Perante um corpo inanimado, a primeira reação é avaliar os sinais vitais: sentir a pulsação, ouvir a respiração e testar a temperatura; depois, se possível, reanimar. O “corpo” em causa não está inanimado, mas os “sinais vitais” estão em pior estado do que alguma vez na história da humanidade, concluiu uma equipa internacional de cientistas. A vítima é o planeta Terra.

“Entrando num território desconhecido” é o título do relatório publicado esta terça-feira na revista científica BioScience, do Instituto Americano das Ciências Biológicas, onde os autores revelam que 20 dos 35 sinais vitais do planeta usados para monitorizar as alterações climáticas atingiram recordes extremos.

As tendências revelam novos recordes históricos relacionados com o clima e padrões profundamente preocupantes de catástrofes relacionadas com o clima. Ao mesmo tempo, registamos progressos mínimos da humanidade no combate às alterações climáticas”, anunciam os autores do relatório.

O relatório foi coordenado por William J. Ripple e Christopher Wolf, investigadores no Departamento de Ecossistemas Florestais e Sociedade na Universidade Estadual do Óregon (Estados Unidos), que em 2019 tinham usado os mesmos indicadores para “declarar uma emergência climática” — e que, desde então, já foi assinado por mais de 15 mil cientistas e académicos, de 163 países.

Temperaturas recorde, um continente a aquecer e a ameaça de seca. O que se passa com o clima da Europa?

Só no ano de 2023, assistimos a ondas de calor em todo o planeta, máximos de temperatura do ar atingidos, recordes batidos nas temperaturas à superfície dos oceanos (em particular no Oceano Atlântico), e baixos níveis de cobertura de gelo no mar, com especial destaque para a Antártida. A estes sinais vitais, os cientistas ainda juntam a enorme extensão de área queimada pelos incêndios no Canadá e a quantidade de dióxido de carbono (CO2) libertada.

Incêndios no Canadá batem recorde anual de emissões de carbono

O aquecimento global provocado pelas atividades humanas é um dos principais responsáveis por estes extremos históricos, mas os processos que conduzem a esses picos e como alimentam situações piores podem ser bastante complexos, assumem os autores.

Ao analisarem a evolução dos indicadores, os autores revelam que o consumo de energias renováveis aumentou, mas também aumentou o consumo generalizado de energia (incluindo o aumento da queima de carvão em algumas economias). Também aumentaram os subsídios aos combustíveis fósseis que visam proteger os consumidores, mas que acabam por favorecer este tipo de energia em vez de promover o uso de fontes alternativas. Como resultado, as emissões de dióxido de carbono e gases com efeito de estufa subiram.

“A humanidade está a falhar, para o dizer sem rodeios”, afirmou William J. Ripple, citado pela Scientific American. “Em vez de reduzirmos as emissões de gases com efeito de estufa, estamos a aumentá-las. Por isso, não estamos a sair-nos bem neste momento.”

Verão de 2023 foi o mais quente desde que há registos

As alterações climáticas são ainda causa de sofrimento humano, alertam os cientistas. O ano de 2023 está no caminho de se tornar um dos mais quentes de sempre; os fenómenos extremos intensificam-se (das inundações sem precedentes a incêndios florestais que consomem vastas áreas) e perdem-se inúmeras vidas humanas; houve cortes de energia, quebras significativas na produção agrícola e milhares de milhões de euros de danos em infraestruturas. “Extremos no estado do tempo e outros impactos climáticos são desproporcionalmente sentidos pelas pessoas mais pobres, que contribuíram o mínimo para as alterações climáticas”, destacou Thomas Newsome, da Universidade de Sidney.

Perante estes desenvolvimentos preocupantes, o nosso objetivo é comunicar factos sobre o clima e recomendações políticas a cientistas, decisores políticos e ao público”, declaram os investigadores.

Uma das primeiras medidas sugeridas pela equipa é o fim da queima de carvão como fonte de energia e a eliminação da emissão de gases com efeito de estufa, quer pela transição para energias renováveis, por alterações do uso da terra e pelo sequestro de carbono. As medidas de sequestro de carbono, no entanto, ainda não estão validadas e precisam de mais investigação, pelo que devemos apostar já na redução das emissões, alerta a equipa.

Também é necessária mais investigação sobre os mecanismos de retroalimentação, referem os cientistas dando o exemplo do pergelissolo ou permafrost. O aumento das temperaturas globais, causado pela emissão de gases com efeito de estufa (como o metano e dióxido de carbono), está a levar ao descongelamento desta camada de subsolo que, por definição, estaria sempre congelada nas latitudes mais elevadas. Ao descongelar, o permafrost liberta o metano e dióxido de carbono aprisionado, o que aumenta as emissões de gases com efeito de estufa.

Fracasso dos governos pode ser maior violação intergeracional de direitos, acusa Amnistia Internacional

As alterações climáticas também provocam alterações e perdas na produção agrícola que podem agravar situações de seca e fome em várias regiões. A equipa de investigadores apela a esforços concertados a nível global para aumentar a resistência das culturas ao calor, à seca e a outros fatores de stress climático, uma vez que as perdas na produção podem acontecer simultaneamente em várias partes do mundo e diminuir a capacidade de resposta.

“Defendemos a redução do consumo excessivo de recursos; a redução, reutilização e reciclagem de resíduos numa economia mais circular; e a prioridade ao florescimento humano e à sustentabilidade”, escrevem no relatório. “Damos ênfase à justiça climática e à distribuição justa dos custos e benefícios da ação climática, particularmente para as comunidades vulneráveis. Apelamos a uma transformação da economia global para dar prioridade ao bem-estar humano e proporcionar uma distribuição mais equitativa dos recursos.”