Milhares de pessoas concentraram-se na Praça de Espanha, em Madrid, na manhã deste domingo, 8 de junho, num protesto convocado pelo Partido Popular (PP) contra supostos casos de corrupção envolvendo o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez. De acordo com a autarquia de Madrid, terão sido 45 mil a 50 mil pessoas a participarem do protesto — já o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, durante o seu discurso, afirmou estarem presentes 100 mil pessoas. Esta é a sexta manifestação convocada pelo PP desde o início da legislatura, no verão de 2023, e pode ser a segunda maior desde novembro de 2023, quando 80 mil pessoas protestaram nas Portas do Sol, em Madrid.
???? DIRECTO | Miles de personas se concentran ya en la Plaza de España de Madrid a la espera de que arranque, a las 11.00, la manifestación convocada por el PP contra el presidente del Gobierno https://t.co/V4uzps8sjR pic.twitter.com/wSXyCRofPp
— EL PAÍS (@el_pais) June 8, 2025
A partir das 11h (10h em Lisboa), os manifestantes tomaram as ruas que circundam a praça, com bandeiras de Espanha nas mãos sob um calor acima dos 30 graus, diz o El País. Diversos membros da oposição discursaram, entre eles Feijóo, que chegou a pedir novas eleições.
“Estamos aqui para que sejam vocês a falarem alto e claro frente ao presidente, que se esconde. Aqui está um país que não o faz. Frente ao governo que nos mente, aqui estamos, os espanhóis que não se calam. E por isso mais de 100 mil pessoas estão cá no mês de junho, com este calor. A Espanha não é um quintal, não somos servos de ninguém”, afirmou Feijóo. “Senhor Sánchez, deixe de se esconder, mentir e fugir. A Espanha já sabe quem és e quem são os seus. Por isso, digo: renda-se à democracia. Convoque eleições, queremo-las já. Porque ninguém votou por isto. Ninguém, nem os seus”, disse ainda o líder do PP. “Este governo manchou tudo: a política, as instituições, a separação de poderes, a liberdade de expressão e a convivência”.
Antes a Presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, subiu ao palanque na Praça de Espanha. “A Espanha entrou pelo caminho perigoso da ditadura das minorias, dos ressentidos, dos sobreviventes, do público para o privado e que nada mude”, criticou. “Quando a democracia popular suplanta a liberal, entramos na ditadura. A Espanha não é plurinacional, não somos estrangeiros em nossa casa”, afirmou a líder madrilenha. “A última coisa que faltava à Espanha era um governo corrupto sem princípios nem amor pela sua nação, que fosse capaz de colocar à frente pessoas capazes de criar mais corrupção para tapar a corrupção — a isso chama-se máfia”, disse Ayuso.
O nome de Pedro Sánchez esteve envolvido em diversos casos de suspeita de corrupção nos últimos anos, como em 2024, quando a justiça espanhola investigou a mulher do primeiro-ministro, Begoña Gómez. A manifestação deste domingo, com o lema “Mafia ou Democracia”, foi convocada depois do último escândalo, chamado pela imprensa espanhola “Caso Leire”. Trata-se da publicação de áudios e reuniões da jornalista e ex-militante do PSOE, Leire Diez, que terá oferecido tratamento preferencial a empresários e advogados em troca de informações comprometedoras sobre os comandantes da Unidade Operativa Central (UCO) que investigam casos relacionados com a família de Pedro Sánchez.
Num dos áudios, a jornalista pede a empresários com causas judiciais informações sobre o tenente coronel Antonio Balas e o fiscal José Grinda, diz o El Español. Em sua defesa, Leire Diaz alega que investigava para um livro sobre a corrupção no Estado e, depois de ser submetida a um processo disciplinar, pediu para sair do PSOE.
O PP conseguiu em 2023 e 2024 mobilizar centenas de milhares de pessoas em manifestações contra o Governo, convocadas por causa da amnistia para independentistas catalães que Sánchez negociou com partidos da Catalunha para conseguir ser reconduzido primeiro-ministro. A essas manifestações juntou-se o terceiro maior partido no parlamento, o Vox, de extrema-direita, assim como os antigos líderes do Governo e do PP José Maria Aznar e Mariano Rajoy, que já anunciaram que voltam a sair à rua este domingo.
Sánchez, primeiro-ministro desde 2018, voltou a ser eleito para o cargo pelo parlamento espanhol em novembro de 2023, por uma ‘geringonça’ de oito partidos. Desde então, pessoas próximas do primeiro-ministro, como a mulher ou o irmão, e antigos membros do Governo e da direção do PSOE foram envolvidos em processos judiciais por suspeitas de corrupção. A polémica mais recente, da militante do PSOE Leire Díez, tem desencadeado reações e apelos a Sánchez que vão para além da oposição de direita.
Dirigentes do PSOE e do Somar, o partido de esquerda que está na coligação de Governo com os socialistas, consideraram grave o caso Leire Díez e pediram “contundência” ao partido na resposta. O presidente do governo regional de Castela-La Mancha, o socialista Emiliano García Page, pediu mesmo para o partido avançar com ações legais contra Leire Díez, para afastar qualquer suspeita em relação ao PSOE, e a convocatória de eleições.
A ministra do Trabalho e dirigente do Somar, Yolanda Díaz, pediu “máxima contundência” a Sánchez e ao PSOE perante factos que considerou serem “de extrema gravidade”. Outros partidos da ‘geringonça’ parlamentar pediram ao primeiro-ministro para ir ao parlamento dar explicações. Pedro Sánchez não se pronunciou até agora sobre este caso.