O processo de venda do Novo Banco (por parte do acionista maioritário Lone Star), que deve avançar neste ano de 2025, fez nesta segunda-feira dois banqueiros recuarem vários anos no tempo – em rigor, 14 anos – e envolverem-se numa rara “troca de galhardetes” em público sobre até que ponto os bancos estrangeiros (espanhóis, no caso) ajudaram o Estado português a superar os anos difíceis da assistência financeira externa da troika.

A picardia, durante uma conferência organizada pelo Diário de Notícias, começou quando Miguel Maya, presidente do Millennium BCP, foi questionado acerca de possíveis cenários de consolidação bancária em Portugal – em que a venda do Novo Banco é o “prato principal”.

Na mesma mesa-redonda estava João Pedro Oliveira e Costa, presidente do BPI – um banco 100% detido pelos espanhóis do Caixabank, cujo interesse no Novo Banco tem sido noticiado na imprensa financeira internacional. O BCP também não esconde ter algum interesse, embora continue a manifestar que só avançaria se fosse uma operação muito vantajosa para o banco – e, nesta fase, a administração do BCP diz não ter a certeza de que assim fosse.

Questionado nesta conferência, Miguel Maya disse que, independentemente da nacionalidade dos proprietários dos bancos, a sua “preocupação é ter operadores que servem a economia portuguesa com capacidade e competência“. Porém, acrescentou uma declaração que terá caído mal a João Pedro Oliveira e Costa, a julgar pela resposta que o presidente do BPI lhe daria momentos depois.

Miguel Maya afirmou que, apesar de o mais importante ser a capacidade e a competência” dos gestores, não esquece que, na sua leitura, os bancos não-portugueses falharam na ajuda ao Estado português no tempo da assistência financeira.

“Nunca me esqueço dos tempos da troika e da assistência financeira, [em que] era preciso dar um apoio ao Estado português e os bancos que ajudaram chamavam-se Caixa Geral de Depósitos, Banco Comercial Português e, na altura, Banco Espírito Santo“. “Os outros”, afirmou Miguel Maya, “mantinham a posição mas tinham, obviamente, um enquadramento que era definido lá fora“.

Eu acho que é bom ter este equilíbrio, é ótimo ter bancos de matriz espanhola a operar em Portugal e que têm contribuído muitíssimo para o desenvolvimento da economia nacional. É bom haver diversidade mas é muito bom haver banca nacional“, rematou o presidente da comissão executiva do Millennium BCP.

A resposta do líder do BPI chegaria pouco depois. “A consolidação bancária é um desígnio europeu, é um tema importantíssimo, e, tal como ensinou o Papa Francisco, devemos pensar mais naquilo que nos une do que aquilo que nos separa”, afirmou João Pedro Oliveira e Costa, passando, depois, ao ataque.

“Se queremos recordar o passado, temos de recordar tudo, não apenas algumas coisas“, afirmou Oliveira e Costa, que com várias décadas no BPI disse conhecer “bem o terreno” e quis “recordar que, na altura, o BPI tinha uma carteira de dívida pública de tal maneira que teve de comprar à mesma entidade pela qual tinha comprado a dívida a pagar o dobro da taxa de juro que tinha de pagar”. “A mesma coisa aconteceu com o BCP, portanto não foram só os três bancos que o Miguel [Maya] falou”, atirou João Pedro Oliveira e Costa.

Por outro lado, o líder do BPI diz que todo “o sistema financeiro português trabalhou na famosa Operação Coração“, um movimento de bancos que foram levados a fazer créditos e investimentos com o intuito de ajudar o Estado português, não puramente por decisões comerciais e económicas. “Eu não concordo com Operações Coração – e acho que todos aprendemos uma lição pela qual ainda hoje estamos a pagar a fatura”.

“Também não acredito que os bancos sejam instrumentos do Estado para que quando há políticos que executam mal as suas funções nós tenhamos de ir pagar essas despesas”, afirmou João Pedro Oliveira e Costa, recordando também que esse “apoio” dado por esses “três bancos, para os seus acionistas não correu bem, correu até muito mal” – numa referência às elevadas necessidades de recapitalização acionista que os três bancos tiveram. No caso do BES, mais do que necessidades de capitalização, o banco enfrentou mesmo uma resolução.

A história que foi contada relativamente a 2011 espero que não volte a acontecer. Nunca ninguém fugiu a operar quando foi necessário e quando um [banco] inglês [Barclays] e um alemão [Deutsche Bank] saíram foram entidades espanholas, por acaso, que compraram, porque não há capital privado suficiente para ter um papel fundamental na banca portuguesa.

João Pedro Oliveira e Costa defendeu que é preciso ter “um sistema financeiro forte, gerido por pessoas competentes e com regras, sem emprestar dinheiro a pessoas que fazem coleções de arte [uma referência a Joe Berardo] e, depois, temos todos de pagar a fatura”. “E, depois, ainda temos de assistir a uma data de comissões de inquérito em que ninguém se lembra de nada“.

O líder do BPI, que em entrevista recente ao Observador considerou “provinciano” falar em centros de decisão nacional na banca, terminou garantindo que o “centro de decisão do BPI sempre esteve em Portugal e no dia em que não estiver vou-me embora”.

“Sou presidente do banco há cinco anos e sempre tomei todas as decisões, não precisei de passar fronteiras”, garantiu João Pedro Oliveira e Costa.

“É um bocadinho provinciano falar em centros de decisão nacional”, diz presidente do BPI sobre eventual compra do Novo Banco

Presidente do BPI diz que desconhece qualquer operação do CaixaBank sobre Novo Banco

O presidente do BPI disse, também, que não tem conhecimento de qualquer operação do CaixaBank (acionista do BPI) sobre o Novo Banco e que as ordens do acionista espanhol continuam a ser de crescimento orgânico.

O BPI não tem, e eu não tenho, conhecimento de nenhuma operação que esteja em curso e a estratégia do CaixaBank compete ao acionista, por isso compete a ele próprio defini-la. O BPI não está envolvido em nenhuma operação, nós não temos em curso nenhum estudo sobre a operação do Novo Banco”, disse João Pedro Oliveira e Costa à Lusa, à margem da Money Conference, que decorre em Lisboa.

O gestor afirmou que o acionista não falou com o BPI sobre essa operação, que até agora toda a informação é que o BPI se mantém focado no crescimento orgânico (aumento do negócio sem aquisições) e reforçou que “qualquer decisão estratégica do acionista compete ao acionista”.

A estratégia que tem sido afirmada pelo CaixaBank tem sido sempre de crescimento orgânico. Claro que se oportunamente houver algo semelhante conto que estejamos envolvidos, mas neste momento aquilo que me é dito pelo meu acionista é crescimento orgânico e é nisso que estou focado”, disse.

Sobre o risco de maior dominância de Espanha na banca portuguesa, considerou que num contexto europeu não interessa a origem do capital e disse ficar incomodado com o tema da ‘espanholização’ da banca portuguesa.

“Num contexto europeu o que nós queremos são instituições fortes, europeias, que suportem as nossas economias e que haja cada vez mais capacidade de nós termos uma voz internacional. Se nós continuarmos, ainda para mais sendo um pequeno país e uma pequena economia, a fecharmo-nos sobre nós próprios vai ser muito complicado”, afirmou.

João Pedro Oliveira e Costa disse que o BPI é detido na totalidade pelo grupo espanhol Caixabank, mas que o centro de decisão é em Portugal e decide em Portugal todas as operações de crédito. O ministro das Finanças, Miranda Sarmento, disse a semana passada em entrevista à RTP que seria bom “para o mercado bancário português que a presença espanhola não aumentasse”.