Mais um ano, mais um recorde. Portugal fechou 2024 com 347 pedidos de patentes junto da Organização Europeia de Patentes (OEP), um aumento de 4,8% face ao ano anterior, em que já tinha sido alcançado um novo máximo (tal como em 2022). O Patent Index 2024, relatório partilhado esta terça-feira, destaca que os pedidos apresentados por entidades nacionais crescem 38,2% desde 2020, “refletindo um ambiente crescente de inovação no país”.

A evolução portuguesa contraria a tendência global, que regista a primeira queda desde 2020 (ano em que os pedidos recuaram 0,7%). No total, a OEP recebeu 199.264 pedidos de patentes em 2024, menos 0,1% do que no ano anterior. Apesar da ligeira descida, Inês Vieira Lopes, coordenadora regional na Direção de Relações Internacionais da Organização Europeia de Patentes, mostra-se “muito satisfeita” com os resultados. “Apesar de alguma instabilidade política e económica, num mundo de incertezas também geopolíticas, estes números confirmam que a inovação está sólida e mostra resiliência”, afirma, em declarações ao Observador.

Portugal volta a bater recorde de pedidos de patentes. Unicórnio Sword Health entra diretamente para o pódio de requerentes

Na lista de principais requerentes portugueses, a Nos Inovação assegura o primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo (com 22 pedidos). Seguem-se a Altice Labs, que em 2023 não constava do top 10 e agora regressa diretamente para o pódio com 11 pedidos, e a Universidade do Porto, que cai um lugar face ao ano anterior, com 10 pedidos. No Patent Index referente a 2023, a Sword Health, unicórnio com ADN português, tinha entrado diretamente para a terceira posição do ranking. Desta vez, a startup não consta da lista.

Questionada pelo Observador sobre esta ausência, Inês Vieira Lopes diz que pode estar relacionada com o “ciclo da própria empresa”: “Provavelmente ainda estão a colher os frutos, digamos, ou a estabilizar esse pico que tiveram naquele ano. Enfim, não há assim uma razão que possa justificar isto”, diz a responsável, que nota que “as universidades em Portugal representam mais de 50% do número de pedidos de patentes que são apresentados na OEP”.

Em termos regionais, o Norte mantém-se na liderança e é responsável por mais de metade dos pedidos (51,6%, mais de 13,3% do que em 2023). Segue-se a região Centro, que assegura o segundo lugar com um aumento de quase 18% dos pedidos face ao ano anterior. A fechar o pódio continua Lisboa, que regista uma diminuição de 4,2% em comparação a 2023. Questionada pelo Observador sobre o decréscimo dos pedidos na capital, apesar do impulso que o autarca Carlos Moedas tenta dar à inovação, nomeadamente através da Fábrica dos Unicórnios, a coordenadora regional da OEP começa por lembrar que “o processo de patenteamento é longo”.

“Se agora estamos, de facto, a assistir a um boom das startups em Lisboa, da atratividade das condições que Lisboa oferece para acolher esses agentes de inovação, temos que esperar um bocadinho mais até ver os resultados”, afirma Inês Vieira Lopes, acrescentando que não é possível precisar quanto tempo será necessário porque isso “depende também da própria estratégia” das empresas.

O “boom” da inteligência artificial faz-se sentir

Em Portugal, a tecnologia informática continuou a ser a área com mais pedidos de patentes. A nível global, esse segmento da indústria chegou à liderança “pela primeira vez”, segundo Inês Vieira Lopes, seguido da energia e da comunicação digital. Apesar de partilhar o mesmo número um, Portugal contraria a tendência global no resto do ranking e continua a apostar em tecnologia médica e nos produtos farmacêuticos.

“As áreas em que os pedidos de patentes são apresentados permitem-nos ver quais são as tecnologias que vão estar em voga no futuro, quais são as tecnologias dominantes. E este ano, pela primeira vez, temos a tecnologia informática [no topo] e isso tem muito a ver com o boom que estamos a assistir da inteligência artificial“, explica a responsável da OEP, que avança que 34% dos pedidos na área de IA “vieram dos Estados Unidos”. A Europa “não tem empresas no top cinco” das que mais pediram patentes relacionadas com essa tecnologia. A primeira firma europeia a surgir no ranking é a alemã Siemens, em sexto lugar.

A Huawei é a segunda maior requerente em inteligência artificial, atrás da Alphabet, dona da Google. Também no ranking global de entidades que solicitaram patentes, a empresa chinesa ocupa o segundo lugar, perdendo o ‘ouro’ que assegurou em 2021, 2022 e 2023 para a Samsung. O facto de a Huawei ter feito menos pedidos de patentes em 2024 é, de acordo com Inês Vieira Lopes, “o que explica que a China não tenha tido o crescimento exponencial” que registou noutros anos. “Continua a crescer, obviamente, mas já não naquela base dos dois dígitos”.

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A China teve um aumento de 0,5% nos pedidos em 2024, ano em que o maior crescimento foi registado pela Coreia do Sul (4,2%). Ainda assim, no que aos países diz respeito, a origem dos pedidos continuou a ser liderada pelos Estados Unidos, seguidos de Alemanha e Japão.

Pelo segundo ano, o Patent Index analisou também a contribuição das mulheres para a inovação. O relatório chegou à conclusão que 48% dos pedidos provenientes de Portugal mencionaram, pelo menos, uma mulher como inventora. “Este valor é quase o dobro da média dos 39 países membros da OEP (25%) e coloca Portugal em segundo lugar, sendo apenas ultrapassado pela Macedónia do Norte”, revela a Organização Europeia de Patentes em comunicado.

Inês Vieira Lopes explica ao Observador que “a razão para serem países como Portugal e a Macedónia do Norte [com destaque no ranking] e não a Alemanha, por exemplo, tem a ver com a especialização tecnológica e com o peso que as universidades têm nas atividades de patenteamento”. Quanto ao segundo lugar de Portugal, a responsável nota que “ainda existe um longo caminho para alcançarmos a paridade”, mas considera que a “tendência é muito positiva”.

Portugal com novo recorde de pedidos de patentes em 2022. Lisboa regista o maior crescimento