Um momento “grave”, difícil de compreender, que implicará que o PS tenha “muito trabalho pela frente”. O diagnóstico do momento que os socialistas atravessam não foi, naturalmente, simpático, num encontro com alguns dos fundadores do partido — a que se juntou Manuel Alegre — promovido pelo candidato José Luís Carneiro. Juntando nomes que o apoiaram na luta pela liderança do PS em 2023, mas também que estiveram ao lado de Pedro Nuno Santos, Carneiro deixou o seu próprio apelo ao PSD, com quem se quer entender em “questões de regime”.
O encontro com os fundadores que criaram o partido, a partir da Alemanha, com os “valores” que ainda mantém serviu a Carneiro para fazer a ponte entre a história do PS e os problemas mais imediatos que tem em mãos para resolver — nomeadamente as relações com o PSD. “O encontro de hoje permite olhar para os últimos 50 anos e para os próximos. Queria lembrar que os compromissos constitucionais e democráticos têm mais de 50 anos e foram construídos entre PS e PSD. Quando falamos da Constituição falamos desse compromisso fundador”, recordou, num contexto em que a IL vai avançar com uma revisão constitucional e em que, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, os votos do PS não são necessários para aprovar mudanças à Lei Fundamental.
Por isso, Carneiro aproveitou as declarações aos jornalistas, antes de começar o almoço, para defender que se essa revisão avançar o PS deve “colocar condições” — e uma delas é que o Governo da AD estabeleça o PS “como seu parceiro de diálogo nas questões de regime”. “O diálogo entre os dois principais partidos é essencial para garantir a honra e essa dignidade”, argumentou, explicando que ainda não houve contactos com a liderança do PSD mas que é “muito natural” que isso ainda não tenha acontecido, numa fase de “transição” (ainda não há novo Governo e Carneiro só irá a votos para liderar o PS no final de junho).
Alegre deixa alertas para dentro e pede “estabilidade”
Carneiro escolheu assim, numa fase dramática para o partido, fazer de um almoço com fundadores do PS — Alberto Arons de Carvalho, José Leitão, José Neves, Nuno Godinho de Matos, Rodolfo Crespo e o atual presidente honorário Manuel Alegre — o primeiro ato da sua candidatura à liderança do PS, num momento simbólico para mostrar que o partido deve estar unido e focado na reflexão que tem para fazer a partir de agora. Uma união que, apesar de Carneiro dever ser o único candidato a secretário-geral, não será imediata, uma vez que houve vozes com peso no partido — como Fernando Medina ou Mariana Vieira da Silva — que defenderam que a contagem de espingardas apressada não favoreceria o processo de reflexão do PS.
De qualquer forma, o avanço de Carneiro está confirmado e esta terça-feira, antes de subir uns quantos andares no edifício novo da Assembleia da República para almoçar com os fundadores, o candidato ouviu os históricos socialistas a chegarem com avisos e conselhos para lhe deixarem, antes de se dedicarem às entradas ou à sopa. Desde logo, Manuel Alegre, que em 2023 apoiou Pedro Nuno Santos na corrida interna que então o opunha a José Luís Carneiro, apareceu para o almoço e começou por deixar uma mensagem de concordância com a estratégia do candidato: “Concordo que devemos fazer o necessário pela estabilidade do país. Não devemos passar a vida em eleições. O PS é um partido de grande responsabilidade, pode ser tão importante na oposição como no poder. E neste momento a estabilidade passa pelo PS”.
Essa “estabilidade”, sublinhou, será também a estabilidade do regime, nomeadamente no que toca à defesa da Constituição numa altura em que surge no horizonte a ameaça de uma revisão constitucional. “Não pode haver uma revisão da Constituição que deixe de fora o PS. Nem pode haver uma revisão que seja uma subversão do regime. Essa é uma questão muito importante para dialogar com o PSD, que é um partido constituinte”, pediu Alegre, em mais um ponto em que se mostraria alinhado com Carneiro.
Quanto à reflexão que é preciso fazer sobre as causas para a hetacombe socialista, Alegre disse também estar a tentar percebê-las — “não sou bruxo, eu próprio tenho dificuldade em compreender” — mas quis lembrar que a crise dos partidos socialistas “não é um fenómeno isolado” e já aconteceu em países como Alemanha e França. Por isso, será preciso, defendeu, reformar o partido, reaproximar o PS dos “setores mais dinâmicos” da população e da juventude, e voltar a fazer dele “o partido dos pobres e desprotegidos”.
“Tudo isto é um trabalho muito grande que tem pela frente o meu camarada e amigo José Luís Carneiro. Vimos também para o ouvir e fazer uma troca de impressões, é momento de diálogo não só para fora mas para dentro”. Apesar de se ter mostrado de acordo com Carneiro em vários pontos, Alegre foi mais lacónico na hora de responder sobre se o ex-ministro será o homem “certo” para liderar o PS: “É o homem que está na posição de ser eleito secretário-geral, portanto é com ele que temos de contar“. Já esta semana, em reação ao Público sobre os resultados eleitorais, Alegre tinha avisado: o PS pode mesmo tornar-se um partido “dispensável” e por isso deve fazer uma reflexão séria que não deve limitar-se a uma troca de líder, uma vez que sem correções estruturais caminhará para a “decadência”.
Ao contrário de Alegre, Arons de Carvalho, governante no tempo de António Guterres, já tinha estado ao lado de Carneiro na corrida de 2023 e mostrou-se igualmente alinhado com o objetivo de garantir “estabilidade”. Não que haja grandes alternativas: “Não haverá outra alternativa, o PS deve compreender os resultados eleitorais e aceitar”, disse aos jornalistas à entrada do almoço. “O PS tem de refletir sobre os resultados, mas creio que neste momento a maioria dos portugueses deseja um governo estável e com alguma duração”.
Sem querer dar opiniões sobre o calendário interno do PS, e sobre se Carneiro marcou o seu território demasiado cedo para permitir uma discussão mais programática, Arons não quis pronunciar-se sobre o assunto — deixou a discussão para os órgãos do partido — e focou-se no papel que o PS deve assumir: “Uma coisa é ser suporte do Governo e apoiar todas as medidas do Governo, outra é ser oposição construtiva”. Carneiro, defendeu, será a “figura certa” para que o PS volte a ser um partido de Governo — e Pedro Nuno Santos “errou” ao “impedir que o Governo continuasse”, mas é “fácil fazer prognósticos depois do fim do jogo”, reconheceu.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
CPI é para deixar cair. Carneiro “respeita” decisões sobre autarca de Vizela
Carneiro aproveitou ainda os minutos anteriores ao almoço (que foi fechado à comunicação social, embora com possibilidade de recolher imagens dos sete comensais à mesa) para deixar claro mais um corte com a era Pedro Nuno, como já tinha antecipado, e rejeitar a hipótese de avançar com a Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso Spinumviva: “É público que a PGR tem em curso uma averiguação para procurar esclarecer as dúvidas que ainda prevalecem. Deixemos que seja tratado pela justiça”.
Mesmo que haja novos elementos a surgir? “Mesmo que houvesse novos elementos convém que tenham consciência de que a decisão não é unicamente do secretário-geral — o PS tem órgãos e o grupo parlamentar. Qualquer pronúncia minha seria substituir-me aos órgãos”.
Quanto ao autarca socialista de Vizela, a quem Pedro Nuno Santos retirou a confiança política por causa de uma investigação por violência doméstica (arquivada porque a vítima, sua mulher, não colaborou, mas pode ser reaberta), tendo Carlos César mantido essa decisão, Carneiro respondeu brevemente: “Respeito as decisões do meu partido e de quem está no exercício das funções”. Durante a campanha, Carneiro esteve em Vizela e elogiou o trabalho do autarca, Vítor Hugo Salgado.