“Uma das maravilhas de ser adepto e sócio é aproveitar o presente e apenas isso, mas o nosso papel enquanto administradores é estar a viver no futuro. Estou há vários anos preparado para se aquela peça sair, saber qual é a peça que vai entrar com uma garantia: a qualidade do processo de trabalho em campo tem de manter-se”, destacou Frederico Varandas, presidente do Sporting, em entrevista ao programa Trio D’Ataque da RTP3. A saída de Hugo Viana para o Manchester City, confirmada oficialmente em outubro com a explicação do novo organograma do futebol verde e branco, foi exemplo paradigmático disso mesmo. E com uma “ajuda”.

O fim de uma (outra) era: Hugo Viana deixa cargo de diretor desportivo do Sporting a caminho do Manchester City

Como o Observador explicou ainda antes da confirmação da saída do diretor desportivo para o campeão de Inglaterra, o líder leonino esteve sempre informado de todas as negociações existentes desde a abordagem inicial dos citizens até pela boa relação que tem com dois dos principais decisores neste processo: Txiki Beguiristain, diretor desportivo cessante que chegou ao Etihad Stadium há 12 anos, e Ferran Soriano, CEO do clube inglês. Hugo Viana não era a única possibilidade para assegurar o cargo, foi ganhando peso entre as opções existentes e “passou” no final Quique Cárcel, diretor desportivo do Girona. Em todo o processo, Varandas foi sabendo dos passos dados. Em todo o processo, Varandas foi pensando no próximo passo a dar.

A primeira oferta de Inglaterra, Beguiristain e um interesse que todos conheciam: Hugo Viana a caminho do Manchester City

“Fazer o que o Viana fez até agora é muito difícil mas o clube tem uma estrutura, um método, pessoas. Temos um caminho feito, ninguém faz nada sozinho. Se me perguntassem há três anos era diferente. Agora, acho que já toda a gente sabe como as coisas se fazem. O Sporting chegou a um momento em que só precisa dos adeptos, são eles a máquina disto. Se isso se mantiver, acho que no resto já há um plano. O clube é muito grande mas acho que estamos numa fase onde já há um método, uma ideia, um projeto e uma visão onde se podem mudar peças. Tudo vai seguir com naturalidade”, defendeu também Amorim, antigo treinador dos leões e figura com ligação próxima a Hugo Viana, depois da confirmação da saída.

Contactos, espírito positivo, Amorim e os sinais que poucos percebem: Hugo Viana, a sombra que deu outro governo à estrutura do Sporting

Esta era a ideia de Amorim mas também a de Varandas e a do próprio Viana. No entanto, e até pelas próprias características do diretor desportivo e respetiva relação com o ex-treinador, aquilo que ficou definido em Alvalade era que a melhor forma de manter a atual eficiência passava por uma mudança de organograma.

Nesta altura, o futebol do Sporting funcionava quase como uma troika, com Frederico Varandas, Hugo Viana e agora Rui Borges (apesar de não ter o mesmo peso que Ruben Amorim ganhou pelos quatro anos e meio em Alvalade), e vários departamentos a fazer depois circular informação entre si (secretários técnicos, departamento médico, Alto Rendimento, scouting, comunicação, Gabinete de Apoio, etc.). Agora, com a saída do diretor desportivo, essa figura deixa de existir – com essa curiosidade de ter sido uma função assumida na era Varandas apenas quando o próprio Viana subiu na hierarquia – e dá lugar a um regresso e a uma promoção em termos internos com um denominador comum: a forma discreta de trabalho. Com uma ressalva: seria Hugo Viana, que antes de aceitar rumar ao Manchester City chegou a declinar uma sondagem e uma oferta feita por clubes da Premier League, a trabalhar o mercado de inverno dos leões.

“Trabalhei com muitas pessoas mas ele tem um perfil único. Tem qualidades que não é habitual encontrar, o Hugo é uma super estrela em todos os aspetos. O Sporting está a entrar num ciclo novo. Houve uma rutura com o passado depois de algumas situações difíceis. É uma fase de reconstrução, de renascimento. O Hugo foi uma parte muito importante no início de todo este processo. Conseguiu fazer ver a todas as pessoas qual era a sua missão e colocou no lugar certo os princípios que fortaleceram o clube. Tem um código moral em termos profissionais que é inegociável e respeita as pessoas e o seu espaço para fazerem o seu trabalho, sendo alguém calmo que não necessita de se impor. Deixa as coisas correrem de forma natural e, acima de tudo, gosta de fazer perguntas e de ouvir”, descreveu José Chieira, que trabalhou com o diretor desportivo no Sporting quando estava no departamento de scouting, num perfil feito pelo The Athletic.

Fechada esta janela do mercado de transferências, o Sporting anuiu ao pedido de Hugo Viana para deixar o clube mais cedo, confirmando em comunicado essa saída na manhã de terça-feira entre elogios de Frederico Varandas pelo trabalho feito enquanto diretor desportivo. Já na semana passada, os dois homens que irão assumir agora a pasta bicéfala do futebol verde e branco estiveram reunidos em Alvalade a preparar essa sucessão. Ponto comum entre todas as figuras? O perfil discreto e o trabalho na sombra. Diferença? Em vez de um diretor desportivo, os leões passarão a contar com Bernardo Palmeiro como diretor geral, tendo uma presença mais próxima do plantel, e Flávio Costa como diretor técnico e do scouting, numa promoção que vai ao encontro daquilo que tem vindo a ser implementado em vários clubes europeus.

No caso de Bernardo Palmeiro, trata-se de um regresso ao clube onde entrou em 2020. Especialista em direito desportivo, entrou em Alvalade como assessor da SAD para as áreas jurídica e negocial com trabalho mais palpável na condução de vários processos negociais a apoiar Varandas e Viana em várias janelas do mercado de transferências, com contratações de nomes como Pedro Gonçalves, Nuno Santos ou Paulinho e vendas como as de Nuno Mendes, Pedro Porro ou Matheus Nunes. Acabou por sair nos primeiros meses de 2023, sem litígios mas desgastado pela própria função. Ficou o “bichinho”. Palmeiro já tinha antes sido consultor de projeto do Comité Olímpico Internacional e tinha estado ligado ao Comité Disciplinar da FIFA, tendo tirado um mestrado em gestão desportivo quando estava na Suíça, mas essa passagem pela vivência de um departamento de futebol profissional acabou por promover de vez uma mudança em termos de carreira.

Três propostas, Sarabia, os contratos enviados pelo PSG e powerbanks sempre à mão: os bastidores da transferência de Nuno Mendes

Em julho de 2023 entrou no Rio Ave, numa fase complicada para o clube de Vila do Conde por todos os constrangimentos a nível de contratações e no plano financeiro. Foi Bernardo Palmeiro, de 41 anos, que, trabalhando com a presidente Alexandrina Cruz, mediou a entrada de capital estrangeiro na SAD vila-condense, num acordo que levou ao investimento do grego Evangelos Marinakis, milionário que tem o inglês Nottingham Forest e os helénicos do Olympiacos. Após deixar o clube com sentimento de “missão cumprida”, o advogado que em 2017 fundou a 14 Sports Law esteve ainda ligado a algumas transferências internacionais como a de João Palhinha do Fulham para o Bayern. Quando foi convidado por Frederico Varandas para regressar, não teve dúvidas em aceitar e poder juntar-se de novo ao clube do coração.

Já Flávio Costa acaba por subir na hierarquia de forma natural, indo ao encontro de uma ideia que estava pensada em termos internos tendo em conta uma relevância crescente dos departamentos de scouting nos principais clubes europeus. Depois de começar como técnico estagiário dos Sub-10 do Benfica em 2008/09, passou pelo ABCFoot (uma escola de futebol em Santiago do Cacém) e regressou ao Seixal, onde ficou no departamento de scouting e assumiu a sua coordenação de 2012/13 até 2017/18. Passou depois pelo Estoril, na temporada de 2018/19, e rumou na temporada seguinte ao Famalicão. A meio da época de 2020/21, pelo trabalho que desenvolveu no Minho, teve convites de Sporting, Benfica e Sp. Braga mas acabou por optar por Alcochete, por influência também das conversas que manteve com Hugo Viana e com Ruben Amorim.

Gyökeres tem um segredo, Gyökeres foi o segredo: os bastidores do jogador que se tornou uma imagem de marca do Sporting

Nas últimas épocas no Sporting, esses conhecimentos tiveram impacto direto naquilo que foi a construção da atual base de trabalho de Rui Borges. O sueco Viktor Gyökeres é um exemplo paradigmático do relevo que o departamento foi ganhando, com o Sporting a fazer o maior investimento da história num jogador que se tornou uma marca dos leões e foi o melhor marcador mundial no ano civil de 2024. Morten Hjulmand foi outro caso, não só pelo médio dinamarquês como pelas outras opções que se perspetivavam para a posição. André, então no Fluminense, está no Wolverhampton. Reijnders, então no AZ, assinou pelo AC Milan. Ponto importante: quando Amorim era ainda treinador do campeão nacional, a pesquisa era feita no sentido não só de encontrar talento mas também para enquadrar-se com a ideia de jogo do treinador. Esse será o desafio do responsável de 39 anos, que passará a trabalhar diretamente não só com Rui Borges mas também com Bernardo Palmeiro e Frederico Varandas, naquela que será a redefinição do edifício do futebol leonino.