João Cravinho, histórico do Partido Socialista e ministro dos governos de António Guterres e de Vasco Gonçalves, morreu esta quarta-feira. Tinha 88 anos. A notícia foi avançada pela Antena 1 por fonte da família, segundo a qual João Cravinho morreu “tranquilamente em casa”.
Pai do ex-ministro João Gomes Cravinho, o histórico João Cravinho nasceu em Angola, em 1936, tendo voltado para Lisboa com nove anos e continuado a estudar em Portugal, até se licenciar em Engenharia Civil. Depois de cumprir o serviço militar obrigatório, estudou em Paris e ainda tirou um mestrado de Economia na Universidade de Yale. Foi ativo no movimento estudantil, onde disse ter “nascido para a política”. Foi diretor de planeamento da Secretaria de Estado da Indústria, para tentar “adiar a mobilização” para a guerra colonial.
Politicamente, começou por ser filiado no MES ao lado de figuras como Jorge Sampaio e Eduardo Ferro Rodrigues, até ao final de 1974, como contou em entrevista a Anabela Mota Ribeiro. Nessa altura, num congresso, apresentou com Jorge Sampaio — com quem dizia ter uma amizade “profundíssima, fraternal” — uma moção que foi rejeitada, com o partido a preferir assumir uma “configuração praticamente leninista” e Cravinho a ser rotulado como um “social democrata cor de rosa”, então símbolo da “burguesia envergonhada”. O mesmo grupo criou o Grupo de Intervenção Socialista e só em 1977 aderiu ao PS.
Cravinho foi — depois de ter sido convidado para “todos os governos provisórios” e de ter integrado o IV, de Vasco Gonçalves, como responsável pela Indústria e Tecnologia — ministro do primeiro governo do líder do PS, António Guterres, altura em que ficou com a pasta do Planeamento e Administração do Território. A partir de 1996 ficou também com o Equipamento. Foi o ministro que lançou as Parcerias Público-Privadas rodoviárias, assim como as SCUT. “O meu grande erro na questão das Scut foi ter dito que era sem custo para o utilizador. Tinham custos, só não tinham era portagens”, diria depois.
Também durante o seu consulado, em 1997, protagonizou a primeira tentativa de privatização da TAP a 49%, tendo chegado a escolher a Swissair. Mas “houve uma desagregação interna da empresa, que foi substituída por outra num processo de quase falência”, recordava Cravinho ao Observador, em 2014. Foi assim que acabou por cair por terra, em 2001, a privatização que estava a ser preparada.
O legado na luta contra a corrupção, um problema “endémico”
Cravinho foi um dos militantes socialistas que mais agiram para prevenir e combater a corrupção, que considerava um “problema endémico”, tendo começado por interessar-se pelo assunto precisamente porque as pastas que ocupava no Governo eram “dos setores mais ameaçados”.
“No primeiro governo de Guterres, a luta contra a corrupção e o desperdício dos dinheiros públicos foi uma das minhas grandes preocupações. Apertei o controlo de gestão e promovi, designadamente, nova legislação sobre contratação pública. A reacção foi violenta: em 40 anos de democracia, fui o único ministro das Obras Publicas cuja demissão foi pública e formalmente exigida pelos grandes empreiteiros ao primeiro-ministro e ao Presidente da República. Acabaram por ganhar na formação do novo Governo”, contava em 2018, em entrevista ao Público.
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Ainda assim, como contava na mesma entrevista, foi já no início do novo século, como deputado, que percebeu que a corrupção ganhara “dimensões novas” e que a corrupção no Estado estava a aumentar “exponencialmente”, faltando uma resposta “decisiva e estratégica” e que não fosse composta apenas por “medidas ad hoc”. Assim, a proposta de criminalizar o enriquecimento ilícito apareceu pela primeira vez pela mão de Cravinho, em 2006, já como deputado — mas ficou na gaveta (as discussões sobre este tipo de crime poder inverter o ónus da prova mantêm-se até hoje). O Plano Anticorrupção foi então recusado “liminarmente” pelo Governo do PS, disse à SIC, em 2021.
No início de 2007, saiu da Assembleia da República e assumiu o cargo de administrador do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), em Londres, embora tenha assegurado que não foi por estar em rota de colisão com José Sócrates — de quem discordava frontalmente, embora fazendo parte dos órgãos do partido — e que o convite do próprio Governo para aquele cargo, de nomeação, já surgira antes da apresentação do pacote. Ainda assim, acusou o partido de ter travado o pacote a mando do “patrão Sócrates”, tendo feito ao longo da sua vida críticas à falta de pluralismo dos partidos e admitido que foi “ingénuo” nestas matérias.
Em 2018, na mesma entrevista ao Público, comentaria, sobre uma entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa concedida ao jornal: “Marcelo, na entrevista, mostra que tem noção do problema, mas diz que propostas que fiz não foram compreendidas. Acho que foram muito bem compreendidas e por isso foram rejeitadas.”
Cravinho continuou a manter a iniciativa e as posições públicas sobre os temas da corrupção, tendo proposto também que fosse criada uma Comissão de Prevenção da Corrupção, sob tutela do Parlamento. Em 2018, passou a liderar a Comissão Independente para a Descentralização criada por acordo entre PS e PSD, cujo relatório final recomendava que o país avançasse para um processo de regionalização, 20 anos depois de ter sido chumbado em referendo.
Um “visionário” que lutou com “desassombro” contra a corrupção: as reações à morte de Cravinho
Esta quarta-feira, José Pedro Aguiar-Branco interrompeu a sessão parlamentar da tarde para anunciar a notícia na Assembleia da República, tendo os deputados feito um minuto de silêncio. Pedro Nuno Santos reagiu em nome do PS, através das redes sociais, lembrando Cravinho como uma “referência ética e política”, um homem com uma “visão exigente da política como espaço de serviço público” e “um olhar visionário sobre a transformação da indústria portuguesa e sobre a mobilidade no território”: “A sua memória perdurará como exemplo de integridade e compromisso com o bem comum”.
Em meu nome e em nome do Partido Socialista, expresso o mais profundo pesar pelo falecimento de João Cravinho. Já transmiti à sua esposa e ao seu filho, em nome de todos os socialistas, a nossa solidariedade e os nossos sentidos pêsames neste momento de luto.
Figura histórica do…
— Pedro Nuno Santos (@PNSpedronuno) April 16, 2025
Na página oficial da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa falou num “político multifacetado que exerceu os mais diversos e exigentes cargos públicos”, que pautou a sua vida por “uma defesa incansável da ética na política e na vida pública, lutando sempre contra a corrupção e desempenhando os mais diversos cargos com desassombro e coragem”.