Há nove anos Gisella Cardia comprou uma estátua da Virgem Maria que alegava chorar lágrimas de sangue e atraiu centenas de fiéis à cidade de Trevignano Romano, a cerca de 50 quilómetros de Roma. Entretanto, um teste de ADN recente feito a pedido do Ministério Público de Roma, descobriu que o sangue é compatível com o perfil genético da proprietária da imagem. Cardia assumia-se como  “vidente”, que recebia mensagens da santa e testemunhava “milagres”. Agora pode enfrentar um processo criminal por fraude.

A investigação foi aberta em 2023, depois de queixas de que o sangue seria, na verdade, de porco. Outras pessoas terão denunciado Cardia por burla, no âmbito da associação que a vidente criou para receber doações que dizia serem para ajudar crianças doentes. Os procuradores do caso pediram um teste de ADN ao sangue colhido da estátua e o resultado tornou-se público esta semana. O prazo para que o teste seja entregue às autoridades é 28 de fevereiro, quando o Ministério Público define se avança para a acusação contra Gisella Cardia ou se prossegue com a investigação.

A advogada da vidente, Solange Marchignoli, em declarações ao Corriere della Sera, diz que os resultados não significam, necessariamente, que os fenómenos são uma fraude. “De um ponto de vista científico o ADN merece mais investigações. Estamos à espera de saber se o perfil está misturado ou isolado. Se for um perfil isolado, significa que é somente de Cardia, que então terá colocado o sangue na santa. Neste caso, iríamos a julgamento. Porém, se como esperamos, for um perfil misturado, significa que o ADN de Gisella é apenas um dos encontrados, o que é expectável porque ela segurava e beijava a estátua”, disse a advogada.

Vaticano proibiu atos religiosos ligados à vidente

Em 2016 Gisella Cardia comprou uma estátua em Medjugorje, um local de peregrinação na Bósnia Herzegovina. Logo depois, a mulher começou a alegar que a santa chorava lágrimas de sangue, que recebia mensagens da Virgem Maria e havia testemunhado “milagres”, como por exemplo a multiplicação de comida durante jantares privados em casa. Rapidamente a cidade de Trevignano Romano, a cerca de 50 quilómetros de Roma, começou a receber centenas peregrinos que queriam ver de perto o milagre da santa que chorava sangue. Cardia criou uma fundação e passou a receber doações que alegava que seriam destinadas a ajudar crianças doentes.

Em 2023, a diocese de Civita Castellana, a noroeste de Roma, abriu um processo para investigar os fenómenos paranormais. Em 2024, o Vaticano descartou qualquer indício de sobrenaturalidade na atividade de Gisella Cardia e emitiu um decreto a proibir celebrações ou peregrinações aos locais dos alegados acontecimentos, em Trevignano Romano. A câmara de Trevignano proibiu as peregrinações em setembro de 2024 e o Tribunal Regional de Lazio confirmou a decisão em outubro. Atualmente Cardia só responde através da advogada. “Está bem. Não sei onde está a rezar atualmente, mas tenho a certeza que é movida por uma fé muito grande e não tem nada a ganhar com isto”, diz Solange Marchignoli.