A REN (Redes Energéticas Nacionais) está a procurar restabelecer a rede elétrica e o fornecimento de eletricidade através do arranque de duas centrais  — a Tapada do Outeiro em Gondomar e Castelo de Bode em Tomar. A meio da tarde, a REN que a produção destas duas unidades já estava a alimentar a rede e a permitir o regresso da eletricidade a algumas localidades.

Em declarações aos jornalistas, o administrador da REN, João Conceição, explicou que foram necessárias várias tentativas de arranque antes de conseguir estabilizar a rede com a produção destas centrais. O norte do país, em particular o Grande Porto, deverá ter o fornecimento elétrico reposto mais rapidamente até às nove da noite — Vila Nova da Gaia já tem luz  — porque há mais centrais que podem reforçar a produção da Tapada do Outeiro.

Na Grande Lisboa vai ser mais demorado porque Castelo de Bode tem menos potência e porque há menos centrais perto que possam reforçar. O gestor da REN admitia que poderia demorar cinco a seis horas, com a prioridade a ser dada aos serviços públicos urgentes, como hospitais, aeroporto, forças de segurança, telecomunicações e transportes.

Apesar de ter sido a rede elétrica a falhar, um apagão que dura já há sete horas está afetar um conjunto muito variado de serviços.

A escolha destas duas centrais — uma hidroelétrica (Castelo de Bode) e outra a gás natural (Tapada do Outeiro) — não é por acaso. Estas são as únicas unidades do sistema eletroprodutor português que podem prestar o serviço de black start. Este serviço permite um arranque autónomo sem o apoio de tensão de rede e que por isso permite realizar a recuperação do sistema elétrico após uma falha maciça como a verificada em Portugal e Espanha e quando não está disponível a ajuda da interligação com o país vizinho.

E isso é precisamente o que está a acontecer em Portugal e que é uma situação inédita no sistema ibérico. A dificuldade em “re-energizar” a rede nacional é muito maior quando não está operacional a interligação com Espanha. Espanha já conseguiu repor o sistema em algumas regiões, contando para isso com a ajuda das redes francesa e marroquina. Essa ajuda está a permitir uma recuperação mais rápida do fornecimento elétrico do que em Portugal.

Portugal não pode contar com a sua única interligação internacional porque a rede espanhola só ao final do dia ficou em condições de ajudar na reposição do sistema português .

Centrais a gás devem continuar para segurança do abastecimento (mesmo sem produzir quase nada) e receber compensação

O processo é dificultado pelo facto de praticamente não haver consumo na rede nacional. O arranque destas centrais é mais difícil porque quando não há procura os dispositivos de segurança forçam as centrais a parar. É por isso que a retoma tem de ser feita de forma muito gradual e cuidadosa para evitar novos desequilíbrios.

João Conceição diz que ainda não está apurada a causa do apagão, mas indica que do lado espanhol se registou uma forte oscilação de tensão na rede que terá provocado esta falha maciça. Portugal estava a importar energia de Espanha (aproveitando preços baratos) quando foi contagiado por estas oscilações que levaram os sistemas de segurança das centrais a disparar, retirando oferta e provocando o apagão na rede de muito alta tensão que se espalhou às redes de distribuição.

Gráfico de produção de eletricidade da REN mostra queda abrupta a partir da hora em falhou a rede elétrica

Neste ponto de situação realizado a seguir ao almoço, a REN dizia que ainda era impossível prever quando estará normalizada a situação. No entanto, desmentia “categoricamente” informação atribuída à empresa de que a reposição do sistema poderia demorar até uma semana. A empresa também não confirma que a origem do apagão tenha sido um “fenómeno atmosférico” raro verificado em Espanha, indicando que a origem do problema está a ser investigada. O foco neste momento está na reposição do serviço.

O primeiro-ministro, numa comunicação no âmbito do Conselho de Ministros extraordinário, convocado por causa do apagão, indicou que a origem deverá estar mesmo em Espanha.

O sistema elétrico ibérico desligou-se automaticamente da rede europeia às 11h33 minutos, hora de Portugal. A Península Ibérica está a ser muito afetada por este apagão que causou perturbações no fornecimento elétrico em outros países.

Tal como a produção, também o consumo caiu de forma abrupta.