As contas públicas de Portugal podem regressar aos défices já em 2026, admite a OCDE, identificando um risco que já tinha sido admitido pelo Banco de Portugal, pelo Conselho das Finanças Públicas e, mais recentemente, pela Comissão Europeia. O organismo, cujo economista-chefe é o antigo ministro da Economia Álvaro Santos Pereira, prevê um crescimento da economia portuguesa menos veloz neste ano – 1,9% – e também a economia mundial, por culpa das tarifas de Trump, deverá ter o crescimento mais fraco desde a pandemia de Covid-19.

Os alertas estão no relatório semestral publicado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A equipa de Álvaro Santos Pereira tira uma décima à previsão de crescimento português que tinha sido estimada há seis meses – a economia nacional deve crescer 1,9% este ano e também no próximo ano. Já o défice nas contas públicas em 2026 pode ser de 0,3% do produto interno bruto (PIB).

Depois de um crescimento “robusto” no final do ano passado, estimado em 2,8%, o crescimento “está a desacelerar”, afirma a OCDE no relatório. Segundo a estimativa rápida divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a economia portuguesa cresceu 1,6% em termos homólogos nos primeiros três meses do ano e contraiu-se 0,5% face ao trimestre anterior. Além desta contração no início do ano, a economia portuguesa será também prejudicada pelas tensões comerciais com os Estados Unidos, após o Presidente dos EUA ter anunciado que iria aplicar tarifas adicionais.

O Governo inscreveu no Orçamento do Estado para 2025 uma previsão de crescimento de 2,1%, o que é menor do que o cenário macroeconómico apresentado pela AD, que apontava para uma expansão de 2,4% este ano e 2,6% em 2026.

A restritividade do mercado de trabalho, os aumentos do salário mínimo e a descida dos níveis históricos de poupança farão aumentar o consumo privado. Uma execução mais célere do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) impulsionará o consumo e o investimento público”, diz a OCDE.

Exportações devem desacelerar com tarifas de Trump

Referindo-se às exportações, a OCDE prevê que o crescimento irá continuar a desacelerar devido ao abrandamento da procura global, ao aumento das barreiras comerciais e à taxa aduaneira de 10% imposta pelos EUA às importações de produtos portugueses, nomeadamente aço e automóveis.

“As empresas exportadoras portuguesas são confrontadas com uma tarifa base de 10% imposta pelos EUA e com direitos aduaneiros específicos aplicáveis ao aço, ao alumínio e à indústria automóvel”, afirma a organização, precisando que “embora as exportações diretas de bens e serviços para os Estados Unidos representem apenas 2,8% do PIB, Portugal enfrenta também uma menor procura externa por parte dos seus principais parceiros comerciais europeus”.

Em relação à taxa de inflação em Portugal, que foi de 2,7% em 2024, a OCDE prevê uma descida para 2,1% este ano e em 2026. “Com a subida dos preços das importações e a manutenção da elevada procura de mão de obra, a inflação abrandará apenas ligeiramente para 2,1% em 2026”, precisa.

A organização afirma que a política orçamental irá manter a orientação expansionista e que a execução do PRR e a redução dos impostos sobre as famílias e as empresas farão aumentar a procura interna, enquanto os excedentes orçamentais persistentes potenciarão uma descida da dívida pública para 89,8% do PIB em 2026 (definição de Maastricht).

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Crescimento global menor desde a pandemia de Covid-19

A OCDE considera que a economia global está a caminhar para o período de crescimento mais fraco desde a crise económica provocada pela gestão da pandemia de Covid-19. A guerra comercial lançada pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, irá pressionar significativamente as principais economias, incluindo a norte-americana EUA.

O crescimento global deverá ser de 2,9% em 2025 e 2026, afirmou a OCDE nas suas previsões, o que seria uma desaceleração face aos mais de 3% que se tem registado em todos os anos desde 2020. Para o conjunto da zona euro, a OCDE prevê um crescimento de 1% do PIB este ano. Nos EUA, o crescimento irá abrandar de forma particularmente acentuada, caindo de 2,8% no ano passado para apenas 1,6% em 2025 e 1,5% em 2026. A OCDE receia que o impacto das tarifas na inflação irá impedir a Reserva Federal (o banco central norte-americano) de cortar as taxas de juro este ano.

Um novo aumento das tarifas dos EUA de mais dez pontos percentuais custará à economia mundial mais de um ponto do PIB após dois anos e até 1,6 pontos aos EUA, segundo a OCDE.

O economista-chefe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), Álvaro Pereira, divulgou hoje estes números, durante a apresentação à imprensa do relatório “Outlook”, que reduz quase totalmente as expectativas para os países membros da organização e os grandes países emergentes.

O secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, reforçou o aviso, salientando que, mesmo com a revisão em baixa das expectativas, “existem riscos significativos” de que o resultado final possa ser pior “devido à incerteza política”.

Cormann, que evitou referir-se diretamente a Donald Trump como a causa desta situação devido à guerra comercial que lançou desde que chegou à Casa Branca em janeiro, especificou que num cenário de um aumento adicional de 10 pontos nas tarifas dos EUA, a OCDE no seu conjunto perderia 1,3 pontos do PIB ao fim de dois anos.

Os mais afetados seriam os EUA e os seus dois principais parceiros comerciais, o México e o Canadá.