A certa altura da temporada, mais na parte final em que as hipóteses de chegar à terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões eram mais diminutas, era o próprio Rúben Amorim que brincava com uma situação que ficou como uma das maiores lacunas do Sporting em 2022/23: a falta de um avançado. “O Chermiti vai fazer parte do nosso plantel na próxima época. Depois, se terá a companhia de um ou dois avançados, veremos. Eu sempre vos disse que precisávamos de mais um avançado”, atirou numa conferência de imprensa, ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada por estar a dizer o contrário do que tantas vezes apregoara. O treinador sabia que as falhas no planeamento da época causaram mossa e esse era um dos maiores reflexos.
Houve vários fatores que adensaram essa realidade, o maior dos quais relacionado com as lesões de Paulinho no início e na parte final da temporada que retiraram vários jogos à principal referência ofensiva dos leões, que apostaram a partir da 16.ª jornada em Chermiti para “equilibrar” essa carência sabendo que não era o contexto ideal para chegar à equipa A. Por isso, a preparação da nova temporada partiu desse pressuposto: teria de ser contratado mais um avançado. Mais do que isso, a maior fatia de verbas para reforçar o plantel seria destinada à contratação de um avançado. E foi este o ponto de partida até chegar ao objetivo que surgiu sempre como prioridade para o Sporting, apesar dos vários nomes que foram sendo oferecidos à SAD.
Foram ventilados jogadores portugueses, foram ventilados jogadores mais velhos (e com maior experiência), Viktor Gyökeres permaneceu como o número 1 numa lista que contava com avançados referenciados e conhecidos do scouting leonino como o internacional japonês Ayase Ueda, do Cercle Brugges. Foi por isso que as negociações com o Coventry pelo dianteiro sueco, que envolveram viagens a Inglaterra para tentar desbloquear o acordo, foram sempre o foco verde e branco. Só na última semana de junho começou a haver algumas garantias de que o internacional de 25 anos já não fugia e nem mesmo as abordagens à última hora de clubes ingleses e italianos, que estariam na teoria dispostos a pagar mais, mudaram o destino do jogador.
Após começar a jogar futebol no IFK Aspudden-Tellus, Gyökeres acabou a formação no IF Brommapojkarna, onde fez a estreia como sénior aos 17 anos. O Europeu Sub-19 de 2017, onde defrontou na fase de grupos um conjunto de Portugal que contava com Rafael Leão, Diogo Costa, Diogo Dalot, Florentino Luís ou Jota, entre outros, funcionou como trampolim para outros voos, sendo que o Brighton conseguiu antecipar-se a toda a concorrência contratando o avançado em setembro de 2017 com o empréstimo até ao final da Segunda Liga sueca, que terminou com o IF Brommapojkarna a subir de divisão como campeão após um hat-trick de Gyökeres. Ainda assim, já no Brighton, acabou por passar mais tempo na formação Sub-23 do que ao serviço do conjunto principal, o que levou a que fosse emprestado aos alemães do St. Pauli e ao Swansea.
Em janeiro de 2021, de novo pela pouca utilização, o avançado foi cedido ao Coventry e, apesar de ter feito apenas três golos em 19 jogos, mereceu a aposta do clube, que avançou para a sua contração no verão. Foi aqui que Gyökeres atingiu um ponto de afirmação, fazendo duas grandes épocas no Championship com algumas distinções individuais à mistura e um total de 38 golos em 91 encontros do competitivo segundo escalão britânico. Só na última temporada o avançado marcou 21 golos no Championship, levando o Coventry ao playoff de acesso à Premier que começou com a vitória diante do Middlesbrough antes da derrota no desempate por grandes penalidades frente ao Luton Town, que assegurou assim a última vaga. Internacional A desde 2019, foi também a partir de 2022 que jogou mais, com dois golos em dez partidas.
????️ Coventry Owner, Doug King on Viktor Gyokeres: “There is quite lot of interest in Viktor. He's clearly made his comments to the press, and we'll see how it unfolds. Sporting Lisbon have been in contact with the club.” pic.twitter.com/YfUtCbQfMW
— Everton Extra (@Everton_Extra) June 20, 2023
Depois de várias reuniões e encontros entre as partes, em toda uma novela que também foi acelerando o seu ritmo a partir do momento em que o avançado trocou de representante, o acordo ficou finalmente fechado já depois das presenças de Frederico Varandas e Hugo Viana em Inglaterra. Em Alvalade, há alguns dias que o acordo era dado como fechado (embora fosse comentado que poderia haver um anúncio oficial antes de Viktor Gyökeres) mas o Sporting teve mesmo de subir acima daquilo que pretendia gastar para assegurar o jogador, também ele uma parte importante pela decisão assumida de querer mudar-se para Lisboa. Assim, e ficando ainda por saber que parte de um futuro negócio poderá ter ficado salvaguardada pelos ingleses, os leões pagarão um total de 20 milhões de euros fixos, havendo ainda mais quatro por objetivos desportivos.
Viktor Gyökeres will play for Sporting as it makes club record transfer fee — he will join on €24m deal from Coventry as revealed earlier. ???????????????? #Sporting
Final green light just arrived also on the payment terms and installments.
Medical tests being scheduled.
Here we go. ✔️ pic.twitter.com/ZEAAMNscbJ
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) July 7, 2023
Apesar de chegar de um clube do segundo escalão de Inglaterra, Gyökeres vai bater em termos brutos os valores da maior contratação de sempre do Sporting que pertencia a Paulinho, com os leões a pagarem 16 milhões de euros ao Sp. Braga em janeiro de 2021 por 70% do passe do internacional português (dois golos em três jogos pela Seleção). Até aos recentes investimentos feitos nos passes de Pedro Gonçalves e Ugarte, que tinham colocado ambos no top 3, o também avançado Bas Dost era a segunda maior compra por um valor de quase 12 milhões de euros, entre dez milhões fixos e o restante por objetivos concretizados. De acrescentar que, além do sueco, os leões têm outros alvos no mercado para reforçarem três posições: lateral direito, médio e extremo. A partir daí, será o próprio mercado a ditar leis sobre a possibilidade de chegarem mais elementos, seja por saídas não previstas, seja pela capacidade financeira de melhorar mais o plantel.