“Tous les garçons et les filles de mon âge”, cantava Françoise Hardy, em 1961, em Tous Les Garçons Et Les Filles. E onde andam as versões portuguesas contemporâneas? Nos domingos à hora de almoço, podemos encontrar muitos deles na Doca de Santo, ali na zona das Docas, em Lisboa, mesmo à saída do viaduto de Alcântara, do lado do rio. Numa destas tardes invernais, fomos experimentar o almoço, de que vínhamos ouvindo falar nos últimos tempos. Foi uma boa ideia.

A Doca de Santo abriu em 1995, quando muitos dos clientes que ali comiam naquele domingo, nem sequer eram nascidos. Na altura, disse-me mais tarde a mãe de uma amiga, foi um sítio para os bon chic bon genre da Lisbonne fin de siècle XX, porque houve uma época em que as Docas pertenciam apenas aos lisboetas bon chic bon genre (garantem-me), avant la Expo’98 e as redes sociais.

A Doca já teve fases boas e fases más (diz a mesma mãe, sem explicar) e agora está numa fase boa. Por mim, não recordo, creio que lá fui une fois há muito anos e bebi um Irish Coffee.

À entrada, uma primeira surpresa, porque fica a confusão de que há dois sítios num só. E há mesmo, ainda que não esteja sinalizado comme il faut. Uma mesinha com o cada vez mais habitual please wait to be seated explica e guia-nos para um restaurante ou para um outro, (que percebemos ser um mexicano chamado Lat.a (e que não experimentamos ainda) consoante temos reserva ou não. Ou se se arranja uma mesa para os desprevenidos.

Se forem como eu, terão notado que se vai almoçar (e jantar) cada mais cedo na cidade. Chegámos às 13h15 e o restaurante já se encontrava absolutamente lotado, conseguimos mesa par hasard, porque um casal estava despachado e fora à sua vida. Felizmente. Ficámos logo com a certeza de que o dia estava ganho: conseguir mesa num sítio impossível tem estes efeitos.

Sem surpresa, o menu na Doca de Santo assemelha-se a um de Brunch, ainda que tenha nomes sugestivos, como Ovos à Professor (com chouriço e batata palha), por €6,80. Gosto sempre de locais com confiança suficiente para terem incluído o nome do próprio sitio nos pratos, do tipo Gambas à Doca de Santo (€10,30), Chocolate à Doca do Santo (€ 6) ou ainda o Prego na Frigideira 1995,(€13,90), a partir do ano de fundação da casa. Além destes três pratos, há imensa escolha de carne e peixe, tradicionais e com um toque de modernidade, incluindo menu kids, investiguem na internet porque está tudo na internet.

Verificámos depois de entrar que o espaço permanecia insuficientemente iluminado ou então a luz cinza do inverno impediu que o nosso olhar apreendesse tudo. Mas deu para notar que era bem decorado, com vários ambientes, no verão logo veremos com maior detalhe.

Cada vez mais em Lisbonne é a partir dos preços na carta que percebemos se a maioria dos clients fidèles são locais ou des touristes (ou até des expats). Aqui os valores ainda são bastante módicos, sem exageros, pelo que entendo melhor aquilo que vi nas mesas à minha volta, homens e mulheres em primeiro casamento e a perceber a pouco e pouco porque há tanta gente que não aguenta e se separa.

Olhando em frente e para os lados, muitos já iam pelo menos no segundo copo de vinho branco (Assobio ou Pouca Roupa, pour moi, non merci) e tinham um ar entre o triste e o esgotado. Brinquedos em cima das mesas confirmavam que era gente com filhos pequenos a fingir que é maravilhoso passar os domingos em família.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Talvez aquelas mulheres jovens e bonitas sejam fãs de Madalena Abecasis, talvez a detestem, talvez sejam fãs da Bumba na Fofinha, talvez sejam brand manager numa daquelas marcas que pediu um orçamento ao agente e não teve outro remédio a não ser contratar uma influencer de terceira. E talvez se irritem com a Carolina Patrocínio, mas de certeza que gostavam de ter aquele corpo depois de terem tido quatro filhos. E as babysitters, claro.

Desinteressados, os maridos com barba e muitos a ficarem carecas ignoravam as mulheres e falavam em implantes na Turquia. Estavam calçados com Scalpers e All Star, porque domingo é dia de se usar chasseurs sportifs.

Talvez elas e eles andam a jogar Padel duas vezes por semana. De certeza, todos tiveram luas-de-mel extenuantes de três ou quatro semanas, incluindo uns dias em Nova Iorque, uma semana num local remoto como as Maldivas e mais uns dias na Malásia ou no Vietname, que hoje em dia é proibido pela lei dos jantares com amigos ter ido apenas a um sítio. Nas conversas sobre essas viagens, todos garantem que um dia querem ir ao Japão, algumas sabendo que se suceder, já não vai ser com o homem com quem casaram. Talvez algumas ainda pensem em ter um segundo filho que vão procurar encaixar entre a progressão no emprego e os fins de semana com as amigas em Madrid. Esse filho haverá de ter o nome do outro avô, mas só se for um nome aceitável socialmente, como Francisco, Zé Maria, ou, vá lá, um clássico português como Joaquim e Pedro. Se esse avô tiver tido o azar de se chamar Adão, Adelino ou Valter, então aí invente-se a mentira do “sempre quis ter um filho chamado” Diogo ou outro nome sempre en vogue, daqueles que condizem com sweatshirts Gap verde vivo. Talvez estas jeunes femmes de olhar triste tenham comprado os óculos escuros na Temu ou talvez os tenham adquirido a uma amiga que tem uma cunhada que tem uma prima que tem uma marca de óculos ecológicos, feitos de barbas de baleia e lentes esculpidas de garrafas de cerveja senegalesa.

Aos domingos, quando almoçam fora com amigos, antes de pedirem a comida talvez já estejam ansiosas que seja segunda-feira. As crianças não se calam, querem atenção, comida, querem ir brincar, ir ao parque (e há um parque na Doca de Santo, não é por acaso), querem ir visitar a avó, querem ir ao centro comercial. Talvez no futuro, os rapazes venham a jogar rugby, talvez elas façam ballet, seguro é que todos irão fazer Erasmus, nem que seja no Equador ou na Islândia, o importante é que vão, dá-lhes mundo e tema de conversa aos pais que estão agora na Doca de Santo a almoçar e a pensar nisso e porque é que investiram tanto nos seus inúteis mestrados e porque é que não se portaram ainda pior nos Erasmus, havia tipos tão giros e tão disponíveis.

Talvez algumas estejam hesitantes em falar de séries porque já perderam o rasto sobre se estão a ver as certas ou já vão atrasadas. Talvez os seus maridos invistam em criptos, talvez todos tenham ido à Disney, talvez tenham a mania do Sudoeste Alentejano, embora aquela última viagem na autocaravana alugada tenha sido uma canseira do princípio ao fim, mesmo que continuem a mentir e a dizer que foi uma coisa maravilhosa, muito autêntica, os miúdos adoraram, não, os miúdos detestaram, passaram o tempo no telemóvel a jogar.

Elas calçam Autry e Golden Goose falsos, que é inverno e ainda está longe o tempo das sandálias e dos flip flops. Talvez todos aqueles tenham Iphone e talvez um daqueles maridos deteste a Apple e esteja sempre a explicar aos outros as vantagens do Android, e daí talvez alguém lhe dê atenção, mas é provável que não.

A minha companhia disse-me que eu era uma pessoa terrível por estar a pensar nestas coisas, mas não me desmentiu. Perguntei-lhe se a coisa melhora com o tempo e ela disse-me que sim, que o pior é quando os miúdos são pequenos. Fica a informação.

Na Doca de Santo, um sítio que aos domingos se enche de programas familiares com gente cansada, convém marcar porque estas pessoas são muitas e militantes nos seus almoços. Ali, com o som dos rodados des automobiles na ponte por cima de nós, rodeados de miúdos a correr e o ocasional homem gordo com skinny jeans, come-se francamente bem. Recomendo uma muito boa sopa de tomate com oeuf poché (€5 com a nota de que o dito estava mesmo muito bem escalfado) e o Tártaro de Atum (€13, peçam reforço de abacate), com notas de picante e sabor muito forte.

Ótimo serviço, ótima comida, simpático, eficiente e discreto, nota-se que anda ali alguém atento aos empregados e ainda bem, é esta a lógica das coisas. A conta vem com sugestão de gorjeta. Acabámos por dar mais do que o sugerido.

Doca de Santo, Doca de Santo Amaro, Lisboa. Aberto todos os dias, das 12ho0 às 15h30 e das 19h00 às 00h00.

Patrícia Le Mans estudou Filosofia e Moda. Gosta de queijo, champagne e de amêijoas à Bulhão Pato. Tem mãe portuguesa, pai francês, vai flutuando entre Lisbonne e Paris e escrevendo para o Experimentador Implacável.