Páscoa é sinónimo de ciclismo e ciclismo é sinónimo de Paris-Roubaix. Como manda a tradição, a semana pascal iniciou-se com o pelotão a rumar ao inferno do norte, para disputar uma das corridas mais desejadas do calendário mundial. É a rainha das clássicas e, este ano, contava com um fator determinante que ajudou a tornar ainda mais mediático o terceiro Monumento da temporada: Tadej Pogacar. O estratosférico esloveno da UAE Team Emirates-XRG regressou ao Paris-Roubaix nove anos depois de ter feito a clássica pela segunda vez… como júnior. O desafio era substancialmente diferente. Foi a primeira vez nos últimos 34 anos que o atual campeão do Tour alinhou no Monumento flamengo, o que diz muito do risco que é estar no Paris-Roubaix.

Tadej Pogacar era considerado o principal rival a abater no percurso que terminou, como também manda a tradição, no imponente Velódromo André-Pétrieux. Contudo, tinha pela frente Mathieu van der Poel, que corria praticamente em casa, no seu terreno predileto. O neerlandês da Alpecin-Deceuninck entrava em ação como vencedor das duas últimas edições, triunfando com cerca de 100 quilómetros na frente da corrida. Para além disso, Van der Poel jogava grande parte da sua temporada. Depois de o neerlandês ter vencido a Milão-Sanremo e de o esloveno se ter redimido na Volta à Flandres, chegava a hora do desempate. Mas, ainda assim, tinha que se ter em conta outros nomes, como Wout van Aert (Visma-Lease a Bike), Mads Perdersen (Lidl-Trek) e Filippo Ganna (Ineos Grenadiers).

Assim, estava tudo pronto para o percurso de 259,2 quilómetros, entre Compiègne e Roubaix, com 55,3 quilómetros em cima dos tradicionais setores de pavé. Ao contrário do que acontece na Flandres, o Paris-Roubaix é praticamente plano, embora conte com 30 setores de estradas empedradas, que começaram a surgir nos últimos 165 quilómetros. Estes setores encontram-se organizados por dificuldade, destacando-se o mítico Trouée d’Arenberg, que continua a dar dores de cabeça à organização por conta da velocidade, Mons-en-Pévèle e o Carrefour de l’Arbre, que se encontrava a apenas 18 quilómetros da meta. A prova tende a favorecer os ciclistas mais pesados e fortes do pelotão, desafio que Pogacar tinha que enfrentar.

A primeira fase da corrida ficou marcada pela constituição da fuga e as muitas quedas no pelotão, que derivaram da velocidade elevada imposta por Emirates, Ineos e Alpecin. Van Aert, Matej Mohoric (Bahrain-Victorious) e a Movistar, que perdeu três ciclistas ainda antes do primeiro setor, foram as principais vítimas. Assim, Kim Heiduk (Ineos), Oier Laskano (Red Bull-Bora-hansgrohe), Markus Hoelgaard (Uno-X Mobility), Jonas Rutsch (Intermarché-Wanty), Max Walker (EF Education-EasyPost), Jasper de Buyst (Lotto), Rory Townsend (Q36.5) e Abram Stockman (Unibet Tietema Rockets) abriram, na frente, as hostilidades em Troisvilles à Inchy. No pelotão, Jasper Philipsen (Alpecin), Jasper Stuyven (Lidl) e Max Walscheid (Jayco AlUla) caíram na abordagem ao primeiro setor, com Ganna a furar já em cima dos paralelepípedos.

A 136 quilómetros da meta registou-se nova queda, que levou ao chão 11 corredores, entre eles Alexander Kristoff (Uno-X), que se despede do Paris-Roubaix, e Edward Theuns (Lidl). Pouco depois, o grupo de Ganna, com António Morgado (Emirates) e Philipsen, regressou ao pelotão, o que levou Nils Pollit (Emirates) a endurecer o ritmo. As quedas continuaram a marcar a corrida e a primeira movimentação pertenceu a Pedersen, que acelerou a 103 quilómetros do fim, com Pogacar e Van der Poel a responderem logo a seguir. A alta velocidade voltou a cortar o grupo, deixando apenas 16 elementos para frente e Ganna para trás, reentrando antes de Arenberg. No primeiro setor de cinco estrelas, Mathieu voltou a acelerar e Van Aert foi apanhado em mais um corte, numa passagem por Arenberg que contou com muitos furos. A frente da corrida ficou então reduzida a Mathieu van der Poel, Jasper Philipsen, Mads Pedersen, Tadej Pogacar e Stefan Bissegger (Decathlon AG2R La Mondiale), com a particularidade de a Alpecin ser a única equipa com dois elementos.

A 71 quilómetros de Roubaix, o esloveno voltou a mexer com a corrida, numa fase em que Pedersen furou e só Van der Poel o conseguiu acompanhar. Pouco depois, Philipsen juntou-se ao companheiro e, no final Mons-en-Pévèle, o segundo setor de cinco estrelas. Pogacar perceber que Philipsen estava no limite, contra-atacou Van der Poel e os dois extraterrestes ficaram sozinhos na dianteira. Contudo, no setor seguinte (Pont-Thibault à Ennevelin), os dois saíram de estrada numa curva, o esloveno foi ao chão, teve de mudar de bicicleta e deixou o rival isolado. A diferença entre ambos chegou a estar perto dos dez segundos, mas o campeão do mundo acabou por quebrar, teve de voltar a trocar de bicicleta e o espaço abriu consideravelmente. Atrás, Philipsen acabou alcançado pelo grupo de Pedersen e Van Aert.

Ainda houve tempo para, no mítico Carrefour de l’Arbre, o neerlandês ter furado e trocado de bicicleta, mas a vantagem continuou em torno do um minuto. Atrás, Van Aert tentou arrancar a dois quilómetros do fim, sendo acompanhado por Pedersen. Assim, Mathieu Van der Poel controlou a vantagem até entrar no Velódromo de Roubaix para completar o hat-trick e levantar os braços pela quarta vez em 2025. Tadej Pogacar assegurou o segundo lugar na estreia, a 1.18 minutos, acabando a prova a sorrir e com desportivismo para com o rival. Na discussão pelo lugar mais baixo do pódio, Mads Pedersen levou a melhor, batendo Wout van Aert e Florian Vermeersch, com o trio a chegar a 2.11. Assim, subiram ao pódio três campeões do mundo de fundo.

Van der Poel venceu o Paris-Roubaix pela terceira vez — todas de forma consecutiva — e conquistou o oitavo Monumento do seu palmarés, voltando a igualar Pogacar, bem como o belga Rik van Looy. No que concerne ao inferno do norte, esta é a terceira vez que um ciclista vence três edições seguidas, depois do francês Octave Lapize (1909, 1910 e 1911) e o italiano Francesco Moser (1978, 1979 e 1980) o terem feito. A partir deste domingo, só os belgas Tom Boonen e Roger de Vlaeminck têm mais vitórias (quatro) em Roubaix que o neerlandês.