Karina Ariev, Daniella Gilboa, Naama Levy e Liri Albag foram libertadas este sábado pelo Hamas. São todas militares, israelitas, têm entre 19 e 20 anos, e regressaram a casa antes de outra refém civil, o que Israel diz que quebrou o acordo, segundo o qual as mulheres civis devem ser libertadas em primeiro lugar.

As quatro jovens têm o comum o facto de serem militares e de terem sido raptadas da base do exército de Nahal Oz, perto da fronteira com Gaza, quando o Hamas atacou a 7 de outubro de 2023. Estavam, portanto, há 15 meses e meio em cativeiro. Foram o segundo grupo de reféns libertadas ao abrigo do cessar-fogo, depois de três mulheres civis terem saído do cativeiro na semana passada.

A festa pelas três jovens libertadas pelo Hamas e o atraso na libertação de 90 prisioneiros palestinianos. O primeiro dia de cessar-fogo

As mulheres agora libertadas foram raptadas com outros colegas: Agam Berger, que ainda está em Gaza e que Israel acredita que está viva; Noa Marciano, cujo corpo já foi repatriado para Israel; e Ori Megidish, que já tinha sido libertada pelas forças israelitas.

A imprensa israelita diz que as quatro militares parecem bem de saúde — isso mesmo foi dito por fontes das forças de Israel —, mas serão ainda submetidas a exames médicos.

Quem são as quatro militares libertadas este sábado?

Karina Ariev

Karina Ariev tem 20 anos. A irmã, Alexandra, contou à BBC que Karina lhe ligou desesperada no dia do rapto e que ouviu do outro lado tiros. Mais tarde, viu um vídeo da irmã a ser levada num carro. “Ela ligou-me para se despedir. Estava assustada, a chorar, estava em pânico. A sua última mensagem foi ‘Eles estão aqui’, no abrigo”. Foi a última vez que contactaram uma com a outra.

Alexandra identificou a irmã no vídeo do rapto que circulou nas redes sociais. Karina tinha sangue na cara e estava a gritar. O Fórum que junta as famílias dos reféns e dos desaparecidos no conflito descreveu Karina como alguém que sonha “em tornar-se psicóloga” e que “é conhecida por ser bondosa e por unir as pessoas”.

Naama Levy

Naama Levy, também com 20 anos, foi filmada a entrar num carro, um jipe, com as mãos atadas atrás das costas, em imagens divulgadas pelo Hamas. A mãe contou que tinha começado recentemente o serviço militar e que já tinha participado numa iniciativa de paz israelo-palestiniana. Foi, aliás, descrita pela família como “uma pessoa que procura a paz”.

Segundo a BBC, num dos vídeos em que aparece, diz aos raptores, em inglês: “Tenho amigos na Palestina”. As imagens do rapto foram divulgadas pela família, em maio de 2024, para “encorajar todas as partes a voltar à mesa das negociações” e resolver “uma questão humanitária insuportável”.

Naama é a segunda de quatro filhos. Cresceu na Índia onde estudou numa escola internacional dos EUA. Enquanto era criança, fez parte do programa “Hands of Peace” (“Mãos de Paz”) que promove a paz entre jovens israelitas e palestinianos. Pratica triatlo.

Daniella Gilboa

Já Daniella Gilboa ficou ferida na perna quando foi raptada de Nahal Oz. Também apareceu em vários vídeos — num deles, no ano passado, perguntou ao governo israelita por que razão foi “abandonada” e “descartada”. A mãe, Orly, disse ao Jerusalem Post que o vídeo mostra que a filha é “forte e determinada” e que os ferimentos que sofreu a 7 de outubro de 2023 não são tão graves quanto se pensava. Mas mostrou preocupação pelo seu estado de saúde psicológica.

Segundo a NBC, a mãe de Daniella contou que a filha informou os seus comandantes, antes dos ataques de 7 de outubro, de que tinha visto pessoas suspeitas de serem militantes do Hamas que pareciam preparar um ataque.

O pai do namorado, segundo a BBC, disse que o filho planeia pedi-la em casamento quando regressar. “O meu filho pediu aos pais [de Daniella] a sua mão em casamento e eles responderam que sim, apesar de terem apenas 19-20 anos. Logo depois disso, ele gritou para o céu: ‘Vou propor-te em casamento!'”, contou.

Logo depois da libertação, o tio de Daniella Gilboa confidenciou à CNN Internacional que a irmã (e mãe de Daniella) não parou de chorar durante o momento. “É como ter dado à luz. Acabou de ter a filha de volta”, explica. Falou numa “mistura de sentimentos”. “É um momento de grande alegria, não apenas para nós mas para toda nação israelita que nos apoiou neste momento”. Mas lembrou aqueles que ainda estão em cativeiro. “Esperamos que no próximo sábado celebrem connosco”.

Sobre Daniella, diz que é uma pessoa muito corajosa e salienta a forma como “andou de forma orgulhosa no ‘teatro’ do Hamas”. “Ela e as outras mulheres são umas lutadoras, são jovens judias com orgulho e que nunca perderam a esperança”. E o que vai dizer a Daniella quando a vir? “Que pizza é que ela quer que eu lhe faça. Estou pronto para cozinhar.” “Tudo lhes foi tirado, a sua liberdade, os seus pensamentos, a sua vida. Precisamos de lhe dar espaço”, disse ainda.

Antes do rapto, Daniella estudava piano e canto e aspirava a uma carreira profissional na música.

Liri Albag

Tinha apenas 18 anos quando foi levada pelo Hamas e tinha iniciado recentemente o treino militar como vigia do Exército — um dia e meio antes do ataque. A prima, Aya Albag, que também pertence ao Exército, contou que Liri estava “motivada e feliz”.

Segundo a família, Liri foi conseguindo transmitir mensagens à família através dos reféns que foram sendo libertados — terá, segundo foi noticiado à altura, pedido à irmã que não cancelasse a viagem marcada para o pós-serviço militar e que não usasse os seus sapatos preferidos.

A France24 adianta, também, que os reféns entretanto libertados contaram à família que Liri era obrigada a cozinhar, a fazer limpezas e a cuidar de bebés. Num vídeo divulgado pelo Hamas em janeiro de 2024, Albag — na altura com 19 anos — disse: “Tenho toda a minha pela frente, mas agora a minha vida foi colocada em pausa. O mundo começa a esquecer-nos. Ninguém quer saber de nós. Estamos a viver um pesadelo”, referiu. Liri foi descrita como uma pessoa que adora viajar, cantar, fotografar e cozinhar.

Os amigos de Liri reuniram-se para assistir pela televisão à libertação, segundo o Jerusalem Post, e garantiram que irão abraçá-la e “dizer-lhe que está tudo bem”. O pai escreveu, antes da libertação, que “os corações” estão com as famílias dos restantes reféns ainda em cativeiro. “Vamos lutar até que o último refém seja libertado”.

Porque é que as quatro militares foram libertadas ante de Arbel Yehoud?

O acordo de cessar-fogo previa a libertação, em primeiro lugar, de mulheres civis israelitas. Na semana passada, foram libertadas três reféns que cumpriam esses requisitos, mas este sábado isso não aconteceu: as quatro mulheres são militares. Ficou a faltar Arbel Yehoud, refém civil de 29 anos, que estará não a cargo do Hamas mas de uma afiliada da Jihad Islâmica (o seu braço armado, a brigada al-Quds).

Segundo a CNN Internacional, a Jihad Islâmica indicou à estação televisiva que Yehoud foi feita refém por ser um “soldado treinado” num programa do exército israelita. Mas o governo israelita insiste que Yehoud é civil e que deveria ter sido libertada este sábado.

Aliás, Daniel Hagari, líder das Forças de Defesa de Israel (IDF), apressou-se a lamentar, em conferência de imprensa, que Arbel Yehoud não tivesse sido libertada, ao contrário do que Israel esperava que acontecesse (à luz do acordo). Hagari garantiu que vão ser feitos todos os esforços para que seja libertada rapidamente e acusou o Hamas de quebrar o acordo.

Israel reagiu de outra forma: em comunicado, o gabinete de Benjamin Netanyahu anunciou que “à luz do acordo [de cessar-fogo], Israel não permitirá que cidadãos de Gaza se mudem para a zona norte da Faixa de Gaza até à libertação da civil Arbel Yehoud, que deveria ter sido libertada hoje [sábado]”.

O Hamas não esclareceu por que é que Yehoud não foi libertada, mas garantiu que está bem de saúde e que sairá do cativeiro na próxima semana. Israel terá pedido prova de que está viva e bem de saúde e meios de comunicação árabes avançam que já a terá recebido.

Arbel Yehoud não é a única refém civil que ainda não regressou a casa. Na conferência de imprensa deste sábado, Daniel Hagari também garantiu compromisso para trazer de volta Shira Bibas e os dois filhos menores. Mas reconheceu que as IDF têm “sérias preocupações sobre o seu destino”. Na semana passada, o Hamas disse que a família morreu na sequência de um ataque israelita em Khan Younis, mas Israel não confirmou a veracidade da informação.

Hagari reiterou o compromisso de fazer chegar todos os reféns ainda em cativeiro, que são 90 e que “não podem nem serão esquecidos”.