Pelo menos 349 pessoas morreram em ataques de grupos extremistas islâmicos no norte de Moçambique em 2024, um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo estudo divulgado esta quinta-feira pelo Centro de Estudos Estratégicos de África (ACSS).
De acordo com aquela instituição académica do Departamento de Defesa do Governo norte-americano, que estuda assuntos relacionados com a segurança em África, esta “recuperação dos níveis de violência” em Moçambique “reflete a estratégia” do grupo Ahlu Sunna Waljama’a (ASWJ) — afiliado do Estado Islâmico e que opera na província de Cabo Delgado — de “alargar o conflito, deslocando-se para o interior e para áreas mais rurais“.
“Isto está a causar uma extensão excessiva das forças moçambicanas e ruandesas, que operam sem forças da SADC [comunidade de países da África austral] desde meados de 2024. As queixas subjacentes na região de Cabo Delgado continuam por resolver, alimentando o recrutamento de militantes islamistas, especialmente entre os jovens”, alerta-se no estudo.
O ACSS acrescenta que se verificou “um crescimento acentuado da violência contra civis” na região norte de Moçambique no ano passado.
“Os 122 incidentes contra civis representaram 52% do total de 236 eventos violentos em 2024″, refere a instituição no estudo, que aborda a ameaça terrorista que afeta sobretudo a província de Cabo Delgado, norte de Moçambique.
Reconhece igualmente que a atividade destes grupos islamistas que operam em Moçambique “sempre se caracterizou pela sua elevada taxa de violência contra civis” e que os 31% do total de mortes de 2024 resultantes da violência contra civis “são superiores aos de qualquer outro grupo de militantes islamistas em África”.
O ACSS aponta ainda que cerca de 578 mil pessoas que foram deslocadas pela violência destes grupos armados “ainda não regressaram às suas casas”.
Aldeia moçambicana em Cabo Delgado saqueada por supostos terroristas
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada com ataques reclamados por movimentos associados ao grupo extremista Estado Islâmico.
O Governo moçambicano confirmou em 25 de fevereiro a ocorrência de alguns “ataques esporádicos” de grupos rebeldes na província de Cabo Delgado, assegurando que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) continuam no terreno para garantir segurança às populações.
Governo moçambicano confirma “ataques esporádicos” em Cabo Delgado
“Estão a ocorrer ataques esporádicos, mas a indicação que temos é que as Forças de Defesa e Segurança [FDS] estão a fazer devidamente o seu trabalho e, com certeza, o que acontece é que [os supostos terroristas] dividem-se em grupos, criam outros mecanismos de assustar e aterrorizar as populações”, disse o porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, respondendo a uma pergunta de jornalistas sobre a situação atual na província de Cabo Delgado, norte do país.
O estudo da ACSS estima ainda que se registaram em 2024 pelo menos 18.900 mortes “ligadas à violência militante islamista em África”.
“Um declínio acentuado nas mortes envolvendo o Al Shabaab na Somália colocou o total continental abaixo dos níveis recorde de 2023 (23.000 mortes). No entanto, o número total médio anual de mortes nos últimos três anos ainda foi mais de um terço superior ao período de 2019-2021”, assinala a instituição.
O Sahel, aponta igualmente, “continuou a ser o teatro de operações mais letal do continente pelo quarto ano consecutivo”, com 55% do total de vítimas mortais, numa estimativa de “10.400 mortes ligadas à violência militante islamista”, sendo a região também “responsável pela maior prevalência de violência contra civis”.
“A região é responsável por 67% (1.840) destas mortes de civis no continente. A região da Bacia do Lago Chade ficou em segundo lugar, compreendendo 24% (670) dessas mortes”, lê-se ainda.
Apenas três zonas de conflito concentraram 98% das mortes relatadas ligadas à violência por militantes islâmicos no continente africano, casos do Sahel (55%), Somália (24%) e Bacia do Lago Chade (19%).