Os últimos dias do Mundial de Clubes têm tornado evidente o que já parecia expectável antes da a competição começar: as equipas sul-americanas e africanas olham para a prova como um objetivo concreto, enquanto que as equipas europeias olham para a prova como uma espécie de ritual de passagem entre o fim de uma temporada e o início de outra. Em resumo, para usar um eufemismo, têm existido várias surpresas.

Parte disso, de forma natural, resume-se também no Grupo F. Borussia Dortmund e Fluminense empataram sem golos na primeira jornada, algo que fez com que a vitória do Mamelodi Sundowns de Miguel Cardoso contra o Ulsan HD garantisse o primeiro lugar isolado. Este sábado, no TQL Stadium de Cincinnati, os sul-africanos defrontavam os alemães naquele que era teoricamente o jogo mais complicado dos obrigatórios três que terão de fazer no Mundial de Clubes — mesmo que soubessem que um eventual e surpreendente triunfo assegurasse desde logo o apuramento para os oitavos de final.

“Às vezes acusam-me de ser negativo e não é bem isso. Eu não sou negativo, sou muito realista e não tenho medo de dizer as coisas como elas são. Surpresas? Acho que muitas pessoas não conhecem o Botafogo, é o campeão brasileiro e o vencedor da Libertadores do ano passado. Mas às vezes as pessoas confundem um pouco as coisas. Eles tiveram 25% de posse de bola no jogo contra o PSG e esse resultado pode acontecer uma vez em cada dez. O que quero dizer é que, em dias normais, os mais fortes impõem a sua força. Mas as surpresas acontecem sempre. E essas surpresas acontecem quando a convicção mental da equipa é tão forte, quando a conexão emocional é tão forte, que a magia pode acontecer”, explicou o treinador português na antevisão.

Miguel Cardoso fazia essencialmente uma alteração face ao onze inicial que venceu o Ulsan HD, trocando Arthur Sales por Tashreeq Matthews no ataque, enquanto que Niko Kovac apostava em Jobe Bellingham, Felix Nmecha e Yan Couto em detrimento de Adeyemi, Sabitzer e Julian Adeyemi. Do lado dos sul-africanos, mantinha-se o crónico Iqraam Rayners, avançado que marcou três golos na primeira jornada — ainda que só um tenha sido validado.

Em Cincinnati, a magia de Miguel Cardoso ainda chegou a ser protagonista. Depois de Tashreeq Matthews ter a primeira situação de perigo, num lance em que rematou para uma defesa atenta de Kobel (5′), Lucas Ribeiro colocou mesmo os sul-africanos a vencer: o brasileiro recebeu na zona do meio-campo, livrou-se de Jobe Bellingham e arrancou sozinho rumo à baliza, atirando certeiro na cara do guarda-redes (11′).

Pouco depois, porém, o guarda-redes Ronwen Williams deitou tudo a perder ao oferecer a bola a Felix Nmecha, que só precisou de encostar para empatar o jogo (16′). O Mamelodi Sundowns sentiu muito o golo sofrido, numa altura em que parecia estar ainda a conseguir controlar as ocorrências, e os alemães aproveitaram para cavalgar a onda: Guirassy fez a reviravolta já depois da meia-hora (34′), com um cabeceamento imperial ao segundo poste, e Jobe Bellingham aumentou a vantagem com um remate na área (45′). Ao intervalo, o Borussia Dortmund estava a vencer tranquilamente.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e o Borussia Dortmund acabou por chegar à goleada com um autogolo de Khuliso Mudau (60′), depois de um cruzamento de Daniel Svensson, numa fase em que o Mamelodi Sundowns até estava a tentar reagir — acertou na trave por intermédio de Iqraam Rayners (55′) e logo depois viu um livre direto de Mokoena passar muito perto da barra (57′).

Os sul-africanos conseguiram mesmo reduzir a desvantagem, com o crónico Rayners a marcar na sequência de um livre cobrado na esquerda (62′), e Niko Kovac reagiu com as entradas de Sabitzer e Chukwuemeka. Já mesmo à beira dos descontos, Lebo Mothiba ainda foi a tempo de reduzir novamente (90′), com o Mamelodi Sundowns a vender muito cara a derrota frente ao Borussia Dortmund, que assumiu agora a liderança do Grupo F e deixou o apuramento para os oitavos de final praticamente assegurado.

A pérola

Num jogo em que marcou novamente e em que ajudou a equipa a carimbar a primeira vitória no Mundial de Clubes, seria ingrato não evidenciar Serhou Guirassy. O avançado guineense fez o segundo golo do Borussia Dortmund, empurrando a equipa para a reviravolta num lance que começou, continuou e finalizou, protagonizando mais um momento de total superioridade no jogo aéreo. Leva 35 golos na atual temporada e não parece dar a ideia de estar pronto para acalmar.

O joker

Depois das boas indicações que já tinha deixado na jornada inaugural, contra o Ulsan HD, Lucas Ribeiro voltou a sublinhar que é mesmo o melhor elemento da equipa de Miguel Cardoso. O médio brasileiro brilhou no golo que ainda fez o Mamelodi Sundowns sonhar, com uma arrancada que deixou todos para trás e só terminou no fundo da baliza de Gregor Kobel, e foi novamente o total e absoluto equilíbrio de uma equipa que compensa no coletivo o que lhe falta a nível individual.

A sentença

Com este desfecho, o Borussia Dortmund ficou no primeiro lugar isolado do Grupo F e tem o apuramento para os oitavos de final do Mundial de Clubes praticamente assegurado, já que só terá de defrontar o modesto Ulsan HD na última jornada. Já o Mamelodi Sundowns, que tem três pontos, fica à espera do resultado entre os sul-coreanos e o Fluminense, sendo provável que discuta diretamente o segundo lugar do grupo com os brasileiros no próximo jogo.

A mentira

Não, a vitória do Mamelodi Sundowns contra o Ulsan HD na primeira jornada do Mundial de Clubes não foi apenas o triunfo dos menos maus contra os muito maus. A equipa de Miguel Cardoso mostrou novamente que é bem organizada, que tem qualidade nas dinâmicas e nos processos e nunca desistiu de correr atrás do resultado contra um Borussia Dortmund que, a dada altura, foi vítima da própria sobranceria.