Era uma espécie de “palavra proibida” para o primeiro-ministro espanhol. Esta sexta-feira, Pedro Sánchez utilizou pela primeira vez a expressão “amnistia” para se referir à possibilidade de um perdão das acusações aos líderes catalães responsáveis pela tentativa de independência da Catalunha, em 2017, como parte das negociações para formar governo.
Em declarações aos jornalistas à saída da reunião de líderes europeus em Granada, o chefe do governo espanhol em funções utilizou a palavra que vinha evitando desde que foi indicado pelo Rei Filipe VI para formar governo após o falhanço da investidura de Alberto Núñez Feijóo – um processo que necessita de apoio do Junts per Catalunya, partido catalão que tem, justamente, exigido um perdão aos líderes envolvidos no movimento independentista da região.
“Conhecemos a proposta do Sumar e dos outros partidos políticos sobre a amnistia, que não deixa de ser uma forma de superar as consequências judiciais da situação que viveu Espanha, com uma das suas piores crises territoriais em 2017”, referiu Sánchez aos jornalistas.
A proposta do Sumar, a plataforma eleitoral de esquerda que é essencial para que o PSOE de Sánchez consiga formar governo, prevê, justamente, uma amnistia para os líderes catalães. Esta sexta-feira, a líder da plataforma, Yolanda Díaz, que é também ministra do Trabalho e vice-presidente do governo em funções, anunciou que o Sumar vai apresentar na próxima terça-feira, em Barcelona, um parecer jurídico aos possíveis parceiros catalães tendo em vista a amnistia e desjudicialização do diferendo político entre a Catalunha e o governo central espanhol.
Sánchez fez questão de deixar claro que a visão do Sumar sobre o tema “não é a posição do PSOE”. Por outro lado, o líder dos socialistas espanhóis voltou a afirmar que a prioridade é alcançar um acordo no qual todas as partes – PSOE, Sumar e independentistas catalães – se revejam. “Os espanhóis falaram. O nosso dever é tratar de formar um governo o quanto antes”, disse.
Ainda que compreendendo as questões sobre os termos do acordo, Pedro Sánchez afirmou que as várias forças políticas estão “em plena negociação” e que não há ainda um entendimento firmado: “Não haverá acordo [de governo] até que tudo esteja acordado”. O primeiro-ministro socialista garantiu também que os termos de um eventual acordo serão “absolutamente transparentes” e que qualquer acordo que contemple uma amnistia ou perdão de pena para os líderes independentistas catalães será “público”.
Esta sexta-feira, também o ministro da Presidência espanhol, Félix Bolãnos, respondeu ao anúncio de parecer jurídico por parte do Sumar, e também ele deixou a porta entreaberta a um entendimento. Ainda que ecoando o que disse Pedro Sánchez, de que a posição da plataforma de Yolanda Díaz “não reflete a posição do Partido Socialista”, Bolãnos reconheceu que a argumentação da colega de governo “é respeitável”, e remeteu eventuais decisões para as próximas semanas que, disse, serão de “intensa negociação”.