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Com voz rouca e um sorriso, a fundadora da companhia que desde 1997 se impôs como única no panorama teatral português acede ao pedido do Observador para algumas (poucas e discretas) fotografias
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▲Com voz rouca e um sorriso, a fundadora da companhia que desde 1997 se impôs como única no panorama teatral português acede ao pedido do Observador para algumas (poucas e discretas) fotografias

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲Com voz rouca e um sorriso, a fundadora da companhia que desde 1997 se impôs como única no panorama teatral português acede ao pedido do Observador para algumas (poucas e discretas) fotografias

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

29 anos depois, o teatro do Cão Solteiro chega ao fim: "Não são vocês que decidem que vão acabar com isto. Somos nós"

Coletivo que transformou a forma de pensar e fazer teatro em Portugal põe ponto final na sua história. Não sem um espetáculo de despedida, de 13 a 15 de novembro, no Teatro Nacional, em Lisboa.

Acabam aos 29 anos, mesmo antes que o calendário lhes ofereça uma data redonda. O coletivo Cão Solteiro, que abriu caminhos nas artes performativas, construindo uma linguagem própria no território de fronteira entre a performance, o teatro e as artes visuais, chega ao fim, depois de quase três décadas a inventar, transformar, baralhar e voltar a dar. Os espetáculos, apresentados frequentemente em espaços alternativos de uma Lisboa pré-gentrificação, desafiavam convenções e expectativas. Eram contemplativos, por vezes desconcertantes, outras vezes difíceis, para não dizer impossíveis, de decifrar.

“Se aguentaste o [espetáculo] DOISMILEVINTEEDOIS (2022) aguentas tudo”, diz-nos a atriz e encenadora Paula Sá Nogueira, após um pequeno ensaio. Com voz rouca e um sorriso, a fundadora da companhia que desde 1997 se impôs como única no panorama teatral português acede ao pedido do Observador para algumas (poucas e discretas) fotografias. Há poucos registos formais do coletivo que, ao longo dos anos, conquistou um público fiel e marcou o trabalho de uma geração de artistas que encontrou na sua prática outras formas de pensar e fazer teatro. As suas criações cruzaram linguagens e disciplinas, convocando referências do cinema, da literatura e das artes visuais, ao mesmo tempo que faziam do espaço cénico parte integrante da obra. Mais do que contar histórias, os espetáculos interrogavam as relações entre o indivíduo e o mundo, expondo as suas contradições.

Mas, agora, tudo isso chega ao fim. Chamam-lhe um “fim decidido”, sem explicações diretas para a decisão, mas deixando pistas — e, no universo do Cão Solteiro, as pistas nunca foram propriamente uma novidade. É preciso segui-las, mesmo quando não conduzem a respostas definitivas.

O fim celebra-se (sim, é menos nostalgia e mais celebração) com Menos de Cão Solteiro & André Godinho, uma parceria entre a companhia fundada por Paula Sá Nogueira e a irmã, Mariana Sá Nogueira, cenógrafa, e o artista André Godinho. O espetáculo, que acontece nos dias 13, 14 e 15 de novembro, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, e que abre o festival Alkantara, põe em cena criadores, intérpretes, técnicos e os restantes elementos da equipa, que abandonarão a seu turno até o palco ficar vazio. O que fica? Nesta entrevista, Paula e Mariana Sá Nogueira e André Godinho não procuram exatamente responder.

▲ A sala de ensaios na Tóbis, em Lisboa, onde a companhia ensaia o seu último espetáculo, "Menos de Cão Solteiro & André Godinho"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A peça — a parte que vimos no ensaio, pelo menos — começa com o que parece ser uma festa, uma celebração.
Paula:
Temos um problema que não é um problema, é uma mania: não descrever o espetáculo. Até é bastante prejudicial, no sentido em que cada um lê e imagina uma coisa e a prática diz-nos que o que acontece é o espectador quando se senta, como já sabe o que vai ver, muitas vezes não vê o que sabe que vai ver e fica logo chateado. Portanto, já há vários anos que deixámos de fazer descrições dos espetáculos, porque não é bom nem para o espetáculo nem para a pessoa que vai ver. De qualquer maneira, se calhar faz sentido descrever a estrutura.

Mariana: Os três planos do espetáculo.

Paula: Exatamente. Tem uma filmagem de um filme, algumas cenas, que estão a ser feitas em palco. Contém também a desmontagem da totalidade do próprio espetáculo. No final ficará o palco vazio e limpo. Na nossa imaginação, saímos por uma porta e podia outra companhia estar a entrar e começar a trabalhar. E contém um elemento que é uma DJ que está no seu posto, com os seus pratos, as suas coisas, e que está a pôr música.

Isso é uma festa…
Paula:
É uma festa… Estava a evitar aqui a coisa de festa porque agora percebemos que o conceito de festa, de espetáculo, é uma trend. Até há mesmo um espetáculo que se chama “Festa”… Estava a evitar o termo, mas, na realidade sim, a música ocupará o espaço tanto como os outros elementos, portanto, está lá a possibilidade, pelo menos, de uma festa.

Mariana: As nossas colaborações com o André [Godinho], que já são longas, focam-se sempre sobre esta possibilidade de cruzamentos das linguagens do teatro e do cinema e sobre mecanismos de espetáculo que podem conter as duas coisas, não é? Digamos assim. Já fizemos um espetáculo em que, efetivamente, todo o espetáculo era a filmagem de um filme. Outro espetáculo em que era a dobragem de um filme pré-existente, outro sobre a utilização de efeitos especiais. Vem na sequência de uma série de colaborações. Esta festa também é uma celebração, porque sendo o espetáculo de encerramento da companhia, não queremos, de modo nenhum, que seja nostálgico ou saudoso. Queremos que seja, de facto, uma celebração.

A ideia de festa é normalmente contrária à ideia de fim. Fazem-no para fugir a essa nostalgia e tristeza, ou não passa por aí?
Mariana:
Acho que não passa por aí. Passa por isto como uma possibilidade. O contrário de fazer um encerramento em celebração é agonizar lentamente, que é coisa que não gostava nada de fazer, acho que ninguém aqui gostava. Sabemos que não é comum este tipo de posicionamento, mas é mais coerente com o modo como trabalhámos ao longo destes 30 anos. Cada um terá a sua versão desta decisão.

"As companhias que surgiram do meio para o final dos anos 90 surgiram porque houve uma política de apoio financeiro à produção artística que tornou possível criar estruturas e as pessoas estarem a trabalhar a tempo inteiro nessas estruturas. Hoje o desinvestimento é total. Não vale a pena virem atirar com números que impressionam qualquer um. Não sei quantos milhões. Mas quando é distribuído pelas pessoas que estão a trabalhar e pelas necessidades reais do trabalho é tudo miserável. Não há outra palavra. Conta-se dinheiro a toda hora e tem que se pedir desculpa às pessoas por estar a pagar três vezes menos do que se devia. Portanto, é muito dinheiro? É. Mas é pouco"
Mariana Sá Nogueira, Cão Solteiro

Anunciaram este espetáculo há meses, determinando-o como o último espetáculo. A pergunta é quase inevitável: porquê acabar com o Cão Solteiro?
Mariana:
Ora, tenho aqui umas notas, mas demoro um tempo a ler [risos]. Começa com a acampada no Rossio e termina… [risos]

Paula: É a ordem natural de todas as coisas, não é? Nascem e morrem. Não acredito que Deus exista, mas acredito neste facto: que se vem de coisa nenhuma, que estava há milhões de anos, que se existe durante um período curtíssimo comparado com o tempo em que não existimos, e depois desaparecemos e mais milhões de anos virão. E isso é inevitável. Com os gatos que temos em casa acontece o mesmo, com as plantas que nos oferecem…

André: As que nos oferecem morrem [risos].

Paula: É a ordem das coisas. Ficamos sempre muito tristes com isso, mas isso é a nossa condição. Isso vai acontecer. Isso está a acontecer. Se nos encontrarmos daqui a cinco anos, estarei mais velha, estaremos todos. Desde o primeiro dia estamos a envelhecer. O que fazemos com o nosso tempo de vida, a nossa opção, é, de facto, interferir numa zona que é artística e a nível do pensamento. E herdámos muitos tipos, neste caso teatro, no caso do André são filmes. Mas herdámos uma série de coisas. Escolhemos profissões onde pegámos nessas coisas e continuámos a refletir sobre elas, sabendo perfeitamente que um dia vamos parar e fica esse desenvolvimento, que pode ser ter influência, ser aproveitado ou não.

▲ A imagem de divulgação de "Menos de Cão Solteiro & André Godinho", da autoria de Mariana Sá Nogueira (Cão Solteiro)

Ao longo destes quase trinta anos, sempre prescindiram das formas e metodologias vigentes. Que custos é que o Cão Solteiro teve para assumir esses riscos?
Paula: Não é um custo. Agora ouvi essa palavra como uma coisa pesada. É um risco e é esse risco que tem interesse, que é apaixonante e do qual nunca podemos abdicar. Porque o trabalho era esse. O trabalho era receber uma série de informações, refletir sobre elas e tentar construir outros pontos de vista. O que nos faz levantar de manhã e o que nos faz correr é justamente o poder exercer, fazer este trabalho. O que nos faz parar, indo diretamente para o político, é a impossibilidade de o continuar. E, sendo assim, também não queremos fazer as coisas de outra maneira, não faz sentido nenhum depois de termos gasto tanto tempo. Não faz sentido, nem para nós, nem para o trabalho que iríamos continuar a produzir. Portanto, preferimos, então, ficar aqui. Se não é possível continuar, nos termos em que precisamos de continuar, então pronto. Fico descansada, porque acho que em 29 anos, 30, 40 anos é o suficiente para eu ter força para poder ser analisada, para que alguém pegue, daqui para a frente. Sinto-me bastante realizada, porque estou a utilizar o meu tempo de vida como decidi utilizar e o meu trabalho é suficiente para ter peso e poder ser continuado, se alguém quiser.

Mariana: Queria acrescentar relativamente a esta ideia de riscos e custos. De alguma maneira, essa ideia pressupõe que há um sítio onde se “deve estar” e que nós “queríamos lá estar”, mas isso também não se verifica. Há um sítio chamado sucesso, há um sítio chamado aceitação, mas esse nunca foi o propósito.

Em três décadas, o Cão Solteiro nunca havia sido programado pelo Teatro Nacional, é agora pela primeira vez.
Mariana:
O que não é exatamente verdade é que nunca tínhamos sido convidados. Houve vários momentos em que teria sido possível fazermos coproduções com o Teatro Nacional e que não aceitámos. E daí volto a esta questão — com o Teatro Nacional e se calhar com outras instituições — que é o percurso, pelo menos deste coletivo, ou se calhar nosso individualmente, não é um percurso para atingir um qualquer patamar de sucesso, tal como ele é definido por não sei quem. Fazemos o trabalho que temos de fazer. Evidentemente, produzimos trabalho em sociedade, portanto temos que nos integrar em algumas coisas, mas a grande maioria do nosso trabalho é precisamente desmantelar tudo o que são ideias, até aquelas que parecem mais óbvias de como concorrer ao financiamento, por exemplo. Não nos ficamos só por “fizemos isto num espetáculo, habitualmente não se faz assim, vamos fazer ao contrário”. Somos assim com tudo. Mesmo no modo como nos relacionamos com as coisas que são necessárias, também estamos sistematicamente a pôr tudo em causa. Não é um exercício só de rebeldia, é uma questão de perguntar porquê sistematicamente.

A propósito do financiamento, em 2015, em entrevista ao Público a propósito da exclusão dos apoios da DGArtes, a Paula dizia que vos podiam “ter alvejado na testa”, mas não tinham morrido.
Paula:
Eu era mais nova… E mais rebelde nessa altura [risos].

▲ A encenadora e atriz, Paula Sá Nogueira, fundadora do Cão Solteiro

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Dizia que só acabariam quando se “esgotassem”. O fim que agora anunciam é uma decisão serena do coletivo por ter esgotado esse percurso, ou é um resultado das políticas públicas de apoio às artes em Portugal?
Mariana:
Uma coisa existe, um trabalho surge, coletivo ou individual, porque surgem também as condições necessárias. Enquanto se mantêm essas condições, é possível. Quando essas condições começam a deixar de existir, efetivamente torna-se extremamente difícil. Depois é uma questão de saber até que ponto é que queremos fazer concessões ou não queremos fazer concessões. Há um sistema que nos diz sistematicamente que coisas estruturais do nosso trabalho não podem ser feitas porque não são aceites. E aí torna-se uma decisão. Mas não é que se tenha esgotado. Manter um coletivo de pessoas a trabalhar é uma coisa imensamente cansativa, é verdade, mas nunca foi isso que nos parou, porque há muita coisa para gerir.

O Cão Solteiro são quantas pessoas atualmente?
Mariana:
De estrutura fixa somos três a trabalhar permanentemente. Depois temos os nossos colaboradores de sempre, como o André Godinho, o Vasco Araújo e uma série de outras pessoas à volta com quem temos trabalhado ao longo destes anos. Mas, efetivamente, as condições em que surgimos, e isso sim inclui o financiamento, as companhias que surgiram ao mesmo tempo que nós, do meio para o final dos anos 90, surgiram porque houve uma política de apoio financeiro à produção artística que tornou possível criar estruturas e as pessoas estarem a trabalhar a tempo inteiro nessas estruturas.

Essa estrutura ainda existe, mas o desinvestimento é total e não vale a pena virem atirar com números que impressionam qualquer um. Não sei quantos milhões. Claro que qualquer pessoa diz que é “imenso dinheiro”. Mas quando é distribuído pelas pessoas que estão a trabalhar e pelas necessidades reais do trabalho, é tudo miserável. Não há outra palavra. E conta-se dinheiro a toda a hora. E tem que se pedir desculpa às pessoas por estar a pagar três vezes menos do que se devia. Portanto, é muito dinheiro? É. Mas é pouco.

André Godinho: Nesse sentido, decidir que se faz um último espetáculo e que se fecha uma companhia é um ato de resistência também. Este espetáculo é um ato de resistência. Tem esse lado de: não, nós é que decidimos que acabamos com isto, não são vocês que decidem que vão acabar com isto. Somos nós. E o espetáculo é muito sobre o trabalho. Não nos interessava nada fazer um espetáculo que fosse uma revisão do que é que está para trás, embora, imensas vezes, estejamos nos ensaios a falar de outros espetáculos que já foram feitos. Mas é porque os espetáculos são sempre sequências uns dos outros e há problemas que se levantam nuns e que são resolvidos nos seguintes. É óbvio que a história toda da companhia está em cada espetáculo que se faz, mas o espetáculo não é uma revisão do que foi. É uma coisa sobre o trabalho. Estamos aqui a fazer o último espetáculo, mas estamos a trabalhar até estar a suar. A ideia é que o que se vê em cena, tanto esse lado que é uma festa, como o lado desta desmontagem, são pessoas que estão a trabalhar. O que vemos em cena são pessoas a trabalhar, a andar de um lado para o outro, que não se cansam porque querem fazer aquilo. Pode ser difícil, mas queremos estar sempre nessa luta. O que se passa no filme é uma cena numa rave. É uma experiência pessoal, é dançar. E é também a ideia de continuar sempre, continuar ali a dançar até desligarem as luzes e acabar a música. É prazer e esforço ao mesmo tempo.

"Decidir que se faz um último espetáculo e que se fecha uma companhia é um ato de resistência também. Este espetáculo é um ato de resistência. Tem esse lado de: não, nós é que decidimos que acabamos com isto, não são vocês que decidem que vão acabar com isto. Somos nós" 
André Godinho

Há muito que a companhia não se deixa fotografar, quando se pesquisa Cão Solteiro não se encontram fotografias.
Paula:
right [risos]

O teatro tem um carácter efémero, ou se viu o Dois Mil e Vinte e Dois ou não se viu. Quando se chega ao fim de uma companhia, não se pensa na ideia de legado, do que fica? Ou há um lado libertador em haver o que fique apenas na memória de quem o viveu? Ou têm algum arquivo?
Paula:
Não [temos]. Falando por mim, isto é uma característica que pertence e define o que é teatro: se estavas lá e viste, viste. Se não estavas, não viste e isso não faz parte da tua vida. O teatro define-se assim. E isso é muito bonito. Capitalizar essas coisas e distorcê-las é ofensivo. Há muitas modas que se sucedem, mas, neste momento, o artista é tratado como se fosse um produto. E o trabalho do artista é tratado como outro produto.

Não acredita no interesse genuíno?
Paula: Acredito, mas a riqueza é eu ser decifrada por quem me vê ali. Porque, provavelmente, é com isso que estou a trabalhar. Esta relação invisível que se passa entre um espectador e as pessoas é bela. É aquilo que nos intriga, é aquilo que nos atrai para determinadas coisas. O teatro funciona porque estamos a ver o que queremos ver. Lemos o que queremos ler. São projeções. E isso é o que o teatro dá. O teatro só dá aquilo que queremos tirar de lá. E isto passa-se tudo a muitos níveis para os quais não tem interesse nenhum saber se eu gostava de comer gelados Olá ou Rajá quando tinha cinco anos.

André: O teatro do Cão Solteiro é um teatro que não quer dar respostas. Não dá respostas.

Paula: Estamos à procura.

André: Não só não dá respostas, como muitas vezes não há respostas para dar. Interessa atirar uma série de pistas para cima da mesa e as pessoas lerem o que quiserem. E há pessoas que leem muitas coisas e há pessoas que se aborrecem.

Paula: E é legítimo!

Este espetáculo inclui uma desmontagem, convosco a sair do palco.
Mariana:
Sim, a ideia é que o espetáculo termine quando já não houver lá mais nada.

Põem um fim aqui ao Cão Solteiro. Preocupa-vos o que vem depois?
Paula:
Será sempre diferente. Outro grupo de pessoas organizar-se-á de outra maneira procurando outras coisas. Mas ninguém que vem perto de nós sai sem saber exatamente como é que nós trabalhamos e porque é que nos interessa. Depois são livres de fazer as suas coisas. Isto é o mais que se pode dizer.

André: Até porque apesar de tudo, houve muitas pessoas que já passaram por espetáculos do Cão Solteiro, que são criadores também, e que levam daqui coisas. No meu caso, que faço filmes, sinto que há muitas coisas que faço nos meus filmes que vieram dos processos de trabalho do Cão Solteiro.

"Isto é uma característica que pertence e define o que é teatro: se estavas lá e viste, viste. Se não estavas, não viste e isso não faz parte da tua vida. O teatro, para mim, define-se assim. E isso é muito bonito"
Paula Sá Nogueira, Cão Solteiro

Em 2026 é possível ver surgir uma companhia tão distinta como o Cão Solteiro?
André:
Surgem diferentes, em contextos diferentes. Uma coisa muito marcante no percurso do Cão é que começou por só fazer espetáculos em espaços não convencionais. Mas, a certa altura, não conseguia viver só dos espetáculos não convencionais e precisava de produções de teatros. De repente, passamos para um palco e a certa altura já não fazemos nenhum espetáculo num espaço não convencional porque só conseguimos fazer espetáculos nos palcos. Hoje já praticamente ninguém faz espetáculos fora de um contexto, num espaço não convencional. Em Lisboa praticamente não existe, existe a Latoaria que é um espaço de facto não convencional, mas de resto…

Paula: Porque isso foi uma decisão política.

André: Mas é uma coisa que se altera na própria estrutura. Não quero dizer que não haja jovens companhias que tentem pensar de outra maneira. No outro dia, as Docinhas estavam a fazer um espetáculo que era uma viagem de camioneta. Elas iam lá na camioneta. Não sei o que é que acontecia, era para quem lá esteve. Haverá pessoas a tentar encontrar uma maneira e o Cão também foi encontrando a sua maneira.

Mariana: Talvez não existam muitas, algumas delas vou conhecendo porque também trabalho na Escola de Teatro, conheço as pessoas que vão passando pela escola. Há muita coisa a acontecer de modos diferentes, certamente a cidade também se alterou toda. A questão com os espaços alternativos é que a estrutura da cidade se alterou e esses espaços não existem hoje em dia. Mas de outros modos há muita coisa a acontecer.

André: Não existem, mas também são domesticados, de certa maneira. Trabalhei bastante com a [companhia Teatro] Praga e quando entrei agora na [sala] Valentim de Barros pela primeira vez… Aquilo era um espaço onde a Praga esteve uma série de anos e fez uma série de espetáculos, agora é uma blackbox chata onde não se pode colar coisas nas paredes, não se pode usar água porque o chão estraga-se. Antes aquilo era um espaço de liberdade, um armazém.

▲ Desde 2007 que André Godinho colabora com o Cão Solteiro, não só como realizador, mas também como ator e co-criador

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Há hoje uma domesticação do teatro?
André:
A sala Valentim de Barros está ligada a um teatro e as regras são cada vez mais…

Paula: Higienizam. É fácil: um espaço existe como espaço. Às vezes o sítio sugere coisas nas quais nem pensamos. Uma blackbox, preta, impecável, sugere muito pouca coisa. Não há nada do espaço que interfira com a construção de um trabalho. Já não são só os espaços, é tudo. Tudo está dirigido para ter um fim, dirigido para encher plateias, dirigido para ser popular. Há muitos objetos e é preciso escolher… Isto é ir para uma corrida e ter os pés amputados. É difícil, mas acho que é estar em cima e a geração a seguir vai outra vez para o underground. Os espaços alternativos não são os que eram para nós, mas se calhar agora são autocarros [risos]. As pessoas que estão agora a começar a fazer coisas terão de descobrir quais são os espaços alternativos porque eles vão mudando. A cidade não é a mesma. As pessoas que decidem também não percebem nada de underground. Até perceberem que o autocarro é um espaço alternativo, vai demorar muito tempo.

André: Mas nem sequer é alternativo, é livre.

Paula: É livre, livre. Tudo isto contribui para exercitar a criatividade. Tal como o armazém do ferro, um espaço onde fazíamos espetáculos. Aquele espaço influenciou todos os espetáculos que lá foram feitos, não era higienizado e era uma coisa impossível de ignorar. O frio que lá se passava no inverno, o calor no verão, tudo aquilo, a própria configuração, era um retângulo que nunca mais acabava. Tudo isso entra no trabalho. Relacionamo-nos com tudo à nossa volta. Estamos em processo, estamos vivos, em relação com as pessoas de quem gostamos, de quem não gostamos, e com tudo o que está à nossa volta. O trabalho reflete todas essas coisas.

Mariana: Assim que achamos que não tínhamos interesse nenhum em peças de teatro que nos dessem já um enquadramento qualquer, aquilo com que ficamos foi a relação direta que temos com aquilo que estamos a viver no momento em que estamos a fazer o espetáculo. As pessoas com quem estamos e sobre o que estamos a refletir. Isso é o presente. Já foram muitas as vezes em que as notícias e coisas do presente entraram no espetáculo de alguma maneira. É algo sobre o estar aqui, ser agora qualquer coisa e reagir em tempo real ao que se está a passar. É com o espaço e com todas as outras coisas. Estamos no presente, não temos uma ficção. Aquilo que temos é isso.

A nota que anuncia o espetáculo convoca “todas as pessoas que alguma vez foram Cães”. Isso é o quê?
Mariana:
Fui eu que escrevi [esse texto]. São duas ideias. Uma tinha a ver com um facto antigo que é acharmos que iam estar nesta festa muitos dos nossos amigos, que esperamos que estejam na plateia e que tenham muita vontade de dançar. Mas depois tem um lado mais abstrato que é: se alguma vez partilharam desta postura e destas ideias ou das coisas que nós fomos fazendo e propondo, venham para esta festa. Queremos que seja uma festa de cães.

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