O bastonário da Ordem dos Médicos sai em defesa dos trabalhadores do INEM depois de conhecido o relatório da IGAS (Inspeção-Geral das Atividades em Saúde), que concluiu que a morte de um homem de 53 anos não teve socorro prestado “num tempo mínimo e razoável” pelo INEM durante a greve de técnicos em 2024. Carlos Cortes considera que existe um “lamentável folhetim” em que trabalhadores estão a ser um “bode expiatório” e pede que sejam “responsabilizados os verdadeiros autores das falhas”.
Numa publicação na rede social Facebook — a que chamou “INEM: a estranha lógica de culpar e sacrificar quem trabalha” —, Carlos Cortes assumiu não conhecer o relatório em detalhe, apenas o comunicado, mas manifestou uma “profunda perplexidade” numa situação que “desafia a lógica mais elementar”.
Começou por realçar que a greve em causa era “amplamente anunciada, previsível e do conhecimento geral”, para logo ironizar: “Exceto, ao que parece, das autoridades responsáveis por garantir o funcionamento básico e mínimo do sistema nacional de emergência médica.”
O bastonário da Ordem dos Médicos descreve o dia da greve como tendo sido de “milhares de chamadas sem resposta, caos instalado, angústia generalizada, socorro gravemente comprometido e, no meio deste cenário dramático, uma vítima mortal conhecida, em Pombal”.
“O absurdo, de contornos quase kafkianos, surge quando, perante esta tragédia, se decide responsabilizar precisamente aqueles que, em pleno caos e condições particularmente adversas, procuraram cumprir o seu dever profissional e ético. Um médico e uma técnica de emergência, que aceitaram estar de serviço nesse dia conturbado, são inesperada apontados como culpados, transformados em verdadeiros bodes expiatórios numa inversão chocante da realidade”, critica Carlos Cortes.
O bastonário, na mesma publicação, ainda acrescentou: “É profundamente revoltante e desonesto que, num país onde frequentemente os verdadeiros responsáveis são poupados às críticas e às consequências, sejam precisamente os trabalhadores, os que enfrentam diariamente dificuldades reais, a ser sacrificados no altar das conveniências do momento.”
Carlos Cortes considera que é “imperioso e urgente pôr fim a esta lógica perversa”, alertando para a necessidade de as instituições públicas assumirem o “dever de prestar contas com transparência e seriedade”. “Que sejam identificados e responsabilizados os verdadeiros autores das falhas, não aqueles que cumpriram, apesar das adversidades, a missão de salvar vidas, indo ao encontro dos doentes”, pede, sublinhando que “a saúde pública exige rigor, justiça e transparência, não sacrifícios simbólicos nem bodes expiatórios”.
Esta semana, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) terminou as investigações de três dos 12 casos de mortes que ocorreram durante a greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar do INEM a 4 de novembro de 2024, e concluiu que uma morte, a de um homem de 53 anos do concelho de Pombal, esteve relacionada com o atraso no socorro.
Segundo o relatório da IGAS a que o Observador teve acesso, a morte do homem de 53 anos “poderia ter sido evitada caso tivesse havido um socorro, num tempo mínimo e razoável.” Concluiu-se que a vítima, que sofreu um enfarte agudo do miocárdio, teria hipóteses de sobreviver se tivesse sido ativado o transporte “através de uma Via Verde Coronária para um dos hospitais mais próximos, onde poderia ser submetido a angioplastia coronária numa das respetivas unidades hemodinâmicas.”
IGAS confirma uma morte por atraso no socorro durante greve do INEM