Foi no passado dia 3 de julho, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, que teve lugar a entrega de prémios da 1.ª edição dos Prémios Zinkers, em Portugal. Esta é uma iniciativa da Fundação Repsol que já conta com cinco aniversários celebrados em Espanha. No país vizinho, os números falam por si e só este ano foram 5.852 escolas e 8.570 professores registados. Com o objetivo de promover e reconhecer o esforço e empenho de professores, alunos e escolas na transição energética, o projeto incentiva a utilização de metodologias ativas em contexto de sala de aula, na abordagem de temas como a energia, a sustentabilidade e os objetivos de desenvolvimento sustentável. Através de uma plataforma digital, os programas educativos Zinkers reúnem conteúdos e atividades de apoio ao ensino básico relacionados com o tema da transição ecológica. Tudo isto para que, na passada quinta-feira, pudessem ser reconhecidos os melhores projetos na área da sustentabilidade, alterações climáticas e transição energética das escolas do país.

1.200 escolas registadas e 30.000 alunos envolvidos do 1º, 2º e 3º ciclo. Este foi o balanço deste ano. E a tarde começou precisamente por aí, por celebrá-lo nas palavras de António Calçada, Diretor-Geral da Fundação Repsol. “É uma honra e um privilégio poder estar aqui e pensar que há aqui muita energia e muito trabalho para que este dia seja possível. Quero felicitar os professores, os 2.000 professores e professoras, que estão por detrás de 1.200 escolas que têm, aproximadamente, 30.000 alunos envolvidos. Para todos estes, eu peço o maior dos aplausos”, felicitou o diretor, esclarecendo: “A função que têm os Prémios Zinkers é a de tentar levar conhecimento científico rigoroso, simples, aos mais jovens. Em Espanha temos mais de seis mil centros educativos, com quase oito mil docentes e 200.000 alunos. Em Portugal, o que podemos dizer é que se fez muito em muito pouco tempo. A Zinkers cresceu muito e cresceu bem, nesta primeira edição. A ideia é conseguirmos continuar a crescer, de uma forma inteligente”. Com a missão de levar a cabo o discurso inaugural, António Calçada aproveitou a oportunidade para deixar um lembrete: a transição energética é um processo. Processo esse que levará o seu tempo. Ainda assim, esse tempo traz consigo uma urgência e educar as gerações futuras faz parte da missão.

António Calçada, Diretor-Geral da Fundação Repsol

Antes dos prémios, o debate

A tarde foi passada a olhar para o futuro. Num mundo cada vez mais digital, que impacto poderá ter a Inteligência Artificial neste processo? “Inteligência Artificial e Digitalização: os impactos na educação, empresas e sociedade” foi o nome da primeira mesa redonda do dia, que contou com a moderação da host do evento, Sílvia Alberto, e a presença de Marco Bento, Professor na Escola Superior de Educação em Coimbra, Maria Angeles Arroyo, Responsável do Centro de IA Generativa Repsol, Rute Xavier, Professora da Católica Lisbon School of Business and Economics, e Gonçalo Parreira, Membro do Conselho Executivo da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP).

Ao longo de toda a conversa, ficaram presentes algumas ideias: a primeira foi de que a escola precisa de acompanhar toda a transformação a que assistimos. A segunda, foi que o futuro já não pode ser travado: “A IA está a exponenciar todos os problemas que nós já tínhamos previamente. Ou seja, grande parte da tónica está a ser colocada, sistematicamente, em cima da tecnologia. Mas é uma questão meramente pedagógica. Os problemas que temos em processos de avaliação, nas abordagens curriculares… a IA está a colocar tudo a nu. Vivemos numa sociedade altamente industrializada e avançada, com uma escola que vive em redomas”, começa por dizer Marco Bento, exemplificando: “Eu para aprender a nadar não sou deixado em mar alto. Sou acompanhado, sou colocado em aulas de natação até conseguir estar sem pé, a nadar. A escola precisa de educação, a escola é educação, e não podemos fechar os olhos a esta realidade. Eu não posso parar o vento com as mãos. Os tempos de aula, o currículo, os processos de avaliação, o modelo como nós o temos… temos de pensar que, provavelmente, as coisas não vão poder continuar a ser assim. O tempo de ação era ontem”.

Se a escola ainda não está devidamente preparada, estarão os pais um passo à frente neste sentido? Gonçalo Parreira acredita que ainda há muito a fazer. “Há alguns pais que estão preparados para estas mudanças, mas são poucos. E a escola, em si, não me parece preparada para mais este desafio da Inteligência Artificial. A escola precisa de compreender que a escola é um todo. É preciso formação para todos. Para os pais, para os alunos, para os professores, para os assistentes e todos os profissionais da escola. Porque os professores que não conseguirem acompanhar os alunos, serão ultrapassados. Os pais que não conseguem acompanhar os filhos, já foram. Temos de nos sentar e perceber: o que é que podemos fazer para a escola ser inclusiva e do presente?”.

O que pode ser feito para que os nossos decisores do futuro possam estar mais preparados? Como escola, como sociedade, o que podemos esperar? “Nós temos de pensar que estamos a formar filhos, alunos, que vão trabalhar daqui a 20 anos. Hoje, já trabalhamos com Inteligência Artificial. Não é expectável, de todo, que as crianças que estamos a formar hoje não vão trabalhar com Inteligência Artificial. Não faz sentido proibir, faz sentido estimular a sua utilização em bom, com sentido crítico. E isto é o melhor dos dois mundos: quando temos uma ferramenta que potencia a produtividade, com um humano que tem sentido crítico e consegue usar da melhor forma essa mesma ferramenta”, palavras de Rute Xavier, que em muito espelharam as dos colegas.

A conversa foi bastante produtiva e ainda sobrou tempo para olharmos para as empresas. Como ficam no meio de tudo isto? Sendo organismos vivos e em constante mudança e adaptação, aqui pudemos perceber que o avanço já é bastante mais significativo. “Houve uma mudança de paradigma no mundo empresarial e no campo pessoal. Na Repsol, apostamos em várias iniciativas tecnológicas, colocando sempre as pessoas no centro. Explicar-lhes como a tecnologia nos aumenta, capacitando-as. Muitas vezes surge a ideia de que a IA nos vai roubar o trabalho. Nós mostramos-lhes o contrário. Ajudamos a entender como mudar as coisas, com a noção de que incorporá-la no dia a dia requer tempo”, partilhou Maria Angeles Arroyo, deixando no ar esta ideia: por muito que a tecnologia se vá impondo, com a passagem do tempo, será sempre necessário que se alie à componente que não é capaz de substituir: a humana.

Já na segunda mesa-redonda do dia – “Educar para o futuro, os desafios” -, foi tempo de chamar a palco David Sousa, Diretor-Geral da Direção-Geral da Educação (DGE), Helena Freitas, Professora Catedrática de Biodiversidade e Ecologia, da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, e Nilza de Sena, Secretária-Geral do Conselho Nacional de Educação. Os três oradores foram bastante perentórios e em todas as intervenções, uma palavra saltou recorrentemente para o centro do debate: humanizar. Este será o verbo para um futuro que se quer de ação. “Uma das maiores questões sobre como educar o futuro das novas gerações é humanizando-as. Temos que humanizar estas gerações. Quando me perguntam, como é que se educa para o futuro? Humanizar. Empatia. Ética. São as palavras-chave”, partilhou Nilza de Sena.

Já para David Sousa, o futuro também passará por aqui, sempre cientes dos desafios que ele também trará consigo, e confiantes do papel da educação em todo o processo: “A minha expectativa é, com o trabalho que estamos a fazer nas escolas, termos adultos que sejam simultaneamente competentes, éticos, solidários e conscientes do papel que têm no mundo. Eu tenho muita confiança na escola que temos, nos professores que temos, na comunidade educativa que temos. Mas sabemos que temos um conjunto de desafios pela frente”.

Porque falar nos tempos que se avizinham se torna indissociável de falar em sustentabilidade, em consciencialização, Helena Freitas aproveitou o momento para relembrar que a transição digital e a transição ecológica são “as duas agendas que inspiram e continuarão a inspirar as próximas décadas e que obrigam à formulação de um conjunto de competências que são desafiantes. Porque elas assentam nuns pressupostos do passado, para um exercício do futuro que nos chama a todos e para o qual não estamos preparados”. Assim, é preciso reconectar, é preciso “preparar o conhecimento para que nos ajude a encontrar as soluções. Estamos todos convocados para este processo que nos ajuda a preparar competências para o futuro”, rematou.

Dar lugar ao futuro, premiando as novas gerações

Após duas mesas-redondas elucidativas e que muniram todos os presentes de mais ferramentas e reflexão, foi altura de seguir para o momento mais antecipado do dia: a entrega de prémios. Nesta primeira edição em Portugal, foram nove as escolas finalistas que, de norte a sul do país, se destacaram pelos seus projetos criativos, comprometidos com o ambiente e respetivo impacto na comunidade escolar. Destes nove, apenas três escolas vencedoras receberam o prémio de 10 mil euros de apoio ao desenvolvimento e implementação desses mesmos projetos. Foram elas: a Escola Básica da Lourinhã (1º ciclo), a Escola Básica do Freixo (2º ciclo), e a Escola Básica e Secundária Dr.ª Judite Andrade (3º ciclo). A estas, juntaram-se mais seis, que receberam uma distinção no valor de 2.500 euros.

“Educar para a energia é formar, hoje, os líderes que tomarão as decisões no futuro sobre o mundo que lhes deixaremos”. Quem o disse foi António Calçada, que voltou a subir a palco para a entrega destes prémios. De mãos dadas com os professores, fechou a tarde com um reforço do seu papel fundamental na educação para a sustentabilidade. Já os docentes, iguais em orgulho e sentimento de missão cumprida, agradeceram a distinção, sem nunca descurar a peça-chave de todos os projetos: os seus alunos.

Foi altura de regressar a casa, com a certeza de que a educação será sempre o motor de arranque para uma sociedade que se quer munida das ferramentas certas para acompanhar o mundo. As mudanças já estão a acontecer. A sustentabilidade é o assunto na ordem do dia. A digitalização é um processo impossível de travar. E se não é possível travar o vento com as mãos, que nos juntemos a ele, rumo a um futuro mais verde e com mais energia!