O padre católico Albino Meireles, da arquidiocese de Braga, foi esta quarta-feira condenado a uma pena suspensa de prisão de dois anos e dez meses, por um total de 13 crimes de abuso sexual de menores, noticia o Correio da Manhã.
Albino Meireles era um dos oito nomes que constavam da lista de alegados abusadores sexuais de menores. Esta lista foi entregue ao arcebispo de Braga em março de 2023 pela comissão independente que estudou a realidade dos abusos na Igreja e que divulgou o seu relatório final no início daquele ano.
Dos oito nomes, Albino Meireles foi o único que, segundo anunciou a arquidiocese nesse mês de março, foi “afastado preventivamente” das suas funções — já que os outros correspondiam a padres que ou já tinham falecido, ou não pertenciam à arquidiocese, ou já tinham sido investigados e ilibados ou não tinha sido possível identificar corretamente.
A identidade do sacerdote já tinha chegado ao conhecimento do arcebispo de Braga, José Cordeiro, no ano anterior. O arcebispo tomou, então, a decisão de encaminhar para a Polícia Judiciária os indícios que recebeu, o que levou as autoridades a investigar o padre pelos crimes de abuso sexual de menores e de pornografia de menores.
Em abril de 2023, um mês depois do anúncio público do seu afastamento, o sacerdote de 45 anos foi detido em casa pelas autoridades, que realizaram buscas para procurar provas dos crimes de que era suspeito — e acabaram por encontrar uma arma ilegal na sua posse. A polícia apreendeu também vários equipamentos informáticos.
Albino Meireles, que era pároco em Calvos e Serzedelo, no concelho de Guimarães, usava as redes sociais para contactar crianças para lhe enviarem imagens de teor sexual. Por outro lado, também cometeu crimes de abuso sobre três irmãos numa praia na Póvoa de Varzim.
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De acordo com o Correio da Manhã, ficou comprovado na justiça que o sacerdote se masturbou em frente às três crianças — dois rapazes e uma rapariga com idades de 1, 4 e 10 anos — numa praia em julho de 2015. Já depois disso, entre 2016 e 2018, o padre usou as redes sociais para pedir a um rapaz de 15 anos para lhe enviar fotografias dos genitais.
Depois de receber os dados enviados pela Igreja, a Polícia Judiciária conseguiu chegar às vítimas e reconstituir os crimes, que o sacerdote acabaria por admitir. O julgamento decorreu esta quarta-feira em Braga.
Em março de 2023, quando afastou o sacerdote do exercício público das suas funções, a arquidiocese de Braga reafirmou o “compromisso em acolher e escutar as vítimas, tratando todos os casos com critérios inequívocos de transparência e justiça, contribuindo assim para a máxima reparação possível do mal sofrido”.
A comissão independente, liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht e composta pelo psiquiatra Daniel Sampaio, pela socióloga Ana Nunes de Almeida, pelo antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, pela assistente social Filipa Tavares e pela cineasta Catarina Vasconcelos, foi incumbida pela Conferência Episcopal Portuguesa de levar a cabo um estudo da realidade dos abusos sexuais de menores na Igreja em Portugal desde a década de 1950 até aos dias de hoje.
O trabalho desenvolvido entre o final de 2021 e o início de 2023 resultou num longo relatório, publicado em fevereiro de 2023, que, a partir de 512 testemunhos validados, estimou em 4.815 o número mínimo de vítimas de abusos no contexto da Igreja Católica desde 1950.
Depois de entregue o relatório, num processo não isento de controvérsia, a comissão independente entregou aos bispos portugueses a lista dos nomes de sacerdotes identificados pelas vítimas que relataram os seus casos aos elementos da comissão. Vários destes sacerdotes — pelo menos os que foi possível identificar — foram afastados preventivamente das suas funções, mas a grande maioria já regressou ao ativo, quase sempre por ter sido impossível provar os abusos ou por os casos já terem ultrapassado o prazo de prescrição.
No final do processo, extinta a comissão independente, a Conferência Episcopal Portuguesa criou um novo grupo de trabalho — o Grupo VITA —, coordenado pela psicóloga Rute Agulhas, que tem vindo a continuar o trabalho de acompanhamento das vítimas de abuso, a receber denúncias, a dar formação aos agentes pastorais na área da proteção de menores e, mais recentemente, a trabalhar no processo de atribuição de compensações financeiras às vítimas. Em maio, o Grupo VITA revelou ter recebido 78 pedidos de compensação financeira nos últimos dois anos.