No âmbito de um processo de aquisição que tem em curso, a Unbabel, empresa portuguesa que atua na área de tradução automática, encontrava-se a negociar uma nova ronda de financiamento. A Iberis Capital, uma das investidoras, que detém menos de 10% da tecnológica, deveria participar, mas recuou, avançou esta sexta-feira o Jornal Económico e confirmou o Observador.

De acordo com esse jornal, os prazos para celebrar os acordos finais expiraram e a gestora portuguesa de private equity (capital privado) terá decidido não avançar porque também não terá sido informada sobre “passivos existentes inesperados que impactam negativamente as Entidades do Grupo (por exemplo, passivos fiscais e warrants existentes, entre outros)”.

Numa declaração enviada ao Observador, Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, diz que a empresa “tem estado com um processo de aquisição em curso e está em negociações avançadas com várias partes [para ser comprada]”. Confirma que “um investidor optou por se afastar à última hora”, ainda que não mencione diretamente a Iberis Capital. “Essa decisão não alterou o nosso foco. Continuamos a avançar e partilharemos mais informações na devida altura”, salienta, não dando mais detalhes.

O Observador questionou também, por escrito, Vasco Pedro sobre os alegados “passivos existentes inesperados”, bem como sobre o estado das contas da Unbabel e o estado em que está o processo de reestruturação que começou em janeiro. Não foi possível obter respostas a nenhuma destas perguntas. Contactada pelo Observador, a Iberis Capital, que ao Económico já tinha optado por não prestar declarações, não comentou.

A Iberis Capital participou na última ronda de investimento fechada pela Unbabel, em 2023, quando a tecnológica garantiu 21 milhões de dólares (19,5 milhões de euros) para “impulsionar a estratégia de crescimento global, bem como para fortalecer a sua posição no caminho da rentabilidade”. Na altura, Vasco Pedro indicou também que o financiamento iria possibilitar dar continuidade à estratégia de aquisições.

Em 2023, a Unbabel comprou a alemã EVS Translations e a israelita Bablic. Anteriormente, em 2021, já tinha adquirido a Lingo24, uma ‘rival’ especializada em tradução com base em inteligência artificial.

Portuguesa Unbabel levanta financiamento de 21 milhões de dólares

No início deste ano, em janeiro, o Observador avançou que a Unbabel estava a reduzir a equipa. Vasco Pedro confirmou que estava em curso “um processo de reestruturação”, que visava “adaptar a empresa à evolução do mercado e prepará-la para futuras oportunidades de investimento em P&D [pesquisa e desenvolvimento] e crescimento”. A reestruturação foi enquadrada num mercado tecnológico “em rápida mudança, com a adoção cada vez maior da IA [inteligência artificial] na tradução”.

Em fevereiro, a agência Lusa avançou que o processo resultou na saída de 66 pessoas da empresa a nível global, cerca de 25% do total dos trabalhadores. Em Portugal, foram abrangidos 35 funcionários num processo de despedimento coletivo. Doze chegaram a acordo com a empresa logo em janeiro, enquanto outras 20 recorreram à Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT) e chegaram a acordo somente no final do mês seguinte.

Unbabel reduz equipa. Tecnológica portuguesa fala “processo de reestruturação” em curso

Esta reestruturação foi a segunda em menos de cinco anos. Em abril de 2020, a Unbabel despediu 35% (mais de 80 dos 250 trabalhadores que tinha à época) da equipa. Nessa altura, o CEO e cofundador da tecnológica disse que a reestruturação tinha como objetivo “garantir a continuidade e a sustentabilidade da empresa”. Mais tarde, já em 2021, Vasco Pedro justificou, em entrevista ao Observador, a decisão de reduzir a equipa como necessária para “garantir a continuidade e a sustentabilidade da empresa”. “Tomámos as decisões que tínhamos de fazer para pôr a empresa na melhor posição e estamos a ver isto consistentemente neste momento nos resultados que estamos a ter e nos movimentos que estamos a conseguir fazer. Não teria sido possível se não tivéssemos agido rapidamente”, afirmou.

Despedimentos de 2020 foram “necessários para o momento bom que se está a viver na Unbabel”, diz fundador