Durante 18 anos, o norte-americano Tim Friede foi mordido mais de 200 vezes e tomou 700 injeções que preparou a partir do veneno de várias serpentes perigosas. A intenção inicial era apenas desenvolver o seu sistema imunitário para estar mais protegido quando pegasse nestes animais para vídeos do seu canal de Youtube.
O que começou como um projeto simples acabou por colocar em causa a sua saúde — chegou a ficar em coma após ser mordido sucessivamente por cobras — e, agora, pode ajudar outras pessoas que sejam mordidas por serpentes. A Organização Mundial de Saúde revela que, anualmente, morrem entre 81 410 e 137 880 pessoas graças ao veneno destes animais.
Um grupo de cientistas, em colaboração com Friede, aproveitou o sangue do norte-americano para desenvolver um antídoto “incomparável”, informa a BBC.
“Tornou-se num estilo de vida e eu comecei a forçar e a forçar o máximo possível”, explica o antigo mecânico de camiões, que não queria “morrer”, nem “perder um dedo”, para não faltar ao trabalho graças às suas experiências.
A BBC explica que os antídotos, normalmente, são produzidos com a injeção de pequenas doses de veneno de serpente em animais, como cavalos. Depois, o sistema imunitário das cobaias produz anti-corpos que são recolhidos para serem usados como terapia.
Ainda assim, a missão é exigente e obriga a que o veneno e o respetivo antídoto sejam correspondentes, uma vez que o veneno varia bastante de uma espécie de serpente para outra — às vezes, chega até a ser diferente nas mesmas espécies de diferentes locais.
Quando uma equipa de investigadores decidiu procurar a solução com outro método, descobriram Friede. A intenção destes cientistas era de procurar uma defesa imunológica de anticorpos amplamente neutralizantes (que em vez de atacar a parte da toxina que a torna diferente, ataca as partes comuns).
Mal Jacob Glanville, presidente-executivo da empresa de biotecnologia Centivax, conheceu o norte-americano pensou: “Se alguém em todo o mundo desenvolveu estes anticorpos amplamente neutralizantes foi ele”.
Então, o perito decidiu entrar em contacto com ele e, no primeiro telefonema, disse: “Isto pode soar estranho, mas eu adorava estudar o seu sangue”. O tratamento começou assim que teve aprovação ética.
A investigação, conta a BBC, centrou-se em 19 ‘elapídeos’ (identificados pela OMS como as serpentes mais perigosas), que usam principalmente neurotoxinas que paralisam as vítimas atacadas com veneno e que podem ser fatais quando estagnam os músculos necessários para respirar.
A partir desses animais, começaram a analisar o sangue de Friede à procura de anticorpos de defesa. As experiências em ratos, baseadas em amostras recolhidas, permitiram que estas cobaias sobrevivessem a doses fatais de veneno de 13 espécies de serpentes (num total de 19 testadas).
Esta conquista, descrita por Glanville como “sem precedentes”, “provavelmente abrange vários ‘elapídeos’ para os quais não há, de momento, antídotos”. Contudo, a equipa de investigação tem ambição de conseguir melhorar o antídoto para proteger contra todas as variedades de serpentes, desde ‘elapídeos’ a víboras.
“Estou a fazer algo de bom pela humanidade e isso é muito importante para mim. Estou orgulhoso”, admitiu Friede.