Os acusados na Operação Tutti-Frutti vão continuar a desempenhar os cargos autárquicos para os quais foram eleitos. A direção de Luís Montenegro, através de Hugo Soares, exigiu a saída dos dois deputados envolvidos (Luís Newton já saiu, Carlos Eduardo Reis deverá fazê-lo quando regressar do estrangeiro), mas não vai retirar a confiança política nas autarquias locais aos presidentes das juntas de freguesia da Estrela, Areeiro e Santo António, nem ao vereador de Barcelos. A vontade dos acusados, segundo manifestaram a alguns dos seus mais próximos ouvidos pelo Observador, também é a de resistir nos cargos.

O argumento utilizado pelas estruturas do PSD/Lisboa e pelos círculos mais próximos dos presidentes de junta de Luís Newton (Estrela), Vasco Morgado (Santo António) e Fernando Braancamp (Areeiro) é a de que “encabeçaram uma lista para a qual foram eleitos pelo povo” e que “os eleitores já conheciam muitos dos factos quando os elegeram na última vez [em 2021]”. Aliás, os três estão em final de mandato, o que será para equipa de Carlos Moedas, o líder espiritual do PSD em Lisboa (e não o líder na teoria), uma atenuante.

O deputado municipal de Lisboa Carlos Reis disse na Rádio Observador que já conversou com Luís Newton e defendeu a legitimidade dos acusados continuarem nos cargos para os quais foram eleitos como cabeças de lista. Sobre o presidente da junta de freguesia da Estrela, lembra que “foi eleito três vezes consecutivas” e que até chegou a vencer em “boletim separado” (quando o CDS decidiu avançar sozinho). Para Carlos Reis (não confundir com Carlos Eduardo Reis, o acusado), uma vez que os presidentes de junta “venceram junto das populações locais”, não faz sentido “terem uma limitação e não cumprirem o mandato até ao fim”. Caso contrário, seria uma espécie de “caça aos presidentes de junta”.

Apesar de Luís Newton ter suspendido o cargo de deputado, continua a exercer mais três funções: é presidente da junta de freguesia da Estrela, é líder da bancada municipal do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa e é presidente da concelhia do PSD/Lisboa. Luís Newton participou, aliás, esta quarta-feira à noite na tertúlia “Os Desafios da Higiene Urbana em Lisboa“, organizada pelo seu vice-presidente Jorge Barata. O encontro decorreu no Centro Cívico Edmundo Pedro, em Alvalade, e foi na qualidade de presidente concelhio que Newton marcou presença. Para quinta-feira está também marcado um evento no Clube Militar Naval onde será lançado o ano autárquico do PSD. Apesar dos episódios registados, esse evento não foi, até agora desmarcado. Nem consta que será.

Um antigo dirigente do PSD-Lisboa regista ao Observador: “Parece o Titanic, a banda continua a tocar e eles continuam como se nada se passasse“. A mesma fonte já tinha dito na terça-feira ao Observador: “É estranho o Newton não se demitir dos cargos que levaram a que fosse acusado e deixar de ser deputado.” Luís Newton, recorde-se, é acusado de 10 crimes: cinco de corrupção passiva (um deles agravado) e cinco de prevaricação.

Até ver, Ângelo Pereira, que suspendeu o mandato como vereador, também continua a ser líder da distrital de Lisboa, uma das maiores distritais do PSD. Carlos Reis, na Rádio Observador, diz que “o partido terá tempo para refletir” sobre o caso, defendendo também que a acusação não deve precipitar a decapitação dos órgãos concelhio e distrital. No caso de Ângelo Pereira, o vereador, como registou Carlos Moedas, é “apenas” acusado de um crime de recebimento indevido de vantagem.

Carlos Eduardo Reis sairá de deputado, mas não de vereador

O antigo diretor de campanha de Jorge Moreira da Silva — adversário interno de Luís Montenegro nas diretas — já foi pressionado publicamente pelo líder parlamentar para seguir o exemplo de Luís Newton e suspender o mandato de deputado. “Carlos Eduardo Reis encontra-se fora do país, terei a ocasião de ter uma conversa com ele nos mesmos termos que tive com o deputado Luís Newton. Sobre esta matéria, quero também ser muito claro e muito transparente: as condições imediatas para o exercício do mandato não estão reunidas e espero que o senhor deputado Carlos Eduardo Reis possa também suspender o exercício do seu mandato”, disse Hugo Soares.

Carlos Eduardo Reis estará mesmo fora em trabalho político, pelo que seria pouco prudente, explicam fontes sociais-democratas ao Observador, uma suspensão à distância. O deputado quer conversar primeiro pessoalmente com o secretário-geral do partido de presidente da bancada do PSD. No partido acredita-se que o deputado, muito importante durante a liderança de Rui Rio, acabará por sair pelo próprio pé. A única forma, aliás, que tem para sair sem ser em rutura com a direção do PSD.

Apesar disso, à semelhança do que acontece com Newton, Morgado e Braacamp, Carlos Eduardo Reis, apurou o Observador, não deverá abdicar do cargo de vereador da câmara municipal de Barcelos — onde tem os pelouros de Planeamento e Gestão Urbanística, Fiscalização e Contraordenações. É ainda presidente da Assembleia de Secção do PSD/Barcelos e assim deve continuar.

O deputado social-democrata Carlos Eduardo Reis é acusado de praticar um total de 22 crimes, todos em coautoria, exceto um de corrupção ativa: seis crimes de corrupção ativa (um deles agravado); seis crimes de prevaricação; cinco crimes de tráfico de influência; quatro de branqueamento; e um crime de abuso de poder.