António Costa e Luís Montenegro até foram duas vezes à Madeira no verão, mas isso foi antes da campanha oficial começar na região. E há uma razão para isso: as estruturas regionais dos dois maiores partidos — admitem ao Observador dirigentes do PS/M e do PSD/M  — não gostam de ter os líderes nas campanhas por uma questão da afirmação da autonomia. Se é certo que Costa não volta ao arquipélago (onde as sondagens preveem uma derrota para o PS), Miguel Albuquerque abriu uma exceção para Luís Montenegro, que vai estar no último dia de campanha e ainda não noite eleitoral.

Começando por António Costa, tal como na eleição de 2019, o primeiro-ministro já não se vai deslocar à Madeira — aquela que antes assumia ser a sua “obsessão” eleitoral — até ao dia das eleições. O primeiro-ministro esteve na Madeira dois dias antes da campanha oficial arrancar e a principal mensagem até pode ser lida mais como um descanso para os eleitores do PSD que podiam temer que a Madeira fosse prejudicada por o Governo central ser de outra cor política: “A região pode continuar a contar com a República”.

O líder do PS/Madeira, Sérgio Gonçalves, desvalorizou, em entrevista ao Observador, a ausência de Costa da campanha, dizendo que “não é um líder partidário nacional como qualquer outro. É o primeiro-ministro de Portugal, tem uma agenda muito complicada“. Para o líder regional, o PS “não sentirá a necessidade que outros partidos têm de ter os líderes nacionais” na Madeira por reconhecer a solidez da estrutura regional. Sérgio Gonçalves defende mesmo que ter os líderes nacionais na Madeira “quase em campanha diária”, como fazem os pequenos partidos, é de “alguma forma enganar o eleitorado”.

Montenegro e uma presença para quebrar a tradição

Nem Rui Rio, nem Passos Coelho foram à Madeira em campanha oficial, mas isso pode vai mudar. Por norma, o PSD-Madeira não gosta de ter o líder nacional — por recusar o paternalismo de Lisboa — na campanha das regionais. Estrategicamente, como acontece no PS, essa presença fica para a tradicional festa do Chão da Lagoa ou para eventos que ocorram imediatamente antes. Mas isso vai mudar.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Miguel Albuquerque abriu uma exceção para receber Montenegro durante aquela que é a sua última ação de campanha: uma arruada na Avenida Arriaga, no Funchal. Montenegro tem jantar marcado em Rio Maior nesse dia, mas conseguiu conciliar ambos na agenda. O líder do PSD nacional está empenhado na Madeira, naquela que pode ser a primeira vitória desde que está na liderança do partido. Depois de ir ao continente, Luís Montenegro vai deslocar-se de novo à Madeira no domingo para dar pessoalmente um abraço a Miguel Albuquerque por aquilo que espera ser uma vitória. No dia seguinte, fará mesmo uma reunião da comissão permanente na Madeira.

Montenegro e Albuquerque têm excelentes relações. Os primeiros sinais evidentes dessa aproximação foi quando, ainda no final de 2021 e sob a liderança de Rui Rio, Pedro Calado encabeçou a lista apoiada por Montenegro e os montenegristas ao Conselho Nacional. Na entronização de Montenegro, Miguel Albuquerque encabeçou a lista à Mesa do Congresso na lista oficial (a apoiada pelo líder do PSD) e é atualmente o presidente desse órgão, presidindo por inerência ao Conselho Nacional. Se Luís Montenegro for mesmo à Madeira na sexta-feira, rompe com a tradição de os líderes nacionais não marcarem presença na campanha oficial.

Uma campanha ‘nacionalizada’

Os partidos mais pequenos, com menos recursos e estrutura, têm recorrido muito aos seus líderes nacionais para puxar pela campanha. Ao contrário de PS e PSD — que têm sempre cobertura mediática, nem que seja regional — os outros partidos têm de ser mais criativos para arrastar a imprensa. É aí que entram as estrelas nacionais.

O Bloco de Esquerda já contou com ex-líder Catarina Martins e com a líder Mariana Mortágua — e ambas voltam à Madeira na reta final da campanha. O líder do PCP, Paulo Raimundo, já não volta a fazer companhia a Edgar Silva, mas também foi à Madeira em período oficial de campanha.

A Iniciativa Liberal praticamente mudou-se de malas e bagagens durante o último fim de semana com o atual líder (Rui Rocha) o ex-líder (João Cotrim Figueiredo) e metade da bancada (incluindo a ex-candidata à liderança Carla Castro) a marcarem presença em quase todas as ações do candidato Nuno Morna. Outro ex-líder liberal, Carlos Guimarães Pinto, também irá à campanha em período oficial de campanha. Além disso, tanto Rocha, como Cotrim, foram a Lisboa para o debate e votação da moção de censura ao Governo, mas voltam à Madeira para a fase final de campanha.

O mesmo acontece no Chega. André Ventura foi à Madeira no domingo inaugurar um outdoor, fez uma arruada na Ribeira Brava na segunda-feira e depois foi para Lisboa. Quarta-feira volta à Madeira e regressa de novo para Lisboa. Isto para sexta-feira regressar novamente região para o encerramento da campanha. A pegada ecológica é pesada, mas não só o Chega não tem essas preocupações ambientais, como o partido na Madeira precisa do líder nacional para ganhar votos.

Artigo atualizado às 15h39 com a confirmação do PSD de que Luís Montenegro vai mesmo à Madeira.