Um clube muito grande, um dos maiores do mundo a vários níveis, uma equipa que se foi tornando pequena a nível de resultados. O Manchester United está há muito afundado numa crise que criou um enorme fosso em relação aos principais candidatos à conquista da Premier League mas nem por isso deixa de pensar num futuro a médio e longo prazo. Mais: tem essa visão e partilha-a em termos públicos, assumindo todo um rol de erros que foram hipotecando o sucesso desportivo no presente mas sem condicionar a perspetiva para a próxima década. Exemplo paradigmático disso mesmo? A construção de um novo estádio para um total de 100.000 espectadores, designado como “New Trafford” na sucessão do velhinho Old Trafford.

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“Se considerarmos que este clube é o maior do mundo, então teremos de mostrar um estádio digno do maior clube do mundo e também um estádio digno da maior liga do mundo. A única base sobre a qual poderemos construir um novo estádio é se fizer parte de um plano governamental para fazer a reurbanização da parte sul de Manchester porque também não podemos permitir que o luxo de fazer essa reurbanização se torne uma obra demasiado grande para o clube. Podemos construir um novo estádio, não precisamos de qualquer financiamento governamental mas essa tem de ser a base de revitalização”, assumiu Jim Ratcliffe, dono da Ineos, um dos principais proprietários do Manchester United e também um dos homem mais ricos do país.

Em duas entrevistas ao The Times e à BBC, o multimilionário assumiu sem complexos tudo o que de bom e de mau encontrou nos red devils quando adquiriu 25% do clube. Assim, e da mesma forma como abordou a possibilidade de edificar um novo recinto “incrível e icónico” que poderia estar finalizado em 2031, falou dos graves problemas económicos de toda a máquina do United dando exemplos de gastos excessivos.

“O Manchester United teria quebrado no Natal… Em termos mais simples, o United estava a gastar mais dinheiro do que aquele que ganhava nos últimos sete anos. Se fazes isto durante um período prolongado, no final irias parar a um lugar muito complicado. O United estaria nessa posição no final da temporada. No fim de 2025, o United teria ficado sem dinheiro. É a primeira vez que assumimos isto em termos públicos mas é um facto”, revelou Ratcliffe na radiografia de 464 milhões de euros de prejuízo em sete anos e também dos 450 despedimentos que foram feitos na perspetiva de reduzir custos em cerca de 175 milhões. “Chegámos mesmo a descobrir que tínhamos um assessor de linguagem gestual por 206 mil euros/ano…”, acrescentou.

Em paralelo, e sem tabus, Ratcliffe admitiu também que o plantel não tem a qualidade desejada. “Alguns jogadores não são suficientemente bons e alguns provavelmente são pagos a mais. Levará algum tempo até moldarmos uma equipa pela qual sejamos totalmente responsáveis. Este verão, por exemplo, iremos comprar o Antony, o [Jadon] Sancho, o Casemiro, o Lisandro Martínez, o Höjlund e o Onana. Ou seja, mesmo não comprando ninguém, já estamos a ‘comprar’ estes jogadores. São coisas que vêm do passado, goste-se ou não. Herdámos isso e teremos de encontrar soluções. No caso do Sancho, está no Chelsea, pagamos metade do salário e ainda temos 17 milhões de libras [20,1 milhões de euros] por liquidar. Também por isso não faz sentido num período em que se está a perder muito dinheiro contratar muita gente”, explicou.

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“Vamos ter este período de transformação em que vamos do passado para o futuro. Há grandes jogadores no plantel, o capitão é um futebolista fabuloso. Sem dúvida que precisamos do Bruno [Fernandes], é um jogador fantástico. Rashford? Mudou-se para fora de Manchester e talvez seja algo bom para ele. Estou muito contente que esteja bem, é bom vê-lo porque tem um talento tremendo mas por alguma razão não estava a funcionar em Manchester nas últimas duas temporadas. Não vamos vender jogadores pela nossa situação económica, estamos a fazer reajustes e seremos uma organização ágil e eficiente. É assim que vamos abordar a questão dos custos, as decisões centram-se apenas em como melhorar o rendimento”, apontou.

De forma inevitável, Ruben Amorim foi tema de conversa e com vários elogios à mistura. “Se olhar para o plantel que o Ruben tem disponível neste momento, acho que ele está a fazer um trabalho muito bom, para ser honesto. Acho que o Ruben é um jovem treinador excecional, acho mesmo. Ele é um treinador excelente e que ficará connosco por muito tempo. Estão a ver um vislumbre do que o Ruben pode produzir, acho que já viram um bocado disso contra o Arsenal. Quantos jogadores reconheceram daqueles que estavam no banco contra o Arsenal? Quantos já vestiram uma camisola do Manchester United? Não há mais plantel. Estamos com os últimos dez ou 11 jogadores no plantel, jogadores de primeira equipa. O Ruben está a fazer um ótimo trabalho”, comentou o multimilionário sobre o português que rendeu o neerlandês Erik ten Hag.

“Ele é, como a maioria dos grandes treinadores, alguém emotivo. O Ruben não é perfeito mas eu sou um grande fã dele. Ele quer um balneário cheio de pessoas totalmente comprometidas em vencer jogos. Ele não tolerará pessoas que não tenham 100% dessa atitude. Os jogadores têm de estar em sintonia. Homem certo para o cargo? Honestamente, acredito que sim. Eu gosto mesmo muito do Ruben. É um tipo muito atento aos detalhes. Sempre que vou ao campo de treinos, falo com o Ruben. Sento-me e tomo uma chávena de café com ele, digo-lhe onde está a correr mal, ele diz-me para ir à m****. Gosto dele. Todas as pessoas estavam à espera de milagres de um dia para o outro mas não é assim na vida real, precisamos dar um pouco de tempo”, reforçou Jim Ratcliffe, recordando também as muitas ausências por lesão no plantel principal.