Um grupo de investigadoras da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) está a desenvolver uma nova tecnologia para o tratamento de Alzheimer. A abordagem inovadora, baseada em nanopartículas, poderá significar “um avanço no tratamento de doenças neurológicas, onde as opções de tratamento são limitadas pela incapacidade de se conseguir uma entrega eficiente de medicamentos no cérebro”.
“A maior parte dos medicamentos falham os ensaios clínicos porque não conseguem chegar ao sítio onde têm de exercer o seu efeito terapêutico“, explica a investigadora Joana Loureiro ao Observador. A também professora universitária explica que está a ser desenvolvida uma solução para ultrapassar essa dificuldade: nanopartículas que facilitam o transporte dos fármacos até aos locais específicos, ultrapassando a barreira hematoencefálica e permitindo a libertação do medicamento no local necessário.
A barreira hematoencefálica, como esclarece a investigadora, é uma barreira pouco permeável que “regula o transporte de substâncias entre o sangue e o sistema nervoso central, bloqueando assim que substâncias indesejadas cheguem ao cérebro”. No entanto, também representa um problema quando o objetivo é garantir que um determinado tratamento com fármacos alcance o cérebro e não consegue atravessá-la.
A grande inovação nesta técnica é a personalização da superfície destas nanopartículas. Mas como funciona o processo em si? Joana Loureiro explica que “o fármaco é incorporado nas nanopartículas e, de seguida, a sua superfície é modificada com moléculas com afinidade para células específicas que se encontram no cérebro, para posteriormente serem administradas intravenosamente”. As nanopartículas, biodegradáveis, “são eliminadas” no organismo após libertarem o medicamento.
Em termos mais simples: imagine uma cápsula — muito, muito pequena — cujo único passageiro é o medicamento selecionado para tratar a doença. O revestimento desta cápsula é adaptado consoante o seu destino final, ou seja, para que tenha a capacidade de seguir na direção desejada quando inserida no organismo, altera-se a constituição da sua superfície, tornando-se quase num íman que é atraído pelo ponto específico onde tem de atuar. Assim, entra na corrente sanguínea e vai diretamente até ao cérebro, onde liberta o medicamento.
Depois dos ratinhos, testes vão passar para outros animais antes de chegarem aos humanos
Apesar de existir a possibilidade de aplicar este mecanismo a outras doenças do foro neurológico, possivelmente até em diferentes sistemas do corpo humano para além do nervoso, a investigadora frisa que o foco inicial e fundamental do projeto era o Alzheimer. “Uma das moléculas na superfície das nanopartículas também retarda um dos mecanismos da doença”, afirma. Cerca de 60 ou 70% dos quase 200 mil casos de demência em Portugal são causados pelo Alzheimer, segundo os dados partilhados pelo CNS – Campus Neurológico em 2024.
Atualmente, o estudo já concluiu a primeira etapa de testes in vivo, em ratinhos, com sucesso, e aproximam-se ainda ensaios adicionais em animais, antes da técnica começar a ser testada em humanos, confirma Joana Loureiro ao Observador. Em comunicado, a FEUP refere que a investigação já recebeu vários “prémios e distinções ao longo dos últimos anos”, juntamente com um investimento no valor de 120 mil euros da XTX Ventures, para “acelerar esta tecnologia e confirmar o seu potencial disruptivo”.
Contudo, a investigadora admite que “não há um investimento suficiente a nível financeiro para a investigação sobre doença Alzheimer”, quando comparada com outras patologias que afetam a população. Ainda assim, Joana Loureiro sublinha que, com os recursos ao seu dispor, a equipa formada por Maria do Carmo Pereira (também responsável desta investigação), Maria João Ramalho, Stéphanie Andrade, Débora Nunes e Meghna Dabur “tem feito esforços significativos para encontrar estratégias para tratar a doença de Alzheimer”.