Não é muito normal encontrar entrevistas dos proprietários dos grandes clubes europeus. Aliás, às vezes até parece que não “existem” – pagam o que têm de pagar pela alienação de determinada percentagem, veem o seu nome ligado à sociedade, são feitos vários perfis sempre à procura daqueles prazeres menos comuns para quem o dinheiro não é um problema, raramente ou nunca aparecem a não ser quando começam a ser alvo de críticas dos mais puritanos do movimento associativo que querem recuperar aquilo que tomam como “seu”. No caso do Manchester United, os Glazer são um exemplo paradigmático. No entanto, e a partir do momento em que Jim Ratcliffe comprou 25% no final de 2023 (percentagem que entretanto aumentou para 28,94% em dezembro), as coisas foram mudando. Sobretudo, tudo o que foi supracitado perdeu a “validade”.

David foi Golias e impediu Amorim de ser feliz: Man. United e Arsenal empatam com golaço de Bruno Fernandes e grande exibição de Raya

Além da presença constante em Old Trafford e em Carrington, onde fica a academia dos red devils, Ratcliffe assume as coisas como um verdadeiro operacional. Está em contacto com todos os departamentos, fala de uma forma regular com o treinador da equipa principal, projeta o futuro com o CEO contratado ao rival City (Omar Berrada). Mais: partilhou tudo isso, bem mais do que é normal, em entrevistas ao The Times e à BBC. Não se “cortou” a nada, incluindo as justificações mais rocambolescas para essa necessidade de cortes como os cerca de 200 mil euros por ano que eram pagos a um assessor de linguagem gestual ou os negócios ruinosos feitos no futebol como o de Jadon Sancho – o internacional inglês joga no Chelsea, o United ainda paga metade do salário (que não é pequeno, entenda-se) e no verão o B. Dortmund recebe mais 17 milhões.

“Tomo um café com ele, digo-lhe o que corre mal, ele diz-me para ir à m****. Gosto dele”: os elogios de Jim Ratcliffe a Ruben Amorim

Pelo meio, o dono do grupo Ineos colocou o dedo na ferida do futebol. Defendeu o trabalho feito por Ruben Amorim, reforçou que olha para o português como alguém com o perfil certo para a redenção mas não deixou de admitir que há jogadores que não têm qualidade para jogar no United e outros que ganham em demasia para o rendimento que têm. O impacto do anúncio do novo estádio com capacidade para 100.000 pessoas foi um ponto que “engoliu” tudo o resto mas a parte do futebol ficou clara, incluindo não só a sua ideia em relação ao atual plantel mas também eventuais problemas para ter recursos para “renovar” por completo o grupo de trabalho tendo em conta o pagamento de negócios antigos que ainda terão peso a breve prazo.

“Se formos honestos, todos, eu e os jogadores, estamos abaixo das expectativas esta época. E incluo-me nisso. Vocês falam-me do Casemiro mas ele é um jogador que já ganhou tudo. Todos podem fazer muito melhor e o foco está em mudar aquilo que ele [Ratcliffe] pensa. Se és um jogador de topo e jogas neste clube… Mesmo eu, as pessoas dizem que não sou suficientemente bom para o clube. Mas nos treinos, sinto que os jogadores querem muito lutar por este clube, sobretudo amanhã [quinta-feira]”, comentou Ruben Amorim na primeira reação à entrevista de Jim Ratcliffe, virando a questão e colocando o foco na segunda mão dos oitavos da Liga Europa frente à Real Sociedad depois do empate a um conseguido no País Basco.

Bruno deu-lhes vida e o capitão aproveitou: Manchester United empata frente à Real Sociedad com penálti cometido pelo português

“Temos um plano claro para a próxima época. Claro que ainda temos a Liga Europa e podemos chegar à Champions por essa via. Nunca se sabe, isso podia mudar os planos. Mas sabemos o que temos de fazer e o tipo de jogadores que precisamos de trazer. Este jogo será importante também nesse contexto, porque continuar na Liga Europa irá dar-nos mais energia para terminar esta época de forma diferente. Não irá mudar muito o plano para a próxima época mas pode dar-nos essa energia”, salientou o técnico português. Mais uma vez, entre os aspetos negativos como a má posição na Premier League, as eliminações na Taça de Inglaterra e na Taça da Liga e a falta de qualidade coletiva, Amorim agarrava-se ao que tinha de positivo.

Por mais aspas que se possam ter de colocar quando se tem uma “ideia” destas, tendo em conta também aquelas memórias que a melhor versão 3x4x3 de Sporting deixou em termos de qualidade futebolística, há sinais que mostram progressão naquilo que o Manchester United consegue fazer agora. Ainda há demasiadas mexidas por questões físicas (problemas ou gestão) para consolidar uma equipa, começam a surgir peças que ajudam a consolidar uma ideia. Casemiro é um bom exemplo disso mesmo: quase a jogar com o orgulho ferido, o internacional brasileiro deu o mote para impedir que os red devils voltassem à espiral recessiva do arranque do técnico português e foi uma das peças chave para os visitados não abanarem com a desvantagem inicial com um penálti de Oyarzabal após falta de De Ligt (10′). Ao invés, a reação não poderia ser melhor.

Pouco depois, num lance de insistência, Bruno Fernandes cruzou rasteiro para Höjlund encostar na pequena área mas o dinamarquês foi carregado em falta para nova grande penalidade transformada com a habitual mestria pelo internacional português (16′). A Real Sociedad nunca deixou de procurar as saídas rápidas com transições que criaram situações de remate para defesas de Onana (embora longe da capacidade apresentada na última época pelo conjunto de Imanol Alguacil e que não se pode justificar apenas pela saída de Mikel Merino) mas o Manchester United mostrou também mais e melhores argumentos no último terço, com uma ligação mais fluida entre Zirkzee e Höjlund e outra capacidade de envolvimento de Dorgu na ala. Faltava só o golo da reviravolta, que voltou a surgir num penálti discutível marcado por Bruno Fernandes (50′).

Os bascos estavam a quebrar e a expulsão de Aramburu apenas acelerou o regresso aos triunfos dos ingleses, que a partir daí foram somando oportunidades atrás de oportunidades para ampliarem o triunfo sobretudo com Zirkzee a ser demasiado perdulário apesar da boa exibição. Ainda assim, haveria tempo para o 3-1 que selou de vez a eliminatória e deu uma expressão mais justa à qualidade apresentada, com Garnacho a conduzir um contra-ataque e a assistir Bruno Fernandes para o hat-trick na área (87′), e para o 4-1 final do outro português, com Höjlund a trabalhar bem na área para o cruzamento rasteiro que encontrou bem o lateral/ala na área para um remate de primeira sem hipóteses para Álex Remiro (90+1′). Até o (quase) sempre comedido Ruben Amorim festejava mais os golos numa noite que devolveu esperança a Old Trafford.