Carlos Ghosn, à época CEO da Renault, salvou a Nissan da falência, para onde foi conduzida pelos gestores nipónicos. O investimento realizado pelos franceses permitiu-lhes recuperar a empresa japonesa e criar um dos maiores grupos mundiais da indústria automóvel. Mas em 2018, quando a Nissan conseguiu afastar Ghosn com uma manobra no mínimo polémica, a Aliança entrou numa fase de divórcio iminente, em que ninguém parecia liderar e todos perdiam, duplicando investimentos sem sentido. Agora gauleses e nipónicos voltaram a sentar-se à mesa e firmaram um acordo que visa salvar o casamento.

Até aqui, a Renault detinha 43% da Nissan, enquanto estes possuíam 15% da marca francesa, mas sem direito de voto. Isto significava que nada acontecia na Nissan sem a bênção da Renault, que por sua vez nem tinha de ouvir os japoneses nas suas tomadas de posição. Depois do recente acordo, a Nissan mantém os 15% na Renault, mas passa a usufruir de direito de voto, enquanto os gauleses reduzem a participação de 43% para 15%, vendendo em bolsa os restantes 28%, o que lhes deverá permitir recuperar uma boa parte dos 3,8 mil milhões de euros atribuídos à sua quota. Paralelamente, a Nissan compromete-se a investir na Ampere, a divisão de veículos eléctricos da Renault. De acordo com a Reuters, a Nissan poderá estar interessada em investir em cinco projectos partilhados, uma gota de água nos cerca de 15 que a Renault pretende concretizar e que se propôs partilhar com os japoneses.

Tal como a Mercedes reuniu capital com a alienação do negócios dos camiões e a Volkswagen acumulou alguma folga financeira com a venda em bolsa dos títulos que detinha na Porsche, a Renault arranjou um “pé-de-meia” com a venda dos 28% da Nissan. Por outro lado, os franceses que em tempos consideravam o investimento na Nissan como um bom negócio, tanto mais que anualmente recebiam lucros importantes, viram estes praticamente desaparecer depois da saída de Ghosn, estando agora mais empenhados na estratégia de fazer crescer o seu próprio grupo, sobretudo graças à Dacia e Alpine, uma vez que a Lada, que ia entrar num processo de crescimento acelerado em paralelo com a Dacia, “desapareceu” do mapa devido à invasão russa da Ucrânia.

A plataforma CMF-EV é um dos exemplos recentes da colaboração e partilha de custos entre Renault e Nissan. Deu origem ao Ariya e ao Mégane E-Tech Electric

Pelo que se conhece do acordo, divulgado por ambas as empresas, não parecem ser evidentes as vantagens para qualquer dos parceiros, embora a Renault tenha recuperado uma boa parte do capital que investiu. Mas agora ainda há menos possibilidades de evitar a duplicação de investimentos, como foi o caso dos Renault Austral e Nissan Qashqai híbridos, em que cada marca desenvolveu a sua solução, uma delas obviamente mais cara e sofisticada, mas menos eficaz. Este é um tipo de situação que nunca aconteceria num grupo, precisamente o que Ghosn queria criar, mas que é possível numa aliança como a actual, em que cada um manda na sua casa. O tempo dirá se o casamento vai resistir, mesmo depois desta reformulação dos votos.

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