Sozinha em casa, Vera prepara-se para o jantar de comemoração da formatura de Mariana. Enquanto fuma um cigarro, imagina os cenários mais improváveis. Que mata os convidados, que foge, que está sozinha e livre. Que tem uma filha chamada Mariana. Durante o jantar, a irmã comenta com o cunhado que Vera não diz coisa com coisa, que “se troca e troca os medicamentos e que se põe a falar de coisas que não lembram ao diabo”. “Que conversa é aquela da Mariana e da formatura da Mariana? Albano, quem é a Mariana? Aí tens a prova de como a tua mulher não está bem.”

Anos antes, Vera, personagem principal do novo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, Ferry, tivera uma crise nervosa. A doença chegou quando estava a trabalhar na tese de mestrado e deixou-a incapacitada por dois anos. Durante meses, não conseguiu falar. Quando recuperou a fala, “Albano sentava-se ao seu lado, com uma folha em branco nos joelhos, e escrevia o que Vera ditava. Ela deixara de conseguir escrever, trocava as palavras, ficava horas diante da mesma frase, incapaz de continuar. Vera ditava, Albano escrevia”. Foi assim que conseguiu concluir o trabalho.

A vida tinha-se tornado um fardo demasiado pesado para Vera. Os estudos por concluir, o desemprego, as constantes dificuldades financeiras, o abordo espontâneo… “A juventude, afinal, era só esse desnorte, o de ano para ano, ao longo de uma década, sentirem, no dia 1 de janeiro, que ao mesmo só se seguia o mesmo.” Não era o que tinham sonhado. Não era o que ainda sonhava. Albano e Vera, formados em Letras, quiseram ser escritores reconhecidos. Albano tornou-se tradutor, Vera arranjou emprego numa editora. Fraco consolo para quem sempre esperou mais da vida.


Título: “Ferry”
Autor: Djaimilia Pereira de Almeida
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 161

Naquele tempo, a “primeira crise” de Vera parecia ultrapassada, mas como a irmã afirmou durante o jantar de formatura de Mariana, o nome da filha que o casal sonhara ter, a mulher continuava a lutar contra a corrente que a tentava puxar para o fundo. É essa luta que a primeira metade de Ferry descreve. A inconstância de Vera, os seus devaneios, fantasias e as dificuldades causadas pela doença, que tanto a afetam a ela como ao marido que, desde o seu esgotamento nervoso, passou a viver em sua função. A narrativa, na terceira pessoa, vai sendo intercalada por capítulos escritos pela mão de Vera, que descrevem o que sente e o que pensa.

A segunda parte, descreve a “queda” de Vera. Albano, que há muito tinha decidido que ia dedicar a vida a tentar salvar a mulher, permanece ao seu lado, até mesmo quando é internada numa clínica após o colapso total. Despede-se do emprego e muda-se para a instituição, onde começa a trabalhar como jardineiro e faz-tudo. Com o passar dos anos, torna-se num homem de confiança da direção, que o deixa usar um anexo para guardar as suas coisas e escrever. Vera piora. A família acaba por dar o casal como uma causa perdida e por cortar com todo o contacto. Isolados na clínica, Vera e Albano vivem um idílio. Longe das “palmadinhas nas costas” e das pressões e intromissões daqueles que dizem só querer o bem, o seu mundo tornou-se mais restrito mas também melhor. Ao apanharem o ferry imaginário rumo ao sul, deixaram para trás o que não interessava.

Apesar de partilharem o mesmo espaço, Vera e Albano vivem em planos distintos que raras vezes se cruzam. Ela perdida dentro de si própria e ele no meio das plantas e dos outros doentes. “Albano esquecera-se de si na batalha pela mulher, a que se entregara com a vida. Esquecendo-se, para a salvar, tinha-se lembrado da razão de estar vivo.” Para ele, não podia ser de outra forma. Amar é cuidar, e Albano leva isso à letra.

Quando toda a esperança parecia perdida, Vera recupera. A recuperaçao dá-se de repente, dez anos após ter dado entrada na instituição. O milagre não tem origem divina. Nem foi a qualidade da clínica ou o zelo das enfermeira que arrancou Vera da caverna escura onde esteve durante mais de uma década, mas o amor incondicional de Albano. Nos capítulos finais de Ferry, de volta a uma vida quase normal fora da instituição que a recebeu, Vera teme o fantasma da loucura. E se voltar a perder-se? Se isso acontecer, Albano estará ao seu lado.

História comovente, Ferry tem a desvantagem da sua estrutura. A forma como está (des)organizado impede que o leitor se relacione de forma mais profunda com o texto e se deixe emocionar. Construído para refletir a organização mental de Vera, que deixa de raciocinar de forma coerente e linear ao ser acometida pela loucura, a complexidade da narrativa, com os seus vai e vens temporais, impede uma apreensão mais imediata. Faz com que o leitor se perca nos meandros da história e da mente de Vera. A dificuldade não está em conseguir distinguir a verdade da ficção (isso faz parte do jogo), mas em montar as diferentes peças do puzzle que constituem a história do amor do casal e o que ela tem para nos ensinar.

Apesar de abordar de uma perspetiva particularmente comovente a questão da doença mental, Ferry não é um livro sobre estar doente, incapacitado e dependente, mas sobre a qualidade redentora do amor, que tudo perdoa e tudo cura. Uma história bonita, emotiva e profundamente dramática, que incentiva a uma reflexão sobre a fragilidade do ser humano. A vida, e sobretudo o período incerto da juventude, não é fácil. Mas as prioridades e a companhia certa tornam tudo melhor.