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Depois de 15 meses de guerra na Faixa de Gaza, o acordo de cessar-fogo permitiu o regresso de reféns a casa. Três foi o número de reféns devolvido pelo Hamas a Israel, que escolheu três mulheres jovens para em troca receber 90 prisioneiros palestinianos. A libertação de prisioneiros palestinianos só aconteceu já depois da uma da manhã local, 23 horas em Lisboa.

A cargo da Cruz Vermelha Internacional ficou a missão de recolher os reféns israelitas e também o oposto: assegurar o regresso dos 90 prisioneiros da Palestina a casa. Estes estavam na prisão de Ofer, na Cisjordânia, para onde a organização internacional se deslocou.

Coube à Cruz Vermelha Internacional assegurar a verificação da identidade dos 90 prisioneiros, na maioria mulheres, no interior da prisão.

As três primeiras reféns a regressar a casa

São o símbolo do início de um acordo que demorou mais do que um ano a ser fechado. Todas mulheres, todas jovens. Doron Steinbrecher, agora com 31 anos, é veterinária e foi raptada quando os terroristas do Hamas invadiram a sua casa em Kfar Aza.

Emily Damari, com 28 anos, é israelita com dupla nacionalidade britânica, e foi raptada no kibutz Kfar Aza. Romi Gonen, de 24 anos, foi raptada no festival Supernova. A sua mãe tem sido uma voz ativa na luta pela libertação dos reféns.

As Forças de Defesa de Israel confirmaram durante a tarde deste domingo que as três mulheres tinham sido entregues e estavam a ser escoltadas no regresso ao país, explicando que iriam ser submetidas a uma primeira avaliação médica. Antes, reuniram-se “com as suas mães”, numa localização das IDF perto de Gaza e, daí, seguiram com as famílias, acompanhadas pelo exército, até ao centro médico Sheba, em Ramat Gan, Israel.

Mais tarde, a equipa médica revelou que as jovens estão com uma “condição estável” de saúde, mas que vão ser acompanhadas nos próximos dias. “Fico feliz de dizer que estão numa condição estável”, avançou Itai Pessach, em declarações citadas pelo Guardian. “Isso permite-nos e a elas focarem-se no que é mais importante por agora — reunirem-se com as famílias.”

“Vamos continuar a acompanhar as suas condições clínicas. Isto vai demorar mais alguns dias a concluir todos os exames necessários e a tratá-las para o que encontrarmos.”

Horas depois do anúncio de que as reféns estavam junto das famílias, nas redes sociais começaram a surgir fotos de Emily Damari, onde se vê que perdeu dois dedos quando foi atingida nos ataques de 7 de outubro de 2023, segundo a família. Nas imagens é possível ver a israelita sorridente e a falar, através de videochamada, com vários familiares.

Já depois da entrega das reféns, o Hamas divulgou um vídeo onde mostrou a viagem das três jovens até à entrega à Cruz Vermelha. Nas imagens as três ex-reféns apresentam “certificados” de libertação. As imagens divulgadas por Israel da chegada das jovens a território israelita mostram o trio com sacos, com a imprensa israelita a explicar que eram onde transportavam os “certificados” e fotografias dadas pelo Hamas do cativeiro de 470 dias.

No dia em que arrancou o cessar-fogo, os primeiros camiões com ajuda humanitária entraram em Gaza. Trata-se de 260 camiões de ajuda humanitária e 16 camiões de combustível que entraram através da passagem de Kerem Shalom, entre Israel e Gaza, e de Nitzana, na fronteira entre o Egito e Israel, confirmou Jonathan Whittall, chefe interino da agência de emergência humanitária da ONU (OCHA) para os Territórios Palestinianos Ocupados.

O atraso na libertação dos 90 prisioneiros palestinianos

Estava prevista a libertação por parte de Israel de 90 palestinianos este domingo — a primeira leva de 2000 que deverão ser libertados ao longo da primeira fase de cessar-fogo.

Porém, a saída dos autocarros com prisioneiros só aconteceu já depois da uma da manhã de segunda-feira na hora local, 23 horas em Lisboa. Israel avançou que foram libertados 78 residentes da Cisjordânia, que foram deixados no checkpoint de Beitunia. Os restantes 12 residentes do leste de Jerusalém foram transportados para a cidade.

Segundo a Al Jazeera, alguns familiares de detidos na prisão de Ofer aguardaram desde as 15 horas locais. Terão também sido contactados pelos serviços de Israel para não festejarem a libertação de prisioneiros à frente da prisão.

Os ânimos exaltaram-se durante a espera e o atraso nas saídas: a imprensa árabe avançou que as forças israelitas dispararam balas de borracha e gás lacrimogéneo contra as pessoas que aguardavam no exterior. Pelo menos sete pessoas ficaram feridas.

O site Ynet citou uma fonte anónima que culpou a Cruz Vermelha pelo atraso “propositado” na libertação dos prisioneiros. Oficiais israelitas disseram ao site que o atraso tinha como objetivo passar a imagem de que “Israel estava a falhar em cumprir a sua parte do acordo”.

As reações por todo o mundo (e os avisos)

Poucas horas depois de se iniciar a troca de reféns, Joe Biden falou numa conferência de imprensa e reconheceu estar satisfeito pela sua equipa e pela do recém-eleito Presidente dos EUA, Donald Trump, conseguirem “falar a uma só voz nos últimos dias”, a propósito da finalização do acordo de cessar-fogo. O diálogo foi “necessário, eficaz e sem precedentes”, acrescentou. E afirmou que será necessário “persistência e [dar] apoio contínuo aos amigos na região”.

“Depois de tanta dor, morte e perda de vidas, hoje silenciaram-se as armas em Gaza”, disse, recordando que trabalha em política há décadas e que esta foi “uma das negociações mais difíceis” nas quais participou.

Também o conselheiro de segurança nacional do recém-eleito Presidente dos EUA Donald Trump, Mike Waltz, afirmou, em declarações na CBS, que o Hamas, que controla Gaza há quase duas décadas, “nunca mais irá governar Gaza”.

“Se o Hamas renegar este acordo e recuar, mudar de posição, etc., apoiaremos Israel a fazer o que tem de ser feito”, disse, descrevendo uma possível governação do Hamas como “inaceitável”.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse que as três reféns libertadas pelo Hamas, como parte do acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza, “passaram por um inferno”, refere um comunicado do seu gabinete.

Numa conversa telefónica com Gal Hirsh, seu chefe de gabinete do caso de reféns, Netanyahu afirmou que as três jovens “passaram pelo inferno”, acrescentando que estavam a sair “das trevas para a luz, da escravatura para a liberdade”.

Também António Costa mostrou-se “aliviado” por ver “as primeiras reféns libertadas” pelo Hamas e “a ajuda humanitária” a chegar a Gaza. “O acordo traz um lampejo de esperança muito necessário para a região”, escreveu Costa numa mensagem na rede social X. O presidente do Conselho Europeu pediu ainda que “todas as partes” respeitem o acordo: “A paz é o único caminho a seguir.”

Por outro lado, Abu Obeida, o porta-voz das Brigadas Qassam do Hamas, garantiu que o grupo “está comprometido com o acordo de cessar-fogo, mas isto depende da adesão do inimigo”. As declarações foram feitas numa mensagem de vídeo e são citadas pelo Times of Israel. “O acordo podia ter sido feito há um ano se estivesse alinhado com as ambições de Netanyahu”, referiu o porta-voz.

Também o chanceler alemão e o Presidente francês apelaram ao cumprimento do acordo de cessar-fogo para a libertação dos reféns e para a coexistência pacífica entre o “Estado Palestiniano e Israelita”. “Devemos aproveitar este momento para nos comprometermos com um Estado palestiniano que possa coexistir pacificamente com o Estado de Israel”, afirmou Olaf Scholz numa mensagem publicada na sua conta X.

O que se segue no cessar-fogo

Está previsto que este cessar-fogo dure 42 dias, seis semanas, sendo que depois deste período o acordo deverá manter-se enquanto Hamas e Israel estiverem envolvidos em negociações, uma confirmação feita pelo Presidente dos EUA, Joe Biden.

Os reféns que constam desta lista vão ser libertados ao longo do tempo da seguinte forma: três no primeiro dia, quatro no sétimo dia, três por semana durante quatro semanas e 14 na última semana. Durante o primeiro dia de cessar-fogo, o Hamas confirmou que a próxima troca de reféns será no sábado, dia 25 de janeiro. Uma informação que também foi reforçada por Joe Biden, no seu último dia enquanto Presidente dos EUA.

“Após o cessar-fogo, os reféns vão começar a ser libertados. Três mulheres israelitas mantidas por 470 dias. Mais quatro mulheres dentro de sete dias. E três reféns a cada sete dias daqui para a frente, incluindo pelo menos dois norte-americanos na primeira fase”, escreveu no X.

A tese oficial é a seguinte: Israel libertará centenas de presos palestinianos — 30 por cada civil que o Hamas liberte e 50 por cada soldado. Ao todo, serão libertados entre 990 e 1650 detidos, com prioridade para as mulheres e crianças detidos desde o 7 de Outubro. Entre estes prisioneiros, estarão pessoas condenadas por penas perpétuas (a Al Jazeera avança que serão cerca de 250), mas nenhuma que tenha estado envolvida no 7 de Outubro.

A pressão de Trump, o papel de Biden e o “medo” de Netanyahu e do Hamas. Como se chegou a um cessar-fogo em Gaza. E vai durar?

Da lista de reféns consta o nome de Ofer Calderon, de 54 anos, um cidadão israelita que em 2023 requereu a nacionalidade portuguesa ao abrigo da legislação que permite a naturalização dos descendentes de judeus sefarditas (expulsos de Portugal no século XV).

O Governo português acelerou o processo de naturalização na esperança de poder ser libertado ao abrigo de um eventual acordo para a libertação de reféns com dupla nacionalidade.

Calderon foi raptado em 7 de outubro de 2023 pelo Hamas juntamente com dois dos seus filhos menores (Sahar, de 16 anos, e Erez, de 12) no ataque do grupo terrorista ao kibutz Nir Oz, que resultou na morte de mais de 100 pessoas. Os filhos seriam libertados em novembro desse ano no âmbito de uma primeira trégua negociada pelo Qatar e pelos EUA, mas Ofer manteve-se na Faixa de Gaza.

Na lista estão ainda os nomes de dois outros reféns que, de acordo com o Diário de Notícias, também têm ligações a Portugal: Or Levy e Tsahi Idan.

Crianças, mulheres, idosos e doentes — e um português. Quem são os 33 reféns que o Hamas vai libertar na primeira fase do cessar-fogo?