Continua o impasse na estrutura do PSD em Lisboa. Luís Newton, acusado de dez crimes no âmbito da “Operação Tutti-Frutti”, foi formalmente desafiado a deixar a liderança da bancada municipal e a convocar eleições para esse efeito, mas parece não haver forma de o partido chegar a entendimento. As eleições já foram adiadas duas vezes e a oposição interna a Newton prepara agora uma via alternativa de o afastar do poder.
Tal como contava aqui o Observador, a 24 de fevereiro, Carlos Reis, deputado do PSD e homem forte do aparelho social-democrata em Lisboa, enviou um email a Luís Newton a exigir a convocação de eleições para o cargo de líder da bancada municipal social-democrata. Nesse email, Carlos Reis invocava o Regulamento Interno da bancada do PSD para pedir novas eleições, já que o próprio Luís Newton se encontra como líder interino há 15 meses.
Segundo apurou então o Observador, a decisão de Carlos Reis de desafiar abertamente Newton foi tomada em articulação com a direção nacional do PSD e com a equipa de Carlos Moedas, o que é mais uma prova de que o partido está apostado em neutralizar a influência do ainda líder da concelhia e afastar de vez a “maçã podre”.
Na resposta, a 27 de fevereiro, Luís Newton, que está impedido de se recandidatar à liderança da bancada por limitação de mandato, criticou Carlos Reis por expor a vida interna do PSD na comunicação social, revelou que durante muitos anos o agora adversário interno teve “frustração” por “nunca ter sido deputado da nação” e desafiou o Reis a encontrar condições para forçar as eleições internas para a bancada.
▲ Carlos Reis, deputado do PSD e homem forte do aparelho social-democrata em Lisboa, desafiou Newton
Ora, praticamente um mês depois, as duas partes continuam num impasse. As eleições deveriam ter acontecido a 11 de março e foram adiadas para esta terça-feira, 18 de março. Mas acabaram por ser igualmente canceladas. Isto porque, à luz dos estatutos previamente aprovados já na direção de Newton, são precisos mais de nove deputados municipais (em 17 possíveis) para compor a direção de bancada — mais de metade dos eleitos, portanto.
Os opositores de Newton acusam o ainda presidente da Junta de Freguesia da Estrela (atinge o limite de mandatos este ano) de estar deliberadamente a bloquear o processo para se manter no poder até ao fim do mandato — o grupo que pede uma renovação só conta com o apoio de oito elementos. Terão sido feitos esforços para que se chegasse a uma lista de consenso, mas as negociações acabaram por não chegar a bom porto.
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Agora, Carlos Reis e os seus aliados vão convocar um plenário para propor, em primeiro lugar, a alteração dos estatutos internos da bancada (bastam seis assinaturas) para que seja possível alterar a regra dos 60%. Só depois de ser aprovado esse novo regulamento — se vier a ser aprovado, naturalmente — será possível então convocar um novo plenário para convocar eleições internas para a sucessão de Newton, num processo que se pode arrastar durante quase mais um mês.
O cerco a Luís Newton, que suspendeu o mandato como deputado à Assembleia da República mas mantém-se em funções na Junta de Freguesia da Estrela e como líder da concelhia do PSD/Lisboa, tem vindo a aumentar. Recentemente, Pedro Corda, que rompeu publicamente com Newton, derrotou Camila Botão — tida como próxima do dirigente social-democrata e funcionária da Junta de Freguesia da Estrela — nas eleições da concelhia da JSD/Lisboa,
No dia 29 de março, estão ainda previstas eleições para a distrital da JSD de Lisboa. Diogo Bernardo Guerra, presidente da estrutura da jota de Odivelas e igualmente funcionário da Junta de Freguesia da Estrela, vai desafiar Eric Habibo, candidato à reeleição e muito próximo de Carlos Moedas e de Filipa Roseta, vereadora com o pelouro da Habitação.
Luís Newton foi acusado de dez crimes — cinco de prevaricação e outros tantos de corrupção ativa — alegadamente cometido durante o período em que foi presidente da Junta de Freguesia da Estrela. Este processo atingiu em cheio a estrutura do PSD na cidade e envolve também figuras ligadas ao universo socialista na capital.
A convicção que existe entre algumas figuras influentes do universo social-democrata em Lisboa é de que quanto mais cedo se libertarem de Luís Newton e demais figuras associadas à operação, consideradas, por estes dias, ativos tóxicos do partido, mais hipóteses terão de evitar que Carlos Moedas seja contaminado pelas consequências da Tutti-Frutti e mais rapidamente garantirão influência nas escolhas do partido para as próximas eleições autárquicas. Neste momento, e enquanto a casa não estive a arrumada, o PSD continuará a ter dificuldades em preparar a próxima campanha autárquica na capital.
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