A mina de Neves Corvo em Castro Verde apresenta um registo “desafiante” em termos operacionais e de segurança e os novos donos, a empresa sueca Boliden, dizem estar empenhados em “instalar um ambiente de segurança adequado” para não se repetirem os acidentes de trabalho do passado recente que causaram quatro mortos em quatro anos.

Em declarações feitas aos analistas numa apresentação do negócio, o presidente executivo da Boliden admitiu que, no passado, a mina de cobre e de zinco teve quatro acidentes mortais em quatro anos. “Temos que olhar para isto e ver o que pudemos melhorar”. Além do tema da segurança na atividade, Mikael Staffas indicou também que há uma margem para trabalhar na redução dos custos de operação, mas não quis acrescentar mais detalhes, porque a Boliden ainda não teve acesso a toda a informação sobre a mina que, para já, continua a ser gerida pela Lundin Mining.

O gestor avisou também que “não há um passe mágico ou um investimento mágico que dê um retorno mágico. Temos de tentar melhorar a partir do que temos”. Nesta conversa com os analistas, o gestor sinalizou que existem recursos geológicos em redor da mina de Castro Verde que podem vir a ser convertidos e prolongar o tempo de vida de exploração que, com as atuais reservas, está situado nos dez anos. Apesar deste tempo limitado, os gestores da Boliden consideram que Neves Corvo é um ativo valioso.

Albino Monteiro, do Sindicato da Indústria Mineira, defende que é necessária uma maior atenção da gestão da empresa às condições de segurança dos trabalhadores, o que passa por reduzir a duração das jornadas de trabalho, mas também por dar formação individual a todos os que descem à mina, em vez de formar apenas equipas de intervenção. “Trabalhar numa mina (na profundidade) é duro e representa sempre um risco elevado”. O dirigente sindical diz que no caso da Somincor, cerca de metade dos 1.300 colaboradores trabalham na mina, mas há também muitos trabalhadores de empresas subcontratadas que operam em profundidade.

Em 2024 houve o registo de dois acidentes de de trabalho graves na mina, das quais resultou um morto em fevereiro, na sequência de um abatimento.

Castro Verde: homem ferido com gravidade nas minas de Neves-Corvo

Esta segunda-feira foi anunciada a venda pela canadiana Lundin Mining da Somincor, a empresa que detém a extração de Neves Corvo, considerada a maior mina portuguesa e também a principal empregadora do distrito de Beja. Esta operação foi avaliada em 1,3 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros), mas incluiu outra mina detida pela Lunding na Suécia, a Zinkgruven. A transação envolve um pagamento adicional de até 150 milhões de dólares em função da evolução das cotações de zinco e cobre.

Lundin Mining vende mina alentejana de Neves Corvo à sueca Bolinden

Neves Corvo produziu 108 mil toneladas de zinco, 33,8 mil toneladas de cobre e 5,6 mi toneladas de ferro no ano passado. A mina tem cinco jazidos de sulfuretos maciços. A operação gerou receitas de 425 milhões de dólares (402 milhões de euros ao cambio atual) em 2023 e perdas de 23,2 milhões de dólares (22 milhões de euros) num ano em que a Somincor investiu cerca de 100 milhões de dólares. Estas perdas, que compara com lucros de 2,4 milhões de dólares em 2022, são explicadas no relatório financeiro anual da Lundin com a descida dos preços do zinco e pelo aumento dos custos com tratamento e refinação de minério. As contas da Lundin no ano passado assinalam uma redução da fatura energética.

A Boliden espera que esta aquisição permita aumentar a produção de concentrado de zinco e cobre até, respetivamente, 70% e 40% da sua capacidade de fundição. A expectativa é a de que o negócio permita acrescentar 300 a 350 milhões de dólares ao EBITDA (margem bruta) anual da Boliden ao fim de cinco anos. A operação deverá ficar concluída em meados do próximo ano e terá de ser autorizada pela Direção-Geral de Energia e Geologia.

O grupo sueco é um operador mineiro integrado que detém outras operações da cadeia de valor, como fundições. A empresa tem cinco minas de cobre e zinco na Suécia, Finlândia e Irlanda, e cinco unidades de downstream no norte da Europa. O capital da empresa está disperso por vários investidores financeiros.

A mina de Neves Corvo começou por ser uma joint-venture entre o Estado português e a multinacional Rio Tinto. Em 2004, a Somincor foi comprada pela Eurozinc que mais tarde viria a fundir-se com a Lunding Mining, grupo canadiano que agora vendeu a empresa e os direitos de exploração de minérios à Boliden.