O encontro tinha sido entre o Bayern e o PSG. Germânicos contra gauleses, o campeão da Alemanha contra o campeão de França. No entanto, o melhor espelho daquilo que se passou em Munique na segunda mão dos oitavos da Liga dos Campeões estava refletido em Espanha, neste caso na capa da Marca que tinha a imagem de Kylian Mbappé de novo com cara de quem vê passar navios e a frase “Se queres ganhar a Champions, já sabes…”. Mais uma vez, o grande projeto europeu dos parisienses não passou da primeira fase a eliminar. Mais uma vez, a reformulação de todo o edifício do futebol do clube virada apenas para uma inédita vitória europeia revelou ser uma mão cheia de nada. Mais uma vez, tudo está a ser colocado em causa, com aquela cara de raiva do presidente Nasser Al-Khelaïfi a passar pela zona mista a significar mudanças à vista.

Bayern Munique, o caçador de sonhos parisienses que deixou os ricos a chorarem pela liga milionária

De acordo com a imprensa francesa, já está marcada uma reunião de emergência para escalpelizar mais um falhanço da equipa na presente temporada depois de ter caído também da Taça de França, mais um daqueles objetivos mínimos que passaram ao lado. Aliás, mais do que a eliminação em si num duelo onde algum dos potenciais favoritos à vitória final iria sempre cair, aquilo que fez disparar os alarmes foi a forma como os gauleses nunca demonstraram argumentos sequer para equilibrar a eliminatória, que em Munique poderia ter terminado com números bem mais pesados do que o 2-0. Primeiro nome em vias de ser riscado? Mais uma vez, o treinador, Christophe Galtier. Mais: corre o risco de ser despedido antes do final da época. Mais: pode ser substituído por um dos seus antecessores, Thomas Tuchel, que depois de ver o contrato com o PSG rescindido de forma precoce rumou ao Chelsea e sagrou-se campeão europeu pelos ingleses em 2021.

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As mudanças não ficarão por aqui e também Luís Campos, que assumiu a direção do futebol depois de ter sido apresentado como conselheiro do presidente Nasser Al-Khelaïfi, pode estar na porta de saída. Além da política desportiva aquém das expetativas nos resultados, a atitude de descer à zona da área técnica do PSG a 15 minutos do final da partida com o Lille numa altura em que os campeões perdiam no Parque dos Príncipes por 3-2 não foi encarada da melhor forma por ser vista já como um reflexo de desespero por tudo o que se estava a passar. Para o futuro, fica uma certeza: qualquer ideia de renovação ou revolução que avance terá sempre no centro a figura de Kylian Mbappé. Problema? O próprio pode não estar disposto a esse papel…

“Foi outra deceção. Até quando será assim? Não sei, nesta altura falo apenas nesta época e o mais importante agora é que perdemos contra uma grande equipa e que temos agora a Ligue 1 que esperamos ganhar. Nesta fase não há mais nada que me importe…”, referiu na zona mista da Allianz Arena após o encontro. “Se penso rever o meu futuro? Não, não… Estou tranquilo, a única coisa que importante agora é ganhar a Ligue 1 e depois veremos… Estamos dececionados mas temos de seguir em frente, temos que virar a página. Eles têm uma equipa construída para ganhar a Champions e este é o nosso máximo, apenas isso. Vamos tentar perceber o que aconteceu e depois voltar ao nosso dia a dia no Campeonato”, acrescentou o avançado que, segundo o jornal L’Équipe, tem apenas um par de meses para dizer que estende ou não o seu contrato até 2025, podendo assim ficar livre em menos de um ano para assinar por qualquer clube que queira.

Esse é o cenário que o PSG mais teme, tendo em conta o pouco que apresenta como certo em termos futuros até pela perspetiva de um novo fair play financeiro a partir de 2025 que pode trazer sanções desportivas e que obrigará a baixar a atual folha de salários. Assim, a ideia será aguentar Mbappé como referência (acabou a partida em Munique como capitão depois da saída por lesão de Marquinhos) e ir apostando em jovens que estão já na equipa principal como o médio Warren Zaïre-Emery ou o central Chadaille Bitshiabu, além da contratação acertada para o verão de 2023 de Milan Skriniar, defesa eslovaco do Inter que chegará a custo zero. Entre as saídas previsíveis ou no final da presente temporada ou na próxima estão pesos pesados do atual grupo como Lionel Messi, Neymar ou Sergio Ramos, três dos jogadores com maior vencimento.

Mas há mais visados depois de novo insucesso europeu, neste caso Marco Verratti, médio italiano que esteve na origem dos dois golos germânicos por perdas de bola em zona proibida. “Deviam mandá-lo de volta para Pescara, para que pudesse comer os seus pequenos kebabs e fazer passeios junto ao mar a fumar os seus cigarrinhos em paz. Nem sequer seria titular na equipa do meu filho. É exasperante o que ouço ouvir dizer dele, o miúdo Zaïre-Emery tem 17 anos acabados de fazer e já está acima dele. A França é a vergonha da Europa e no PSG o Messi e o Neymar utilizaram o clube para ser um ginásio de preparação para o Mundial”, apontava o jornalista Daniel Riolo na RMC Sports após a eliminação, num painel onde também o antigo jogador e internacional Jerôme Rothen não poupou críticas ao projeto desportivo do clube.

No entanto, a frase mais forte que ficou da noite foi mesmo de Thomas Müller, avançado internacional do Bayern que voltou a levar a melhor sobre Lionel Messi. “Contra o Messi as coisas correm sempre bem a todos os níveis nos resultados finais. A nível de clubes, o Cristiano Ronaldo era o nosso problema quando estava no Real Madrid… Tenho o maior respeito pelo desempenho individual de Messi no Mundial. Levou a equipa toda. Por outro lado, não é fácil jogar numa equipa como o PSG, porque é complicado encontrar um verdadeiro equilíbrio na equipa”, frisou o avançado, que já antes falara do duelo com o argentino. “Sei bem todas as estatísticas que tenho contra o Messi e também sei que antes de um jogo como estes se fala muito disso. Há o 8-2 contra o Barcelona mas para mim o maior resultado foi o 7-0 na eliminatória das meias em 2013”, tinha referido o jogador que se sagrou campeão mundial em 2014 contra a Argentina do número 10.

Uma década de projetos europeus falhados de Nasser Al-Khelaïfi no PSG

  • 2012/13 (Carlo Ancelotti): quartos com Barcelona (2-2 em casa e 1-1 fora)
  • 2013/14 (Laurent Blanc): quartos com Chelsea (3-1 em casa e 0-2 fora)
  • 2014/15 (Laurent Blanc): quartos com Barcelona (1-3 em casa e 0-2 fora)
  • 2015/16 (Laurent Blanc): quartos com Manchester City (2-2 em casa e 0-1 fora)
  • 2016/17 (Unai Emery): oitavos com Barcelona (4-0 em casa e 1-6 fora)
  • 2017/18 (Unai Emery): oitavos com Real Madrid (1-3 fora e 1-2 em casa)
  • 2018/19 (Thomas Tuchel): oitavos com Manchester United (2-0 fora e 1-3 em casa)
  • 2019/20 (Thomas Tuchel): final com Bayern (0-1, neutro)
  • 2020/21 (Thomas Tuchel/Mauricio Pochettino): meias com Manchester City (1-2 em casa, 0-2 fora)
  • 2021/22 (Mauricio Pochettino): oitavos com Real Madrid (1-0 em casa, 1-3 fora)
  • 2022/23 (Christophe Galtier): oitavos com Bayern (0-1 em casa, 0-2 fora)