Derrota, derrota, derrota, derrota, derrota. Derrota em 2006, na luta pelo pódio do Mundial. Derrota em 2008, nos quartos do Campeonato da Europa. Derrota em 2012, na fase de grupos do Europeu. Derrota em 2014, nos grupos do Campeonato do Mundo. Derrota em 2021, também na fase de grupos do Europeu. Se aquela histórica vitória de Portugal no Campeonato da Europa de 2000 atirou a Alemanha para uma espiral de crise que demorou a ser ultrapassada apesar da presença na final do Mundial de 2002, a “vingança” não demorou a chegar, com os germânicos a iniciarem aí a melhor série de triunfos consecutivos diante da Seleção. Questão: os números contavam assim tanto para uma meia-final da Liga das Nações? Não. E muito dessa explicação entroncava naquilo que a armada nacional conseguiu fazer na Champions pelo PSG.

Alemanha-Portugal. Diogo Costa evita o golo de Woltemade com uma grande defesa (0-0, 19′)

Aqueles tempos da desvantagem física e de poderio em todos os setores já lá vão. Tornaram-se uma narrativa factual mas que perderam argumentos com a evolução natural do futebol. A Alemanha mudou o ADN do seu jogo, o ADN de jogo de alguns jogadores mudou Portugal. Contra uma das melhores equipas europeias sem bola, e que junta a essa característica a intensidade física colocada em campo, o PSG fez o que quis do Inter na recente final da Liga dos Campeões alicerçado em autênticos tratados de futebol com e sem posse que foram deixados por Vitinha e João Neves, entre outros. Naquela habitual luta de qualquer selecionador de olear uma máquina sem tempo para isso, Luis Enrique deixara o guião para a melhor versão de Seleção.

“Acho que é importante trabalhar com todos e considerar todos os caminhos das últimas semanas. Posso dizer que o aspeto emocional é muito importante para nós, que o João [Neves], o Vitinha, o Gonçalo [Ramos] e o Nuno [Mendes] tenham conquistado a Liga dos Campeões. É contagioso, uma energia positiva. Mas é importante ter uma adaptação boa. No primeiro dia fizeram um treino geral, hoje [terça-feira] fizeram um bom treino. Mas vamos ter dois jogos em quatro dias e precisamos de gerir todos os jogadores. Os níveis de energia, os conceitos táticos, o que precisamos de fazer durante o jogo, tudo faz parte. O aspeto emocional é importante mas vamos esperar”, referira Roberto Martínez durante a conferência de imprensa de antecâmara do jogo em Munique, antes de abordar a importância de um triunfo para todos os jogadores.

“A carreira de um jogador é para criar memórias, ganhar títulos, ficar em balneários exigentes. Agora temos uma oportunidade de ganhar um título internacional. Adoro ver as histórias dos nossos jogadores, vê-los a ganhar títulos. Depois, é o compromisso que trazem. Para ganhar títulos, é preciso ter essa experiência, não chega ter valências e talento. A experiência de ganhar são pequenos detalhes em momentos chave. Para nós, é melhor ter jogadores com muitos títulos e essas experiências. Gostei muito da reação do balneário quando eles chegaram e o foco deles foi demonstrar o compromisso”, reforçou a esse propósito.

Ainda assim, existia um ponto paralelo a tudo isso e que passava pelo futuro do selecionador. A fase final do último Europeu tirou crédito a Roberto Martínez, a alteração na liderança da Federação colocou quase esse caminho como um beco sem saída. Se Portugal conquistasse a Liga das Nações, os cenários conjeturados nos últimos dias podiam refrear mas tudo o que não fosse isso deveria significar o fim de linha para o terceiro treinador estrangeiro da Seleção, já com os nomes de José Mourinho (outra vez) e Jorge Jesus perfilados como as hipóteses de sucessão. O espanhol estava a par de tudo, o espanhol não quis responder a nada. Mesmo sabendo o contexto que enfrentava, o foco estava apenas e só na hipótese de ganhar a prova.

“Não sou consensual? No futebol, as opiniões são subjetivas… Isso faz parte de ser um selecionador e do meu trabalho, o importante são os dados. Olho para os 28 jogos que jogámos e a equipa mostrou sempre um bom compromisso. Temos o maior número de pontos, de golos, de vitórias durante os 28 jogos ao longo da última década da Seleção. É nisso que o selecionador se foca. Estamos onde queremos estar, na Final Four da Liga das Nações. Agora precisamos deste jogo para poder continuar o objetivo: ganhar títulos a nível internacional. Temos uma oportunidade aqui, depois daqui a 12 meses há o Mundial. A minha ideia é o contexto global e continuar a trabalhar para preparar a equipa. As opiniões fazem parte”, frisara.

Essas mesmas opiniões poderiam ter tudo preparado quando foi conhecida a equipa inicial. Novidade 1? Vitinha no banco, com Rúben Neves titular. “O onze é importante mas os jogadores para terminar o jogo também são importantes. É uma meia-final, temos de gerir os esforços e os minutos. O Vitinha é importante para terminar o jogo. O Vitinha é a batuta do futebol europeu, essencial mas precisamos de protegê-lo, é um jogador importante para terminar o jogo. Precisamos de utilizar outros jogadores que tiveram mais tempo de preparação no treino”, explicou Martínez. Novidade 2? João Neves aparentemente como lateral. “O Dalot está a recuperar de uma lesão, não joga 90 minutos há muitas semanas e é um risco jogar. O João Neves fez uma época muita boa, fez muitos jogos a lateral direito no PSG e é uma posição que conhece perfeitamente. A sua energia é importante, faz parte do que precisamos fazer”, argumentou o selecionador. Martínez assumiu o risco de olhar para a Final Four em busca do título em vez de centrar atenções apenas na partida da meia-final, até começou a perder mas chegou à reviravolta já com Vitinha em campo e a mostrar como foi vital na parte final do encontro. Goste-se ou não, a noite das facas longas ainda vai ter de esperar.

Ficha de jogo

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Alemanha-Portugal, 1-2

Meias-finais da Liga das Nações

Allianz Arena, em Munique

Árbitro: Slavko Vincic (Eslovénia)

Alemanha: Ter Stegen; Anton (Nmecha, 71′), Robin Koch, Jonathan Tah; Kimmich, Goretzka, Pavlovic (Adeyemi, 71′), Mittelstädt (Gosens, 60′); Wirtz, Leroy Sané (Gnabry, 60′) e Woltemade (Füllkrug, 60′)

Suplentes não utilizados: Oliver Baumann, Alexander Nübel, Pascal Gross, Deniz Undav, Kehrer, David Raum, Robert Andrich e Tom Bischof

Treinador: Julian Nagelsmann

Portugal: Diogo Costa; João Neves (Nelson Semedo, 58′), Rúben Dias, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes; Rúben Neves (Vitinha, 58′), Bruno Fernandes, Bernardo Silva; Francisco Trincão (Francisco Conceição, 58′), Pedro Neto (Diogo Jota, 83′) e Cristiano Ronaldo (Palhinha, 90′)

Suplentes não utilizados: José Sá, Rui Silva, António Silva, Diogo Dalot, Gonçalo Ramos, João Félix, Renato Veiga, Rafael Leão, Pedro Gonçalves e Rodrigo Mora

Treinador: Roberto Martínez

Golos: Wirtz (48′), Francisco Conceição (63′) e Ronaldo (68′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rúben Neves (52′), Tah (80′), Wirtz (84′), Rúben Dias (84′) e Füllkrug (84′)

Havia ainda mais razões para olhar com atenção para um encontro que começou com dez minutos de atraso, depois de uma queda de granizo que atrasou os exercícios de aquecimento. Como poderia a Seleção jogar? Que posições ocupariam os jogadores? Logo a abrir, tudo se foi percebendo: João Neves como um lateral que só pisava terrenos diferentes com bola, Bernardo Silva mais próximo de Rúben Neves no meio com Bruno Fernandes a ser uma referência no primeiro passe para as saídas em transição, Trincão e Pedro Neto a darem largura com Ronaldo no meio. Ainda houve um lance com perigo que poderia ser mais do que uma ameaça, com Goretzka a surgir sozinho na área para um remate fraco à figura de Diogo Costa (4′), mas a Alemanha foi mostrando dificuldades em assentar o seu jogo perante as zonas de pressão que se definiam sem bola.

Era em João Neves que entroncava grande parte do fator surpresa da Seleção. O médio do PSG cumpria essas novas funções quando Portugal defendia, vendo as unidades na frente fazerem uma primeira linha de pressão que tirava referências na saída aos germânicos, mas fazia os movimentos de João Cancelo na melhor versão do Manchester City com Pep Guardiola que começaram a ser transpostos por Roberto Martínez para a equipa nacional – mais por dentro, a criar superioridade no meio, a criar dúvida na organização contrária. A isso juntava-se depois a velocidade de Pedro Neto pela esquerda, com um primeiro lance em que arrancou desde o meio-campo para assistir Ronaldo e ver Ter Stegen fazer a primeira defesa do jogo (7′) e outra arrancada pouco depois que só terminou com um tiro de fora da área que saiu por cima da trave (11′).

Só mais tarde houve Alemanha do meio-campo para a frente, com dois lances quase consecutivos em que valeu Diogo Costa na baliza. Na primeira jogada, Pavlovic foi buscar o espaço entre linhas, caiu na área sem falta de Gonçalo Inácio e Woltemate aproveitou a segunda bola para atirar em arco para o desvio do guarda-redes do FC Porto para canto (19′); pouco depois, Goretzka voltou a ganhar a dividida numa bola confusa para obrigar o número 1 português a nova grande defesa (21′). Estavam dados os alertas à defesa da Seleção, que soube ler esse momento e tentou depois colocar gelo no jogo para estancar esse período de superioridade alemã – ainda que sem resultados práticos. A qualidade do encontro decaiu mas o objetivo foi cumprido.

Apesar de serem duas equipas talhadas para ações ofensivas, o nulo não era desfeito e, mais do que isso, não havia grandes oportunidades de golo. Era quase como se as duas equipas tivessem feito uma paragem para se organizarem perante as nuances estratégicas adversárias, com o intervalo a aproximar-se apenas com um remate de Florian Wirtz em jeito descaído sobre a esquerda que ficou nas mãos de Diogo Costa (43′). Em tudo o resto, pouca bola nos últimos terços, mais aposta em não sofrer do que vontade de marcar e o inevitável nulo ao intervalo que deixava tudo em aberto para os treinadores fazerem retificações no tempo de descanso. Mesmo sem substituições, ambos iriam mexer em posicionamentos para melhorar.

Portugal deixou o primeiro sinal de perigo logo a abrir, com Nuno Mendes a fazer um cruzamento largo ao segundo poste com o arco contrário a uma possível saída de Ter Stegen que Ronaldo desviou no limite ao lado (47′), mas foi a Alemanha que se adiantou no marcador na jogada seguinte, com Wirtz a recuperar uma bola perdida por Francisco Trincão no primeiro terço antes de um cruzamento de Kimmich para o médio do Bayer Leverkusen (pelo menos para já) que surgiu isolado na área depois de um bloqueio de Woltemade em fora de jogo a Rúben Dias para desviar de cabeça para o 1-0 (49′). Entre protestos nacionais, o lance foi mesmo validado. Só aí, com a Seleção em desvantagem, Vitinha aqueceu para entrar por fim em campo com Francisco Conceição e Nelson Semedo. O meio-campo do PSG iria juntar-se? Não, Neves saiu.

Não se pode dizer que Portugal não tenha reagido à desvantagem, com Bruno Fernandes a ter um remate de meia distância ainda desviado num adversário que passou muito perto do poste da baliza de Ter Stegen (56′) e Ronaldo a conseguir surgir em boa posição para desviar de cabeça após canto ao lado (60′), mas o esforço coletivo só foi recompensado pela categoria individual: Francisco Conceição ziguezagueou para o meio, teve o espaço desejado para arriscar ser feliz e fez um golo fantástico para o empate (63′) que projetou a Seleção para o melhor momento na partida, a encostar a Alemanha às cordas sem qualquer capacidade de saída e a conseguir mesmo a reviravolta num grande lance de Nuno Mendes com conclusão de Ronaldo (68′).

A partir daí, Portugal teve outro mérito: ao contrário de tantas outras situações, não deixou de fazer o que tinha de fazer, não recuou em demasia e não abdicou de procurar mais golos, com Francisco Conceição a ter um pique qual velocista após uma jogada iniciada por Vitinha a partir de trás que só terminou com um tiro em arco que rasou o poste (81′). Adeyemi acertou pouco depois no poste, num remate cruzado descaído sobre a esquerda da época (82′), mas nunca houve propriamente uma reação da Alemanha, que ainda viu Ter Stegen a salvar a sua equipa de males maiores com duas defesas fabulosas a remates de Diogo Jota e Francisco Conceição na área (89′). A vitória estava segura, a Seleção está de volta à final da Liga das Nações.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]