A 19 de fevereiro de 1959, numa cerimónia com mais de 2000 ismailis vestidos de branco, a cantar e queimar incensos, o príncipe Aga Khan IV carregou o corpo do avô, o seu antecessor, do túmulo temporário na vila da família em Aswan, no Egito, onde esteve desde a sua morte em julho de 1957, até o mausoléu construído numa colina sobre a casa. Uma construção imponente, em mármore carrara rosa, projetada pelo arquiteto egípcio Fareed El-Shafei e a seguir o estilo dos túmulos do império Fatimid, uma dinastia ismaili que governou o norte da África no século X. Na margem do rio Nilo, a cerca de 900 km do Cairo, capital do Egito, é hoje uma das construções mais visitadas do país, e espaço de culto para a comunidade ismaili. E representa o desejo do então príncipe e líder dos muçulmanos xiitas ismailis.
Os sites de turismo egípcios dizem que Aga Khan foi a Aswan à procura de tratamento para o reumatismo, e que se encantou pela região depois de uma semana a banhar-se na areia curativa. Contudo, a mulher do príncipe dá outra versão para a relação com a cidade. “Vínhamos desde 1935, quando a cidade ainda não era turística mas sim um espaço de tratamento e saúde. Costumávamos vir por um ou dois meses, ficávamos no Cataract Hotel, e fazíamos passeios lindos no Nilo. Não vínhamos para procurar a cura da asma ou outra doença, era apenas para aproveitar o bom tempo e ar de Aswan”, disse Begum Om Habibeh Aga Khan, em abril de 1992, à Al-Ahram Weekly. Terá sido durante uma destas visitas que o príncipe expressou a sua vontade: “gostava de ser enterrado em Aswan”.
“Quero ser enterrado cá”
“Ele costumava dizer que o Egito é a bandeira do islamismo. E queria ser enterrado cá”, disse Begum. O casal descobriu a propriedade que viria a ser a sua vila branca enquanto fazia um passeio de barco no Nilo. “A casa estava totalmente fechada e negligenciada”. A mulher de Aga Khan III contou que o marido comprou a casa em 1954 com a condição de que poderia construir o mausoléu nos fundos. A vila recebeu o nome de Noor al Salaam. Contudo, o príncipe só desfrutou da casa por três semanas. “O meu marido estava muito doente e em 1956 não estava em condições para viajar para o Egito. Em 1957, morreu”.
O fim de Aga Khan III chegaria de facto a 11 de julho desse ano, na Suíça, mas na altura o mausoléu não havia sido construído. Quando o seu corpo chegou ao Cairo, cinco dias depois, o presidente Gamal Abdel Nasser ordenou que fosse realizada uma cerimónia fúnebre oficial, como se de um chefe de estado se tratasse. Na altura o príncipe foi sepultado num túmulo temporário no jardim da casa da família, em Aswan, até que pudesse finalmente ser transportado para o local de definitivo, construído sobre uma colina.
▲ Milhares de ismailis participaram na cerimónia de sepultamento de Aga Khan III em 1959
Mármore esculpido à mão
A construção levou 16 meses e ficou sob a responsabilidade de Begum. A viúva de Aga Khan III procurou a ajuda de um professor universitário britânico especializado em arquitetura islâmica que a levou para ver exemplos de construções no Cairo. “Inspirei-me na Mesquita Giushi. É da época do império Fatimid, e a parte que mais me inspirou foi o Mihrab (o nicho na parede que indica a direção de Meca, para onde se deve virar ao rezar). Então o professor recomendou-me um jovem arquiteto, um dos seus alunos, que era bom em arquitetura islâmica. O homem era absolutamente maravilhoso, inacreditavelmente maravilhoso. Ele fez questão de escolher cada detalhe, desde a seleção do mármore ao trabalho das proporções. E algo que as pessoas talvez não saibam é que o monumento foi todo feito à mão. A maior parte do mármore foi esculpido de uma única peça. A única coisa que veio de fora foi o mármore Carrara, um tipo muito especial e puro. O resto é granito e arenito de Aswan”.
Begum ficou conhecida como a “rosa vermelha”, porque visitava o mausoléu diariamente para depositar uma flor no túmulo, também um pedido do marido. “Não me deixe sozinho neste deserto. Venha visitar-me”, terá dito Aga Khan III. “Quando vejo todas as pessoas que o visitam, penso que se ele sabe e vê, deve estar muito feliz”, disse a viúva, que celebrou o facto de o monumento ser o mais visitado da cidade. Begum comemora ainda o número de empregos gerados pela exploração turística do mausoléu: “Um túmulo que dá a possibilidade de milhares de pessoas viverem dele. Se não houvesse mausoléu, não haveria barcos, lojas, camelos, e as oito pessoas que cuidam da propriedade e alimentam oito famílias”. Depois da morte do marido, Begum dedicou-se à caridade e a preservar a memória de Aga Khan III. Nunca voltou a casar-se e morreu em 2001, aos 94 anos. O seu corpo foi sepultado ao lado do do marido, em Aswan.
▲ Aga Khan IV morreu a 4 de fevereiro de 2025, aos 88 anos
ESTELA SILVA/LUSA
Sucessão
Quando morreu, em 1957, Aga Khan III decidiu pular uma geração e escolheu o neto, então com 20 anos, para ser o líder ismaili. A escolha é feita “de acordo com a tradição histórica xiita imami ismaili e a prática do nass”, explica através de um comunicado o Imamat ismaili, que tem a sua sede mundial em Lisboa desde 2015. A decisão fica registada num testamento, que é lido na presença da família do imã e dos principais líderes internacionais do Jamati, até 24 horas depois da morte do líder.
O anúncio do sucessor de Aga Khan IV foi feito na tarde desta quarta-feira, 5 de fevereiro, um dia depois da morte do príncipe. Quem assume o posto é Rahim Aga Khan, o filho mais velho de Shah Karim al Hussaini. Nasceu em 1971 e formou-se em 1995 na Universidade Brown (EUA) com um bacharelato em Literatura Comparada, antes de concluir um programa de desenvolvimento executivo em gestão e administração na IESE Business School da Universidade de Navarra, em Barcelona, Espanha. Está ativamente envolvido na gestão da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento há mais de 20 anos, na qual integra vários órgãos.