Mariana Leitão é, até ver, a única candidata à liderança da Iniciativa Liberal — e agora, com a data da convenção que elegerá a próxima direção já escolhida, torna-se mais difícil que venha a ter concorrência. Com a convenção marcada para 19 de julho, as correntes críticas da atual cúpula do partido queixam-se de falta de tempo para preparar candidaturas sérias e que possam fazer frente à da atual vice-presidente do partido. Já na direção assegura-se que há “mais do que tempo” para que outros possam avançar — sobretudo se forem repetentes — mas Rui Malheiro, que se candidatou este ano contra Rui Rocha, já decidiu que não vai candidatar-se.

“Com a consciência de que a união do partido neste momento é fundamental para ultrapassar uma crise tão repentina como desnecessária, sabendo que o foco do partido neste momento deverá estar fora de portas e não dentro delas, com o sentido de responsabilidade (…), comunico que não me apresentarei como candidato”, lê-se numa nota de Malheiro a que o Observador teve acesso, em que agradece a quem o incentivou a recandidatar-se “desde o primeiro minuto”.

No mesmo texto, Malheiro frisa que a data escolhida para a próxima convenção da IL acontecerá “apenas cinco semanas após o Conselho Nacional que definiu o seu regimento”, no passado domingo, e que a demissão inesperada de Rui Rocha pode prejudicar o partido nas eleições autárquicas. Além disso, argumenta, o facto de nenhum dos vice-presidentes ter decidido liderar o partido de forma interina “revela, no mínimo, pouca preocupação com estas eleições”.

Feitas as contas, e constatando que o resultado do partido a 18 de maio “ficou aquém” e mereceria “uma reflexão ponderada, sem a pressão de umas eleições autárquicas”, que assim sendo não acontecerá, Malheiro decidiu ficar de fora da corrida.

Data provocou discussão intensa

A data da Convenção Nacional terá sido, segundo apurou o Observador, o ponto que foi objeto de uma discussão mais “intensa”, durante um Conselho Nacional que se prolongou durante o domingo inteiro. Ainda esteve em cima da mesa uma proposta para que a convenção se realizasse apenas em setembro, mas a maioria conseguiu fazer vingar aquela que era a vontade da direção: ir a votos já em julho e não deixar o partido sem liderança até às eleições autárquicas.

A própria votação deixou parte dos conselheiros nacionais desconfortáveis, uma vez que os votos da direção cessante contribuíram para a vitória da data de julho — graças a um parecer do Conselho de Jurisdição que validou essa participação.

“Marcar convenção para daqui a cinco semanas não é dar tempo às diferentes alternativas”, nota um conselheiro nacional. “Não é impossível, mas dificulta o trabalho”, que ainda envolveria trabalhar numa moção estratégica, reunir apoios e entrar em contacto com as diversas sensibilidades do partido — uma série de tarefas que os mais críticos acreditam que só quem já tem ferramentas para isso, como Leitão, conseguirá fazer atempadamente.

“Parece difícil que haja tempo para que avancem candidaturas preparadas e com qualidade“, nota outro conselheiro, que era favorável a uma marcação da convenção para mais tarde. Além disso, nota-se, 19 de julho será já uma data de “pico de férias“, o que poderá traduzir-se numa participação mais reduzida.

Na direção, contrapõem-se argumentos: além de ser importante não deixar a IL sem líder durante tanto tempo, ainda para mais com um processo autárquico em mãos, “há mais do que tempo para que apareçam todas as candidaturas que quiserem”, diz um dirigente.

Outro dirigente acrescenta que o argumento sobre a falta de tempo para se prepararem até poderia ser compreensível — mas não no caso de quem esteve com a candidatura de Rui Malheiro, no movimento “Unidos pelo Liberalismo”, que obteve 26,6% contra Rui Rocha, uma vez que já desse lado já existe a experiência de uma candidatura à liderança e uma estrutura montada ainda há poucos meses (a última convenção aconteceu em fevereiro).

Dado o calendário mais apertado do que parte do partido gostaria, as atenções viraram-se assim para Rui Malheiro, que em tese teria mais facilidade em relançar a sua candidatura. Mas antes do anúncio da sua decisão, fonte próxima do ex-candidato já parecia sugerir que o calendário também não agradaria deste lado: “Se acham que cinco semanas é o ideal para se ter uma reflexão alargada… é a leitura deles”.

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Leitão promete moção diferente e adaptada a nova realidade

Na IL mantém-se, de qualquer forma, a ideia de que a melhor forma de Leitão garantir que não tinha concorrência seria mesmo “abrir” a sua Comissão Executiva (a direção da IL) à “auscultação” e até mesmo à “inclusão” de elementos de sensibilidades diferentes, rompendo de forma significativa com as lideranças anteriores.

Mas Mariana Leitão já disse ver como positivo o facto de poder vir a ter concorrência, mesmo sendo vista como um rosto relativamente consensual na IL — o seu perfil agrada mesmo a setores mais críticos da liderança atual; o rótulo de “candidata da continuidade” é que nem tanto. A candidata terá, ainda assim, garantido durante o Conselho Nacional que apresentará uma moção estratégica bastante diferente e adaptada à nova realidade política, que quer ver legitimada na próxima convenção.

A reflexão sobre os resultados das eleições também foi incluída neste Conselho Nacional, em que ainda se discutiram as causas da demissão de Rui Rocha, assim como o seu timing, e a recusa dos vice-presidentes atuais em assumir a liderança do partido, uma vez que muitos conselheiros nacionais entendiam que continuam legitimados, já que foram eleitos há quatro meses.

Ainda assim, não só a maioria entende que a solução mais clara e que ajuda o partido a inaugurar um capítulo novo, com mais “energia”, é eleger já uma liderança nova como os críticos admitiram que, tendo sido confrontados já com o “facto consumado” da demissão de Rui Rocha, a análise do resultado das últimas eleições acabou por ficar relativamente esvaziada.

O ponto que acabou por satisfazer várias das sensibilidades representadas no Conselho Nacional, segundo ouviu o Observador, foi o fim da tese de que com a demissão de Rui Rocha também os restantes órgãos do partido, como o próprio Conselho Nacional, cairiam.

“Houve um grupo alargado de conselheiros que defenderam que não fazia sentido”, explica um deles, depois de Bernardo Blanco (cabeça de lista da maior lista do CN) ter prometido em público que apresentaria uma lista “agregadora”. A ideia de eleger uma nova composição para este e outros órgãos extra-direção caiu, assim, por terra, não tendo sido incluída no regimento da próxima convenção.