Pode uma intervenção na zona de entrevistas rápidas de um treinador ser mais relevante antes do que depois de um jogo? Resposta pronta, não. Contudo, e como em tudo na vida, também existem exceções. Na Allianz Arena, por exemplo. O Alemanha-Portugal tornou-se um exemplo paradigmático dessa raridade depois de se conhecerem as equipas iniciais para as meias da Liga das Nações, com Roberto Martínez a deixar Vitinha e Rafael Leão no banco de início ao mesmo tempo que lançava João Neves como lateral direito da Seleção no dia em que a capa de um jornal desportivo colocava o espanhol a prazo caso não conseguisse uma vitória.

Goste-se ou não, a noite das facas longas ainda vai ter de esperar (a crónica do Alemanha-Portugal)

“O onze é importante mas os jogadores para terminar o jogo também são. É uma meia-final, temos de gerir os esforços e os minutos. É importante que o Vitinha termine o jogo. Posição de João Neves? Vai jogar a lateral direito, é uma posição que está a fazer muito bem no seu clube. Esperamos uma Alemanha muito flexível, que pode executar muito bem e com bola usar João Neves na sua posição em zonas de jogo interior. Notícias de ter lugar em risco? Surgir uma notícia dessas antes de uma meia-final não faz sentido. É ruído e quase que uma falta de respeito pelo trabalho dos jogadores. Estamos entre as quatro melhores seleções da Europa. Sempre mostrámos um foco no trabalho, os jogadores têm orgulho em vestir a camisola. O resto é tudo ruído”, atirou em declarações à RTP antes do encontro quando se conheceu o onze inicial.

“Porquê das mexidas? O Dalot está a recuperar de uma lesão, não joga 90 minutos há muitas semanas, é um risco jogar. O João Neves fez uma época muita boa, jogou muitos jogos a lateral direito no PSG. Queremos utilizar a sua qualidade tática, é uma posição que conhece perfeitamente. A sua energia é importante, faz parte do que precisamos de fazer. Vitinha? Ele é a batuta do futebol europeu, essencial mas precisamos de protegê-lo, é um jogador importante para terminar o jogo. Precisamos de utilizar os outros jogadores que tiveram mais tempo de preparação no treino. A ideia é ganhar o título no domingo. Rafael Leão? Jogamos sempre com largura mas a nossa disciplina tática é importante. O impacto de Trincão foi muito importante no jogo com a Dinamarca, merece. Rafael Leão não está a 100%. A velocidade e o facto de podermos utilizar o espaço nas costas é importante”, acrescentou depois, neste caso falando à SportTV.

Apesar de tudo aquilo que descreveu como “ruído”, Martínez assumiu o risco e ganhou a aposta, com essa mesma curiosidade de Portugal ter conseguido a reviravolta com Vitinha em campo. No final, o técnico não quis alinhar pelo discurso de “resposta” a tudo o que foi sendo escrito, valorizando sobretudo a exibição da Seleção e recordando nomes como Humberto Coelho, antigo vice-presidente da Federação que saiu com Fernando Gomes e que era treinador do conjunto nacional na última vitória diante dos germânicos em 2000.

“Precisamos de desfrutar da vitória. O importante foi o espírito que mostrámos, é a primeira vez em 25 anos que ganhamos à Alemanha. Taticamente estivemos excecionais. O compromisso, a ajuda… Depois acho que em frente à baliza melhorámos muito na segunda parte. Hoje mostrámos que trabalhámos muitas variantes táticas para utilizar. É começar com onze, acabar com outro, mas o importante é o espírito da equipa. A vitória foi da equipa. Adaptámos muito bem o que a Alemanha estava a dar. Há muitas coisas a fazer bem se quiseres jogar olhos nos olhos com a Alemanha. Fizemos isso na primeira parte mas podíamos melhorar o aspeto de ter mais posse, maior controlo, porque o espaço estava onde esperávamos e nós não procurámos da melhor forma. Foi importante a equipa ser competitiva. Sofreu golo que não merecia mas a reação é ainda melhor. A variação tática faz parte, precisamos disso para utilizar o talento individual dos jogadores. O importante foi personalidade, para jogar olhos nos olhos com a Alemanha”, referiu à RTP.

Gostamos de ganhar e posso dizer que todos os jogos são diferentes. Há jogos em que se fecham, outros que demonstram personalidade. Há qualidade, há história do balneário. Já falei disso. O Mundial está a 12 meses, precisamos destes jogos para preparar e este foi importante”, frisou.

“Acho que o importante foi a personalidade. Sabemos que temos muita qualidade mas jogar contra a Alemanha, com toda a história faz parte do aspeto psicológico. Fico muito orgulhoso. Sempre falei do compromisso dos jogadores e hoje mostraram isso. Também falei da flexibilidade tática que temos de ter e utilizámos em diferentes momentos. A Alemanha nunca teve controlo do jogo. É um desempenho e um resultado histórico. Espero que os adeptos de Portugal fiquem orgulhosos. Génio? Para mim, tudo isso é ruído. Tenho um compromisso enorme. Tenho a minha experiência ao serviço de Portugal. Já falei do que estes jogadores estão a fazer, o resto é para vocês e para o adversário. Golo do Francisco Conceição?  Acho que a história do futebol português foi muito engraçada… Os melhores desejos para Humberto Coelho. Passámos momentos muito giros, faz parte também desta vitória”, destacou em declarações à SportTV.

Poucos momentos depois, também Pedro Proença, líder da Federação que cumpre esta semana os primeiros 100 dias no comando do órgão, passou pela zona de entrevistas rápidas para abordar o triunfo de Portugal frente à Alemanha, o primeiro em 25 anos. “Isto é a resposta do talento português. Em duas semanas, vamos disputar duas finais e é verdadeiramente a afirmação do futebol português, do que é feito por todos. Os rapazes hoje estão de parabéns, esta equipa técnica que no silêncio vai dando a resposta que tem de dar. Vamos estar numa final, o que começa a ser uma normalidade. Temos de estar muito satisfeito, com a nossa discrição e silêncio. Hoje foi uma afirmação do presente e do que cai ser o futuro. O presente está garantido, o futuro também”, começou por dizer o presidente da FPF, antes de abordar o futuro do técnico.

“Não estamos em ponto nenhum. O selecionador está a fazer o trabalho dele, na tranquilidade… O grupo hoje deu esta resposta, uma vitória extraordinária. Neste momento, Roberto Martínez está a fazer este trabalho com qualidade, ninguém está a pôr isso em causa. É com esta tranquilidade que vamos seguir. Como dirigentes, somos uns simplificadores deste trabalho e no recato temos de dar condições para que todos os portugueses possam estar satisfeitos. Espanha ou França? Que o rapazes estejam bem, preparados e motivados. Temos mesmo uma geração de ouro. Merecem o respeito que parece que muitas vezes não existe. Parabéns aos clubes também por tudo aquilo que fazem”, rematou Pedro Proença.