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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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A corrida louca de Netanyahu para tentar não perder o lugar. "Vamos viver pela espada"

Da operação na Cisjordânia a uma discussão com o chefe militar e ao apoio de Trump. Das bitcoins ao uso de IA contra Eisenkot e o Irão. Netanyahu experimentou tudo para dramatizar a campanha.

“Querem segurança?” A resposta de quem assiste ao comício de Benjamin Netanyahu no mercado central de Jerusalém é um “siiiiiiiiiiiim” gritado em coro, antes de lhe chamarem “Rei de Israel”, e antes de se ouvir uma canção em sua homenagem, que o idolatra assim: “Todos te amam, tu és o único líder, Não há ninguém como tu… Juntos, Bibi, Bibi, Bibi!”

De volta à pergunta do comício: o primeiro-ministro que estava no cargo durante os atentados do 7 de outubro, que mataram mais de 1200 pessoas e fizeram 250 reféns, faz da segurança a sua bandeira, apostando em que os israelitas desconfiem se outros líderes vão ser tão agressivos, determinados e obcecados com a defesa da nação face a tantos inimigos.

Para cristalizar essa ideia, quanto mais tensão, caos e medo se sentir na sociedade, mais hipóteses Benjamin Netanyahu tem de segurar votos. O que acaba por credibilizar as notícias divulgadas esta semana, de que se desentendeu com o Chefe das Forças de Defesa de Israel, por ele ter recusado lançar um ataque contra o Irão antes das eleições.

Os dias do primeiro-ministro nesta reta final da campanha, em que surge atrás de Gadi Eisenkot na corrida às eleições desta terça-feira, foram alucinantes na sua capacidade de semear notícias dramáticas, estonteantes ou apenas inusitadas.

▲ Dezenas de pessoas esperaram Netanyahu no mercado central de Jerusalém

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Um briefing sobre segurança: “Se vencerem, será uma tragédia”

Não acontecia desde o massacre do 7 de outubro, há 3 anos. No domingo, dia 18, o primeiro-ministro voltou a convocar a imprensa para um briefing sobre a segurança nacional: ao longo de duas horas expôs a sua estratégia ofensiva (em vez de apenas preventiva) contra os vizinhos mais hostis, com o Irão à cabeça, regime que prometeu derrubar, mas também contra o Hamas e o Hezbollah: “Vamos viver pela espada durante muitos anos — e é importante que a espada esteja afiada”.

Falou também de política interna, claro. Prometeu manter a coligação com a extrema direita de Ben Gvir e diminuiu os candidatos da oposição, dizendo que, se vencerem, será uma “tragédia para as próximas gerações”, que pode pôr em causa “o futuro do Estado”. E considerou a atenção dada à violência dos colonos na Cisjordânia “um enorme exagero”, devido a “uma campanha de propaganda internacional”.

Horas antes, Netanyahu tinha recebido o apoio de Donald Trump, que lhe chamou “grande primeiro-ministro guerreiro” e disse ser o único líder israelita capaz de enfrentar o Irão. No briefing, o chefe do governo alertou que seria preciso aproveitar os dois anos restantes de Trump na Casa Branca para completar o derrube dos inimigos, porque depois pode ser eleito um Presidente hostil a Israel.

“Mesmo quando ele está na casa de banho e os guarda costas andam à procura dele, e eu fico sozinha com o meu café, sei que tudo o que ele faz, faz por nós. Pelas nossas crianças e pelo povo de Israel”.
Publicação da mulher de Netanyahu, que depois editou o texto para tirar a referência à casa de banho

Na quinta-feira, 22, Netanyahu começou o dia em campanha num mercado em Telavive de manhã e acabou já depois da meia-noite com o minicomício no mercado de Jerusalém, a que o Observador assistiu. Cerca de 50 apoiantes, muitos deles estrangeiros (um grupo de fãs norte-americanas e um casal francês), ficaram quatro horas à espera para o ver e ouvir durante brevíssimos minutos, a falar do palco de um café através de um megafone, rodeado por bancas já fechadas.

Esta ação de campanha supersónica implicou uma enorme operação de segurança para controlar os acessos até ao pequeno espaço onde o candidato do Likud se deslocou, com a instalação de detetores de metais e explosivos e a mobilização de dezenas de polícias e guarda-costas.

▲ Benjamin Netanyahu chegou com cerca de quatro horas de atraso

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O cenário das bitcoins, o negócio de um lugar e a gaffe do WC

Neste mesmo dia, foi divulgada uma entrevista ao canal 10, onde Netanyahu aventou o recurso de Israel às bitcoins para contornar eventuais sanções bancárias internacionais impostas contra o país. O anúncio motivou os ataques dos adversários (com Gadi Eisenkot a chamar-lhe Bibicoin e acusá-lo de deixar Israel transformar-se num pária internacional), reparos públicos do governador do Banco de Israel e um abaixo-assinado de cem economistas a insurgirem-se.

Ainda na quinta-feira à noite, a mulher do primeiro-ministro publicou este texto no Instagram para o elogiar: “Mesmo quando ele está na casa de banho e os guarda-costas andam à procura dele, e eu fico sozinha com o meu café, sei que tudo o que ele faz, faz por nós. Pelas nossas crianças e pelo povo de Israel”.

O post foi triturado por gargalhadas nas redes sociais por causa da referência à casa de banho, ora gozando com a imagem de os guarda-costas irem atrás do primeiro-ministro para o wc, ora ironizando que ele estaria a defecar nos eleitores. A mulher de Netanyahu acabou por editar o texto da publicação, eliminando a referência à casa de banho.

Na sexta, dia 23, o Achi, um pequeno partido ultraortodoxo fundado em junho, anunciou que desistia da ida às urnas. Mais tarde foi divulgado um vídeo que mostra uma reunião entre a cúpula desse partido e o ministro da Educação, Yoav Kisch, que juntou Benjamin Netanyahu em chamada telefónica para dar o ok a um acordo que prevê que o líder do Achi seja ministro num futuro governo, ou escolha um dos deputados ultraortodoxos para o cargo.

O líder espiritual do partido Achi, Haim Yosef Abergel, foi detido em agosto de 2025 por suspeitas de atos indecentes e assédio sexual a raparigas, algumas menores.

▲ Merchandising da campanha de Benjamin Netanyahu

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O bloqueio da Cisjordânia e as polémicas com as imagens de Inteligência Artificial

O dia de sexta-feira ficou marcado pelo atentado em que dois palestinianos mataram dois soldados israelitas num check point em Hebron. Netanyahu anunciou o bloqueio imediato da circulação para entrar e sair da Cisjordânia.

Foi lançada uma intensa operação militar sobretudo na zona onde residiam os autores do ataque, para procurar ramificações terroristas, interrogar e deter outros suspeitos. Foram arrasados e demolidos dezenas de edifícios na vizinhança, com o argumento de que tinham sido construídos ilegalmente. E cerca de 2 mil palestinianos receberam ordens de despejo temporárias e foram obrigados a sair de suas casas pelas Forças de Defesa de Israel.

"Ele nunca desiste, essa é a atitude dele. Ele não desiste. Mas não é flexível e não é sofisticado”
Michael Kovner, que prestou serviço militar com Netanyahu em 1967 e ajudou a salvar-lhe a vida

No domingo, 25, Netanyahu partilhou na sua conta na rede X uma assustadora imagem gerada por Inteligência Artificial que mostra os eventuais efeitos de uma explosão nuclear em Telavive. Assustou mesmo a Casa Branca, que temeu que o Irão interpretasse o post como um aviso de ataque e pudesse precipitar uma resposta (Trump teve mesmo de vir dizer que não haveria um ataque ao Irão nesse dia).

O objetivo do primeiro-ministro era mais uma vez dramatizar a campanha, escrevendo no post que os israelitas enfrentavam o risco de “um segundo Holocausto” se elegessem qualquer um dos adversários, que alegadamente não teriam a mesma capacidade para enfrentar o Irão.

Não foi a primeira polémica da campanha de Netanyahu com conteúdos gerados por Inteligência Artificial. Em julho, a sua candidatura tinha partilhado um vídeo que mostrava o rival, Gadi Eisenkot, a correr para abraçar um jovem militar parecido com o seu filho Gal, falecido em 2023 na Faixa de Gaza, para acabar por empurrar o jovem e abraçar o líder do partido palestiniano Ra’am, Mansour Abbas. O caso gerou tão grande indignação, que o vídeo foi refeito e o soldado substituído por uma mulher, para não haver dúvidas de que não era afinal o filho falecido do adversário.

▲ Sob forte dispositivo de segurança, Netanyahu esteve sempre rodeado de seguranças por todos os lados

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O confronto com o Chefe militar sobre um ataque ao Irão antes das eleições

A dois dias das eleições, surgiu uma notícia do Canal 12, que dava conta de um confronto entre Netanyahu e o Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, que teria recusado avançar para uma operação militar sensível contra o Irão tão em cima das eleições, com receio de pôr em risco a ida às urnas.

Netanyahu desmentiu e chamou a este relato “um absurdo total”. Já as Forças de Defesa de Israel emitiram um comunicado onde asseguraram que o seu chefe não tem envolvimento partidário e que o foco da corporação é a segurança nacional de Israel, política à parte.

O facto de este comunicado, neste contexto sensível, não desmentir taxativamente nem ter qualquer referência à notícia sobre o desentendimento com o primeiro-ministro não é irrelevante, como notou o The Jerusalem Post. O caso teve depois desenvolvimentos, com a CNN a noticiar que Trump tinha vetado este timing para o ataque ao Irão.

Os adversários intensificaram as críticas contra Netanyahu, acusando-o de querer lançar uma operação militar para tentar salvar-se politicamente e ficar no poder.

▲ Dezenas de pessoas esperaram Netanyahu no mercado central de Jerusalém

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Tempos do serviço militar: “Em stress, congelava e não conseguia pensar. Mas não desiste”

Alguns dos traços de personalidade que Benjamin Netanyahu tem mostrado na política e em especial nesta campanha são reconhecidos por um dos homens que o conhece há mais tempo — e que ajudou a salvar-lhe a vida.

Michael Kovner foi camarada de armas de Netanyahu na unidade de elite de comandos e reconhecimento das Forças de Defesa de Israel (Sayeret Matkal), em 1967, e partilhou a sua memória do Bibi de há 60 anos com o Observador: “Ele era muito impressionante, um homem muito forte e grande. Podíamos divertir-nos com ele. Ele gostava de raparigas, gostava de sair e de comer. Ele era um homem charmoso. Mas tinha dificuldade em lidar com o stress: quando havia uma situação complicada, congelava, não conseguia pensar e perdia a cabeça, como se desse tiros nos próprios pés”.

Na guerra com o Egito, sofreu uma emboscada, em que o oficial do barco foi baleado e morreu. Netanyahu saltou do barco, mas carregava uma mochila grande com munições e não estava a conseguir desenvencilhar-se desse peso dentro de água. Ia-se afogando e teve de ser salvo por outro mergulhador. Michael Kovner estava a dar cobertura ao resgate de Netanyahu, disparando para os egípcios.

Deixaram de se falar por divergências políticas: “Ele é a pior pessoa na Terra. É pior do que o Trump. Não tem quaisquer princípios morais. Agora toda a gente diz que ele vai começar uma guerra no Irão por causa das eleições! Que ideia, que uma pessoa vá começar uma guerra onde pessoas vão morrer, muitas pessoas — iranianas, israelitas — vão morrer só porque ele tem medo de perder as eleições! Como é que isto pode acontecer?”

Apesar deste desamor todo, Michael Kovner reconhece-lhe uma característica que já todos constataram: a persistência. Tinha alguma dificuldade em memorizar códigos de uma operação militar. Michael conseguiu fixar tudo em 2 horas. Benjamin Netanyahu não: “Ele não dormia, ficava a noite toda a trabalhar e a memorizar aquilo. Ele nunca desiste, essa é a atitude dele. Ele não desiste. Mas não é flexível e não é sofisticado”.

▲ Michael Kovner foi camarada de armas de Netanyahu na unidade de elite de comandos e reconhecimento das Forças de Defesa de Israel

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“Depois do 7 de outubro, toda a gente diz: ‘Tu és culpado, tu és culpado'”

Netanyahu tem taxas de rejeição perto dos 60%. E uma sondagem divulgada em julho indicava que 23% dos eleitores responderam que ou o próprio inquirido ou algum familiar ponderará deixar o país e emigrar caso o atual primeiro-ministro seja reeleito.

Para uma personalidade tão polarizadora, intensa, marcante e com tão grande longevidade política, um número tão elevado de críticos é habitualmente compensado por uma base de fiéis que o adoram, que o idolatram, que o encaram como uma espécie de messias salvador que os protege a todos e consegue feitos incríveis, como a eliminação dos líderes do Hamas e do Hezbollah, o regresso dos reféns, e também alguns acordos políticos surpreendentes para desbloquear impasses, dar a volta e seguir em frente.

Alguns desses fãs estavam no mercado de Jerusalém onde Netanyahu discursou na madrugada de sexta-feira. “Toda a gente neste mercado gosta dele. Ele é muito bom, gosta muito das pessoas, do povo de Israel, faz apenas o melhor por eles. E é bom para toda a gente. Muito forte, muito inteligente, muito… tudo!”, elogia Shmuel Chaim, 36 anos, na banca de venda de fruta que herdou do pai.

Tem esperança na hipótese de o ver e lhe oferecer figos ou morangos. Não chegou a acontecer, porque a entrada e a saída do candidato foram muito turbulentas, com os guarda-costas a abrirem caminho de forma vigorosa e a não permitirem aproximações.

▲ As centenas que não conseguiram entrar ficaram no exterior do mercado

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Perante o nome de Eisenkot, o vendedor solta um “Deus nos livre”. “Só em Telavive e no centro de Israel é que gostam do Eisenkot. No Sul, no Norte e em Jerusalém, toda a gente gosta do Bibi. Estou neste mercado há 20 anos. Conheço… mil pessoas. Toda a gente gosta do Bibi”, reforça Shmuel.

O speaker vai aquecendo a assistência enquanto Netanyahu não chega ao mercado de Mahane Yehuda, em Jerusalém: “Nunca, nunca, nunca… nos esqueceremos do líder que temos aqui. Se não tivéssemos o homem que nos liderou… Não teríamos o governo que temos hoje!”

O speaker é membro do Likud, o partido do primeiro-ministro, e assessor político no parlamento. Ao Observador, tenta mostrar o lado positivo de haver cerca de 50 pessoas tão devotadas que ficam à espera mais de quatro horas para verem Netanyahu. O atraso é justificado com a questão da segurança: “É a terceira vez que o primeiro-ministro quer vir aqui e, em todas as vezes, acontece algo. Ou de segurança, ou algo no mundo, e depois ficam à espera dele muito tempo.”

Os empurrões dos guarda-costas também o atingem a ele: “Eles têm sempre uma grande pressão na segurança, porque, sabe, depois do 7 de outubro, toda a gente diz ‘tu és culpado, tu és culpado’. Eles estão cansados disso.”

A apoiante com a maior bandeira de todas é também uma das mais fiéis seguidoras de Netanyahu, ao ponto de marcar presença entre a assistência em quase todas as sessões do julgamento em que o primeiro-ministro está a ser julgado por corrupção. E também o segue para quase todos os comícios: “Nós adoramos o Bibi, confiamos no Bibi a todo o tempo! Claro que ele vai ganhar! Ele e o Trump têm 2 anos para fazer todo o trabalho…” Questionada sobre as coligações que Netanyahu pode ter de fazer, a apoiante com a maior bandeira tem duas certezas impetuosas: “Não vamos com os árabes! Deus vai ajudá-lo!”

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