Um grupo de pesos pesados japoneses, que inclui um ex-primeiro ministro, juntou-se para encontrar uma saída para os problemas da Nissan, que caminha novamente para a falência em ritmo acelerado, necessitando de um investidor para a salvar dos seus gestores com capacidade duvidosa. O curioso é a aposta deste grupo com peso na sociedade nipónica ser a Tesla, que pretende cativar como investidor estratégico, com eventual interesse nas fábricas da marca japonesa nos EUA, de acordo com o Financial Times.

Nissan quer laços com Renault, mas pouco apertados

Relembrando um pouco de história, primeiro foi a Renault a pagar em 1999 uma pesada factura (3,5 mil milhões de dólares, numa fase inicial) para proteger da falência a Nissan, de quem controlava 43,4%. Os franceses lideravam a Aliança com japoneses, que ficou comprometida quando estes, entretanto já recuperados do “aperto” financeiro em que se meteram, começaram a sacudir o controlo francês, forjando acusações contra Carlos Ghosn, o então chairman e CEO da Renault. Depois de os franceses se desinteressarem da Aliança (e se concentrarem no Grupo Renault, juntamente com a Dacia e a Alpine) chegou a vez de a Honda ser candidata a salvar a Nissan de si mesma, empurrada pelo Governo japonês, uma vez que este construtor, mais uma vez a gerir-se a si mesmo desde 2018, voltou a ficar aflito financeiramente após apenas seis anos de auto-gestão.

Fusão Honda-Nissan morreu? Ambas queriam controlar

A Honda não estava muito interessada em herdar a Nissan e muito menos os seus problemas. Mas, forçada pelo Governo japonês, esta marca nipónica — tradicionalmente bem gerida — avançou com uma solução para a fusão com a sua congénere concorrente e conterrânea, que ultimamente tem revelado uma certa incapacidade de se administrar. E se as negociações demonstraram alguma inércia no arranque, rapidamente se tornou óbvio que os dois membros deste “casamento” tinham objetivos distintos, como Ghosn já tinha antecipado.

Na mencionada fusão entre os dois construtores japoneses, a Nissan pretendia recorrer aos bolsos fundos da Honda para evitar a falência, mas queria, ainda assim, usufruir de uma certa autonomia e liberdade de acção dentro do grupo. A Honda, por outro lado, reconhecia as vantagens das sinergias de que passaria a beneficiar ao criar o 3.º maior grupo automóvel do mundo, logo a seguir à Toyota e à Volkswagen AG, mas à frente da Stellantis e da Hyundai-Kia. No entanto, depois de tudo o que aconteceu entre a Nissan e a Renault, a Honda fazia questão de estar sozinha aos comandos do novo grupo e não ter de negociar com o seu parceiro antes de tomar qualquer decisão estratégica. Em resumo, ambos os construtores queriam mandar no grupo, algo em que a Honda não estava disposta a ceder, o que explica que o “divórcio” tenha surgido ainda antes do “casamento”.

Será que a Tesla vai (mesmo) investir na Nissan?

Poucos dias depois de ter ruído a possibilidade de acordo com a Honda, a Nissan estava de novo nas notícias, agora com a finalidade de tentar atrair a Tesla como “investidor estratégico”. Esta ideia, que parece algo descabida — a Tesla não só utiliza princípios de produção característicos e distintos dos japoneses, como não tem necessidade de reforçar a capacidade de produção nos EUA —, permitiu às acções na Nissan darem um salto rumo ao positivo de 10,1%, após o anúncio do possível interesse do construtor norte-americano, subindo de 424 para 467 ienes, apenas para cair 11% no instante seguinte a Elon Musk, o CEO da Tesla, ter negado qualquer desejo de investir na Nissan ou interesse nas suas fábricas.

O alegado interesse da Tesla na marca nipónica foi lançado por um grupo de membros reputados da sociedade japonesa, que incluía o ex-primeiro-ministro Yoshihide Suga e Hiro Mizuno, antigo director executivo do Fundo de Pensões japonês e ex-membro da administração da Tesla, tendo sido nomeado no final de 2020 por António Guterres, secretário-geral da ONU, como responsável pelos Investimentos Sustentáveis da organização. Segundo a Forbes, este grupo de japoneses agiu convencido que a Tesla poderia estar interessada nas fábricas da Nissan nos EUA, o que Musk negou e que, na realidade, não faz sentido.

Todas estas movimentações fizeram surgir em cena outro player, nada menos que a Foxconn, empresa de Taiwan que fabrica na China e que é conhecida no ocidente sobretudo por produzir o iPhone para a Apple. A Foxconn revelou à imprensa estar aberta a adquirir a percentagem da Nissan ainda na posse da Renault e, de acordo com o Financial Times, teria o objectivo de estabelecer uma cooperação com a Nissan e não adquirir a marca nipónica. Isto para tranquilizar o Governo japonês, que teme uma aquisição do construtor em má situação financeira por parte de uma empresa de um país estrangeiro que os japoneses considerem hostil, o que neste caso é sinónimo de China.