António Costa não esqueceu a Guerra da Ucrânia nem as consequências do conflito na vida das famílias portuguesas, mas acabou por dar razão ao Presidente que, nos cumprimentos natalícios em Belém, disse que “o otimismo é monopólio do primeiro-ministro”. Na mensagem de Natal emitida este domingo à noite, António Costa garantiu que Portugal tem “razões para ter confiança” e antecipou um país quase encantado: as exportações, o investimento e o emprego crescem; está no “pelotão da frente“; continua a “aproximar-se das economias mais desenvolvidas da Europa”. E mais: está imune a “turbulências” por ter o défice e a dívida em trajetória de descida.
O primeiro-ministro quis dar um peso particular a três palavras: paz, solidariedade e confiança. Mas colocou mais ênfase nesta última palavra, que repetiu sete vezes numa mensagem de quatro minutos e meio. António Costa começou por enumerar as várias consequências da guerra na Ucrânia — inflação, taxas de juro ou custo da fatura de energia para as famílias –, mas para logo dizer que, apesar de tudo isso, o país tem conseguido “continuar a aproximar-se das economias mais desenvolvidas da Europa”.
Mensagem de Natal do Primeiro-Ministro @antoniocostapm. pic.twitter.com/aMBAbHh1RB
— República Portuguesa (@govpt) December 25, 2022
António Costa diz ainda que o país está com “investimento, as exportações e o emprego a crescerem” e que tem “por isso, razões para ter confiança“. Essa característica (a confiança) está, de acordo com o primeiro-ministro, assegurada apesar do incerto contexto mundial: “Confiança é o que o nosso país nos garante hoje, quando tanta incerteza nos rodeia no cenário internacional. Confiança no futuro pelo que estamos a fazer agora no presente.”
O primeiro-ministro fala depois em “tempos exigentes”, mas diz, mais uma vez, que a “solidariedade” que os portugueses demonstram dá “confiança na mobilização de todos em torno dos desafios estratégicos que se colocam no país: reduzirmos as desigualdades, acudirmos à emergência climática, assegurarmos a transição digital e vencermos o desafio demográfico.”
O rigor nas contas públicas deixa país abrigado das “turbulências do passado”
António Costa aproveita a mensagem de Natal para afirmar mais uma vez que uma das grandes bandeiras do Governo é o rigor das contas públicas e que isso é uma marca que o distingue da outro governo maioritário do PS: “A trajetória sustentada da redução do défice e da dívida coloca-nos ao abrigo das turbulências do passado.” O Governo teve até, no final deste ano de 2022, de aproveitar para distribuir grandes quantias de dinheiro (um novo apoio de 240 euros a um milhão de famílias ou uma tranche de mil milhões para pagar dívidas dos hospitais) para evitar o mau sinal político de ter um excedente orçamental numa época de crise.
O primeiro-ministro continuou a depois enaltecer “o investimento que temos feito nas qualificações, na ciência, na inovação e na transição energética e climática”, que, no entender de Costa, “garante-nos que estamos no pelotão da frente para vencer os desafios do futuro.” E conclui a descrição de um país onde é possível uma espécie de portuguese dream utilizando mais uma vez a palavra confiança: “É assim que podemos ter confiança que a nossa sociedade é capaz de garantir às novas gerações que aqui em Portugal terão a liberdade para prosseguir os seus sonhos e oportunidades para construirem o seu futuro”.
Ucrânia e inflação: os espinhos no país cor-de-rosa antecipado por Costa
As dificuldades não foram a tónica principal na mensagem do primeiro-ministro, mas também não as ignorou. Mesmo que muitas vezes as tenha referido para logo dizer, confiante, que o país tem condições para as ultrapassar.
Se nos últimos dois anos o discurso acabou marcado pela pandemia, agora a referência datada é outra: a Guerra na Ucrânia. O primeiro-ministro disse, aliás, logo no início da mensagem que “paz é o que todos ansiamos desde que o horror regressou à Europa, pela invasão da Ucrânia pela Rússia.” António Costa fez questão de dizer que acompanha “a dor e o sofrimento do povo ucraniano” e que se bate “lado a lado com a Ucrânia, pela paz e em defesa do Direito Internacional”. Fez questão depois de deixar uma “palavra de carinho especial à comunidade ucraniana que vive em Portugal”, desejando-lhes que “em Portugal encontrem o melhor conforto possível neste momento de angústia e, seguramente, de saudade.”
António Costa falou então das “consequências desta guerra”, pedindo “solidariedade” entre os portugueses para as enfrentar. E enumerou três aspetos negativos: “A inflação atingiu níveis que não vivíamos há três décadas; “As taxas de juro subiram para valores que os mais não conheciam”; “E a fatura da energia cresceu, tanto para as famílias, como para as empresas.”
O primeiro-ministro acrescentou que famílias, empresas, instituições do setor social, autarquias e o Estado estão “todos a lutar lado a lado para não deixar ninguém para trás, para proteger o emprego, para continuar a recuperar das feridas da pandemia, na economia, nas aprendizagens, na saúde — quer física, quer mental.”
Há um ano, na véspera da véspera de Natal, o Presidente da República alertou que a saúde mental tem sido o “irmão pobre” em Portugal. Em outubro a nova lei da saúde mental foi aprovada no Parlamento, depois de ter sido aprovada em Conselho de Ministros em julho. António Costa fez aqui questão de deixar essa ressalva sobre a saúde mental, assumindo-a como uma nova frente de batalha do SNS.
É também neste momento que António Costa faz a única referência à pandemia, para alertar que é preciso “recuperar das feridas” que deixou, mas falando do problema de saúde pública em si como algo já ultrapassado.
As palavras “especiais” numa mensagem sem marca pessoal
Na mensagem de há um ano António Costa começava a dizer que teria “muito mais a dizer” aos portugueses, assumindo que só não o fazia por estar então em período pré-eleitoral. Tinha, por isso,”um especial dever de ser contido.” Num discurso então marcado pela pandemia, Costa lembrava igualmente a sua situação pessoal, que também tinha, em 2020, sido forçado a passar o Natal longe dos seus mais próximos. Desta vez, não houve nenhum toque pessoal na mensagem.
Costa “contido” admite falhas no combate à pandemia: “Não conseguimos chegar sempre a tempo”
Costa quis partilhar a mensagem (o tal tríptico de “paz, solidariedade e confiança”) com “todos os que vivem e trabalham em Portugal” — fazendo questão de estender estas palavras aos imigrantes — e também aos emigrantes nos vários cantos da “diáspora”. Destacou, por outro lado, uma “palavra final de sincera gratidão a todos os profissionais civis ou militares que nesta noite asseguram o funcionamento de serviços essenciais”. E, ainda, uma “palavra especial de afeto e conforto a todos aqueles que, por vicissitudes da vida se encontram sós nesta quadra e passam o Natal sozinhos”.
O primeiro-ministro não fez, uma única vez referência ao facto de ter uma maioria absoluta no Parlamento nem de ter recebido este ano um reforço de confiança ao ser eleito para mais quatro anos de mandato.