aqui Marco Silva tem início extraordinário.
Claro, extraordinário. Se vencer no Dragão, claro que tem um início extraordinário. Nem há dúvida nenhuma em relação a isso.
É um programa aqui na Rádio Observador que agora ganha camadas de interesse.
Exatamente. Portanto, acompanhem-nos no próximo domingo. De qualquer forma, acho que tem tudo para ser um grande jogo, obviamente, porque são duas equipas que vão num excelente momento para o jogo. E o Benfica ainda consegue dois extras: o de Marco Silva encontrar aqui jogadores que até pareciam esquecidos.
Ganhar dois de cabeça.
Que estavam até algo desacreditados, o Lukebakio, o Kaminski. Consegue reativar os jogadores que ainda não tinham mostrado muito, porque chegaram há pouco tempo, como o El Kaouani ou o Çiraci. E eu acho que, ao mesmo tempo, consegue gerir a condição física de grande parte dos jogadores que estavam a ser importantes. Portanto, o Benfica tem um jogo a meio da semana, mas que acho que nem vai afetar praticamente nada o encontro de domingo.
Até capaz de dar mais pujança do que aquela que tinha, no sentido em que, como houve esta rotação, o Benfica também vai agora com outras armas para o Dragão.
Mais motivado e com mais soluções.
E para saber também qual é a tua opinião das prestações de Çiraci, fez estreia a titular pelo Benfica, e também de El Kaouani.
O Çiraci, muito seguro ali no centro da defesa com o Tomás Araújo, uma dupla sólida e, de facto, também fruto dos grandes jogos que o Palhinha faz. E teres o Palhinha à frente de uma dupla de centrais ajuda muito a que o jogo corra melhor e o Palhinha voltou a fazer um belíssimo jogo. Até me surpreendeu fazer os 90 minutos, mas fez um belíssimo jogo. O El Kaouani, ofensivamente, deixa pormenores e a forma como sabe cruzar, a forma como se aproxima do último terço, que me deixam a ideia clara de que vai ser uma solução muito importante para o Benfica, principalmente em jogos em que o Benfica tem de atacar mais, tem de ter ali o jogador referência, como hoje tinha o Durán. E portanto, acho que são ótimos indicadores daquele que, se calhar, nos últimos anos, foi o rei das assistências no futebol neerlandês.
El Kaouani, que é a quem eu chamei El Karaouni, que faz lembrar Karagounis, antigo jogador grego do Benfica. Fica também este momento de nostalgia. Resta saber também o que é que, na tua opinião, foi o pior esta noite em San Siro. Foi mesmo o Milan, Rúben Amorim?
Sim. Eu estive aqui até a pensar.
A tentar particularizar.
Se iria individualizar ou não. E posso individualizar, mas queria deixar bem vincado que coletivamente foi um desastre a exibição do Milan a todos os níveis. Tem ali um ou outro ponto positivo, mas é pouquíssimo. Percebe-se, e volto a dizer, Rúben Amorim ainda não tem, neste momento, capacidade com os jogadores que tem e com o pouco tempo que tem para rodar desta forma a equipa, e de facto sentiu-se uma diferença absurda nos jogadores que entraram. E mesmo assim o Milan não rodou tanto como o Benfica, portanto até recordo isso, mas é muito pouco aquilo que se viu deste AC Milan. E eu acho que Rúben Amorim tem aqui muito em que pensar em vários setores, mas efetivamente foi um AC Milan quase em registo de pré-época, com pouquíssima intensidade e sem capacidade para duelos, o que se apresentou frente ao Benfica, com várias exibições muito abaixo do nível. O Jashari foi uma desilusão, o Hutchinson fez 45 minutos.
Pouca qualidade.
Pouquíssima qualidade. O Gonçalo Ramos não teve quase bola e não conseguiu quase ter ligação com o jogo do Milan.
Pavlović, não é o arquétipo do jogador técnico.
Sim, também não foi um jogo de encher o olho. Enfim, são vários os pontos negativos do AC Milan e nem vou colocá-los no positivo, mas diria que o Saelemaekers entra muito bem no jogo e se calhar poderia ter sido ali uma boa solução e o Chukwueze em alguns momentos conseguiu agitar. Diria que, se calhar, são os dois elementos que se destacam na equipa do AC Milan.
E a fechar em nota de beleza, quem é que foi o melhor, ou quem, ou o quê, nesta vitória do Benfica em San Siro?
Sendo uma exibição extraordinária do Benfica, acho que há vários pontos positivos. O Trubin deu ótima imagem, o Banđák, principalmente na segunda parte, esteve muito bem. E atenção, porque já levou com o Diogo Moreira em vários momentos e levou praticamente sempre a melhor, tem uma ou outra imprecisão, mas em nada mancha a bela exibição que tem. O João Palhinha foi, como já disse, intransponível.
E mesmo já alcançado, ainda dava aquele esforço final para recuperar algumas bolas.
Uma barreira de segurança para a linha defensiva. E depois, claro, tenho que dar o mérito ao Kaminski e ao Lukebakio pelo grande jogo que fizeram ambos e eram dois jogadores que queriam agarrar esta oportunidade e eu acho que a agarraram. Só deixar uma última nota para o Durán, que eu sei que, se calhar, não fez um jogo supervistoso.
Pode encher o olho, porque o ponta de lança vive de gols e desse momento, mas foi um jogador trabalhador.
O papel do Durán neste jogo foi importante também para libertar aqui um bocadinho o Lukebakio, o Kaminski, por exemplo, que esteve constantemente em duelos com o De Vrij, com o próprio Pavlović em alguns momentos, e isso ajudou a que os centrais do Milan ficassem mais condicionados e mais pressionados. E esse trabalho do Durán, que, de facto, não foi um jogo de encher o olho, nem pouco mais ou menos, mas foi importante a presença do Durán nesse aspecto, que ajudou, na minha opinião, a que o Lukebakio e o Kaminski, por exemplo, tivessem grande impacto no jogo.
Mário Cajica, está feito e entregue o relatório de jogo desta vitória histórica do Benfica, a primeira frente ao AC Milan, e logo no San Siro, por duas bolas a zero, num jogo em que Marco Silva teve a coragem de fazer nove alterações face ao último 11, que venceu o Gil Vicente e que contou com gols de Dodi Lukebakio, ao minuto 16, e também de Jakub Kaminski, o reforço placar do Benfica, ao minuto 54, assistido por El Kaouani. Um grande abraço, Mário Cajica.
Grande abraço.
Tudo de muito bem.