Morreu o tenente-general Vasco Rocha Vieira. O antigo Chefe do Estado-Maior do Exército, que também foi ministro da República para os Açores (de 1986 a 1991) e o último Governador português de Macau (entre 1991 e 1999), tinha 85 anos. A notícia foi esta quarta-feira avançada pelo Correio da Manhã e confirmada pelo Observador junto do Exército.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já manifestou “o mais profundo pesar” pela morte do tenente-general que descreve como “um dos mais ilustres oficiais do Exército Português na transição para a Democracia e nas primeiras décadas da sua afirmação”.
“Muito próximo do Presidente António Ramalho Eanes, por ele foi designado Chanceler das Antigas Ordens Militares”, lê-se numa nota publicada no site da Presidência, que revela que Marcelo Rebelo de Sousa acompanhou “de perto os últimos meses” da vida de Vasco Rocha Vieira.
O simbolismo do momento da transferência da administração portuguesa para a chinesa [em Macau] permanecerá na memória de muitos portugueses como um exemplo de sentido de Estado, sentido de serviço da causa pública e de marcado patriotismo”, afirma Marcelo Rebelo de Sousa.
Em 2015, o 138.º (e último) Governador de Macau foi condecorado por Cavaco Silva, à época Presidente da República, com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Anteriormente, já tinha recebido várias outras condecorações: Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (em 1986, pelo general Ramalho Eanes), Grã-Cruz da Ordem de Cristo (em 1996, por Mário Soares) e Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique (em 2001, por Jorge Sampaio).
Nascido em Lagoa, no distrito de Faro, a 16 de agosto de 1939, Vasco Rocha Vieira ingressou no Colégio Militar em 1956 e chegou a receber o prémio Alcazar de Toledo, atribuído ao finalista com melhor avaliação de entre todos os alunos da Academia Militar. Licenciou-se em Engenharia Civil e ao longo dos anos tirou vários cursos, como o Curso Geral de Estado-Maior (de 1969 a 1970) ou o Curso de Comando e Direção para General Oficial (1982-1983).
Anos antes de ser Governador de Macau (nos anos 1990), já tinha desempenhado funções no país como chefe do Estado-Maior Territorial Independente de Macau (de 1973 a 1974). Ao longo da sua carreira nas Forças Armadas foi representante Militar Nacional no Quartel-General Supremo dos Poderes Aliados da NATO, na Europa – SHAPE (na Bélgica), e diretor honorário de armas e engenharia.
Mais recentemente, foi associado honorário da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e da Liga dos Combatentes. Em 2016 publicou, em coautoria com António Barreto, o livro O 25 de Novembro e a Democratização Portuguesa.
Ainda assim, o percurso de Rocha Vieira não esteve isento de polémicas, nomeadamente devido a suspeitas de um alegado financiamento irregular à Fundação Jorge Álvares, criada perto do fim da administração portuguesa em Macau após proposta do tenente-general a Jorge Sampaio, que na altura era Presidente da República.
Em 2000, noticiou a RTP, o antigo Governador de Macau foi ilibado após um relatório de uma comissão independente, que investigava a transferência de 50 milhões de patacas, ter concluído que não tinham existido quaisquer ilegalidades. Rocha Vieira disse que a decisão foi “legal e legítima” e que “apoiar financeiramente a criação da Fundação Jorge Álvares” era algo que estava “enquadrado na competência do Governador de Macau”.
O velório do tenente-general Vasco Rocha Vieira vai realizar-se esta quinta-feira, dia 23 de janeiro, entre as 17h e as 22h na Capela da Academia Militar, em Lisboa. Na sexta-feira, 24 de janeiro, o velório é retomado às 10h, sendo seguido por uma missa. “Após as cerimónias em Lisboa, o cortejo seguirá para o Algarve, onde irá decorrer o funeral, no Cemitério Municipal de Lagoa”, informou o Exército português, que disse estar “de luto por ter deixado de contar com um dos seus mais notáveis Soldados”.
“A sua vida e o seu legado justificam um profundo reconhecimento e perene respeito pela sua memória, e constituem fator de motivação e orgulho para todos os que servem nesta secular Instituição. Que o seu legado de serviço e patriotismo continue a inspirar gerações futuras”, lê-se num comunicado partilhado pelo Exército nas redes sociais.
Eanes lembra “homem extraordinário” e “um dos melhores” entre os maiores do país
O antigo Presidente da República Ramalho Eanes lamentou a morte de Rocha Vieira, “um homem de exceção” e “um dos melhores” entre as maiores figuras de Portugal. “O general Rocha Vieira era um homem de exceção pela sua ação de excelência e pela sua responsabilidade social assumida, merecendo ser, justamente, considerado ‘um dos melhores dos nossos maiores'”, escreveu, numa nota enviada à agência Lusa.
O primeiro chefe de Estado eleito da democracia portuguesa lembra tenente-general como “um homem extraordinário”, sobretudo “a três níveis: pela sua personalidade distintiva, pelo seu desempenho militar relevante e pelos serviços prestados ao País a nível político”. A nível pessoal, Eanes considera que Rocha Vieira “possuía qualidades de espírito superiores”, tinha “uma inteligência excecional”, “um bom temperamento” e “dispunha de uma personalidade forte”.
Ao nível militar, “foi um dos militares mais distintos da sua geração, prestando, ao Exército, serviços relevantes, em tempos difíceis, nomeadamente, no estertor do regime político anterior ao 25 de Abril, no decurso do 25 de Abril e, mesmo, no 25 de Novembro, tendo, ainda, desempenhado um importante papel enquanto representante das Forças Armadas portuguesas junto da NATO”.
Quanto ao nível político, Eanes conclui que Rocha Vieira teve uma atividade de “grande qualidade e grande importância para o país, quer como ministro da República para os Açores, quer ainda, como governador de Macau, colocando todo o seu empenho no desenho e execução, com sucesso, de uma política de transformação bem-sucedida de Macau, participando, igualmente, com o sucesso que é conhecido, na transferência da administração do território de Macau para a República Popular da China”.
Cavaco Silva recorda “figura marcante” que deixou Portugal “reconciliado com a sua presença no Oriente”
O ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva também lamentou a morte de uma “figura marcante” cujo legado dignifica os últimos anos da presença portuguesa no Oriente.
“Guardamos do general Rocha Vieira a imagem solene e digna do arriar da Bandeira Nacional em Macau, fez agora 25 anos. Mais importante do que essa imagem, é o trabalho de Rocha Vieira como último Governador de Macau, dignificando os últimos anos da nossa presença no Oriente, permitindo-nos deixar o território reconciliados com a nossa História e orgulhosos da obra que deixámos”, afirmou Aníbal Cavaco Silva, numa nota de condolências, enviada à Lusa.
Cavaco Silva sublinhou a “importância das altas funções militares que desempenhou, como chefe do Estado-Maior do Exército, num período crítico de consolidação” da democracia portuguesa, entre 1976 e 1978.
“As suas excecionais qualidades de comando, a sua firmeza, integridade de caráter, e a sua formação ética e militar ajudaram a repor a autoridade hierárquica e a disciplina nas Forças Armadas num período conturbado da vida do país”, sustentou. Cavaco Silva afirmou que “foi um privilégio trabalhar” com o general Rocha Vieira, quer nas funções de governador de Macau, quer, antes disso, como ministro da República para a Região Autónoma dos Açores.
Sobre estas funções, o ex-chefe de Estado referiu que Rocha Vieira “procurou enquadrar sempre a autonomia regional com o reforço da coesão nacional”. “Mais recentemente, desempenhou as funções de Chanceler das Antigas Ordens Militares durante os meus mandatos como Presidente da República, tendo beneficiado do seu conselho e da sua ponderação, inteligência, discrição e sentido de Estado”, disse.
“Portugal deve honrar a memória daqueles que mais nobremente serviram o país”, assinalou Cavaco Silva, deixando “uma palavra de sentido pesar” à família de Rocha Vieira e às Forças Armadas Portuguesas.
Bolieiro recorda forma “íntegra e responsável” como Rocha Vieira conduziu cargo de ministro da República para os Açores
O presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, também manifestou pesar pela morte de Vasco Rocha Vieira. “Presto homenagem a um homem que, ao longo da sua carreira, desempenhou sempre as suas funções públicas com dignidade, sentido de dever e profundo compromisso com o interesse público”, afirmou, numa nota enviada à imprensa.
O chefe do executivo regional açoriano acrescentou que Vasco Rocha Vieira “deixa um legado de serviço ao país, que será lembrado com respeito e gratidão”, manifestando “profundo pesar pelo falecimento do tenente-general”, que “desempenhou relevantes funções ao serviço de Portugal”.
Vasco Rocha Vieira, que foi ministro da República para os Açores entre 1986 e 1991, “destacou-se pela forma íntegra e responsável com que exerceu o cargo, contribuindo para o fortalecimento das relações entre a Região Autónoma dos Açores e o Estado, sempre com respeito pela autonomia regional e pelas especificidades dos Açores”, lê-se na nota.
O executivo açoriano refere que o tenente-general destacou-se também no desempenho do cargo de Governador de Macau entre 1991 e 1999 e, nesse período, “liderou o território até à transferência da administração para a China, num processo histórico de elevada importância e conduzido com firmeza e grande sentido de Estado”.
Líder do parlamento açoriano lembra “exemplar dedicação à causa pública”
O presidente do parlamento açoriano, Luís Garcia recordou a “exemplar dedicação à causa pública” e o “contributo inestimável” de Rocha Vieira para o país e para os Açores. “Ao longo da sua notável carreira militar e política, Rocha Vieira revelou um inabalável sentido de Estado, exemplar dedicação à causa pública e um profundo patriotismo, que marcaram de forma indelével o serviço prestado a Portugal”, afirma, numa nota de pesar.
Luís Garcia “expressa as mais sentidas condolências à família enlutada, deixando um profundo testemunho de gratidão pelo seu contributo inestimável para o país e para os Açores”. “Enquanto ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, entre 1986 e 1991, Vasco Rocha Vieira desempenhou as suas funções com elevado compromisso, contribuindo significativamente para o fortalecimento das relações institucionais e para a valorização da autonomia regional”, refere.
Além disso, salienta que o período em que Rocha Vieira esteve ao serviço dos Açores “é recordado como um tempo de dedicação ao diálogo e à construção de pontes entre os órgãos de soberania nacional e os órgãos de governo próprio da Região”. “Será também recordado pelo simbolismo da sua ação como último Governador de Macau, cargo que exerceu entre 1991 e 1999, momento em que liderou a transferência da administração portuguesa para a chinesa, num exemplo de sentido de responsabilidade e lealdade ao serviço público que ficará gravado na memória coletiva de Portugal”, concluiu.
PS enaltece vida “inteiramente dedicada ao serviço de Portugal”
O PS, por sua vez, optou por enaltecer uma vida “inteiramente dedicada ao serviço de Portugal” de um “militar prestigiado” e de um dos “melhores intérpretes da importância de Macau”. Através de um comunicado, o partido liderado por Pedro Nuno Santos lamenta a perda de um “militar prestigiado e último Governador de Macau sob a administração portuguesa”.
“A sua vida foi inteiramente dedicada ao serviço de Portugal, quer na sua carreira militar, quer na participação política a seguir ao 25 de Abril, como membro do Conselho da Revolução (por inerência de funções enquanto Chefe de Estado Maior do Exército), ministro da República nos Açores, Secretário Adjunto do Governo de Macau e Governador de Macau”, refere a mesma nota.
Referindo que “a sua vida ficou para sempre ligada a Macau”, para o PS este “foi um dos melhores intérpretes da importância” daquele território “para a relação entre Portugal e a República Popular da China”, bem como da singularidade da agora região administrativa especial.
“Os últimos anos da administração portuguesa do Território de Macau, sob a liderança do general Rocha Vieira, são marcados pela concretização de várias obras públicas infraestruturais importantes de suporte ao desenvolvimento subsequente de Macau, bem como de reformas na administração para a sua preparação para o período subsequente”, enaltece.
Os socialistas referem ainda a cerimónia de transferência de soberania do Território de Macau para a República Popular da China, na qual foi inegável a forma como Rocha Vieira “personificou e simbolizou a dignidade e o tributo à presença portuguesa ao longo de séculos em Macau”. “E marcou a amizade e o respeito que os portugueses mantêm com Macau e com a República Popular da China, e que permite, ao fim de 25 anos de transição, preservar a singularidade de Macau que continua a ser ponto de encontro entre culturas.”
Macau recorda governador português que lançou bases da região chinesa
Rocha Vieira lançou as bases do sucesso da região chinesa e defendeu os direitos dos funcionários públicos, embora com “alguns desencontros”, disseram à Lusa dirigentes locais. “É uma figura ilustre, fundamental na história da transição de Macau, mas também, em certa medida, do presente e do futuro”, disse José Sales Marques, presidente do Leal Senado, antiga câmara municipal.
“Há muita coisa que foi feita durante esse período e que hoje em dia continua. As bases da Região Administrativa Especial de Macau têm muito a ver também com a obra do tenente-general Rocha Vieira”, defendeu Sales Marques. Foi, por exemplo, no mandato de Rocha Vieira que foi concluída a construção do aeroporto da cidade.
A Macau que o tenente-general encontrou e a que deixou “não se compara”. “Aquilo que se fez naqueles anos todos é qualquer coisa que a história já tem registado”, defendeu Sales Marques, também membro do então Conselho Consultivo de Rocha Vieira.
Já o antigo deputado António Ng Kuok Cheong disse à Lusa que, apesar da desconfiança dos chineses, a administração “tentou fazer alguma coisa para incentivar o crescimento económico da cidade, que era muito pobre nessa altura, antes de devolver Macau”. E sublinhou que o principal obstáculo foi a resistência da China à liberalização do setor do jogo, que acabaria por só ser lançada em 2002.
Jorge Fão, um dos fundadores da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau, em 1987, notou que Rocha Vieira “cumpriu a missão como governador” e “dignificou o seu país”. O ex-presidente da ATFPM lembrou que foi “sindicalista antes de ser político” e “teve alguns desencontros” com o tenente-general.
Fão explicou que foi “um dos protagonistas” que trabalhou para que, após a transição de Macau para a China, “os funcionários públicos [da administração portuguesa] tivessem direito a uma pensão” paga por Portugal. “Nenhum funcionário das outras colónias teve direito (…) Quando se começou a falar de discutir a entrega de Macau para a China, ficámos muito preocupados. Encetámos as nossas lutas sindicais e tivemos vários encontros com a governança de Portugal e de Macau (…). Nós tivemos uns encontros e também nesses encontros tivemos desencontros”, recordou, resumindo que, no final, “o desfecho não foi mau”.