A forte valorização das empresas ligadas à Inteligência Artificial tem, aos olhos do Nobel da Economia Paul Krugman, muitas semelhanças com a “bolha” das empresas dotcom, que estourou em março de 2000. Mas se há parecenças também há diferenças que levam Krugman a pensar que talvez esta “febre” possa não acabar com um colapso bolsista mas, sim, com um “mega-resgate dos manos das techs“.
O economista, antigo professor do MIT e de Princeton, não tem o melhor currículo quando se trata de previsões sobre tecnologia – afinal, foi Krugman que, em 1998, escreveu que “lá para 2005 ou perto disso ficará claro aos olhos de todos que o impacto da Internet na economia foi mais ou menos o mesmo que teve o fax“.
Paul Krugman sempre relativizou o falhanço dessa previsão, dizendo que nunca se vangloriou de ser “um grande perito em tecnologia”. Porém, nos últimos anos Krugman voltou a fazer previsões sobre esse tema e a mais recente, publicada no Substack, versa sobre a “febre” bolsista dos últimos anos, em torno de empresas como a Nvidia e outras que têm exposição às tecnologias de Inteligência Artificial (AI).
Para Krugman, as cotações dessas ações, em comparação com a capacidade de gerar lucros, atingiram níveis exorbitantes, fazando-o lembrar a febre da Internet que se avolumou no final dos anos 90 e estourou em março de 2000.
Ainda assim, “embora a febre da IA tenha muitas semelhanças com a bolha das dotcom, o resultado final pode ser bastante diferente“, afirmou o economista que venceu o Prémio Nobel em 2008.
Uma das principais diferenças é que, na leitura de Krugman, a exuberância das ações das empresas dotcom refletiu, em parte, a expectativa dos investidores de que algumas pequenas startups se tornariam “quase monopólios altamente lucrativos” (como aconteceu com a Microsoft, pelo menos a dada altura).
No entanto, aponta Krugman, agora os principais protagonistas não são startups mas, sim, grandes empresas – as chamadas “Sete Magníficas”: Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta, Nvidia e Tesla. “Não sei se as pessoas se apercebem do quão anómalo isto é“, disse Krugman, explicando que “historicamente, as principais novas tecnologias disrompem a hierarquia existente” mas “desta vez, os investidores estão, na verdade, à espera que as novas tecnologias reforcem a hierarquia que já existe”.
A outra grande diferença é que, nos anos 90, as empresas tecnológicas Silicon Valley viviam numa realidade totalmente paralela em relação à política. Mas, agora, os líderes das Big Techs, as grandes empresas tecnológicas, como Jeff Bezos (Amazon) e Mark Zuckerberg (Meta), têm laços estreitos com o poder político.
Krugman também salienta que o valor das ações da Tesla — que subiram mais de 12 vezes desde o início de 2020, avaliando a empresa em 1,2 biliões de dólares (mais de 12 vezes a sua faturação anual) — “só faz sentido quando se vê que Elon Musk tem, por sinal, um papel de co-Presidente“, ao lado de Donald Trump.
Estas diferenças poderão fazer com que o frenesim bolsista em torno destas empresas possa ter um resultado diferente.
Destacando as propostas de Trump para criar uma reserva estratégica de criptomoedas e, por outro lado, os planos de apoiar um investimento de 500 mil milhões de dólares do setor privado em infraestruturas de IA, Krugman afirma que ambos os programas podem canalizar dinheiro (público) para a tecnologia.
Por isso, “esta bolha pode acabar, não com um estouro, mas com um grande resgate [público] dos ‘manos das techs’“, uma possível tradução da expressão tech bros – que é, por vezes, usada para descrever os empresários do setor tecnológico, normalmente jovens e que projetam uma imagem de informalidade.