Yulia Navalnaya, viúva do opositor russo Alexei Navalny, pediu a Itália que cancele a atuação de Valery Gergiev, maestro russo aliado próximo de Putin desde o início da década de 1990, num festival de música que se realiza este mês no sul do país.

Pela primeira vez desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, Valery Gergiev foi convidado para atuar em território europeu. O maestro estará no festival de música clássica Un’Estate da Re, que decorre no Palácio de Caserta (Reggia di Caserta), na região italiana de Campânia, no dia 27 de julho. A nona edição do festival decorre entre 19 e 31 de julho.

Num artigo que assina no jornal italiano La Repubblica e que foi publicado esta terça-feira, Yulia Navalnaya descreve a atuação de Gergiev como “um presente para o ditador”, numa referência indireta a Putin. “Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, a sociedade italiana e o governo adotaram a única postura correta em relação a Putin: condenar e renunciar ao seu regime, aos seus crimes, à sua guerra. E quero apelar aos italianos: sejam coerentes”, escreve a viúva de Navalny, que classifica o maestro e o Presidente russo como “amigos próximos”.

“A terrível e devastadora guerra na Ucrânia continua, pessoas morrem todos os dias e as cidades ucranianas estão a arder. Como é que é possível que no verão de 2025, três anos após o início do conflito na Ucrânia, Valery Gergiev, cúmplice de Putin e pessoa que faz parte das listas de sanções de vários países, tenha sido subitamente convidado para participar num festival em Itália?”, questiona, reconhecendo que Gergiev é um “excelente maestro” mas que está entre os “maus da fita”, aqueles que “não hesitam em cobrir regimes cruéis e desumanos com a sua reputação”.

A resposta à questão colocada por Yulia Navalnaya pode estar nas declarações de Vincenzo De Luca, presidente da região de Campânia que endossou o convite a Valery Gergiev, que defende, segundo o The Guardian, que a cultura “não deve ser influenciada pela política e pela lógica política”.

No artigo publicado no La Repubblica, a viúva de Navalny diz que pretende apresentar aos italianos “o Gergiev que não conhecem”, aquele que é “o lacaio de Putin, o cantor da ditadura de Putin e da guerra que ele desencadeou”. De seguida, lembra que a fundação criada pelo marido publicou, em 2022, uma investigação que mostrava “em pormenor” a forma como o maestro “utilizou para fins pessoais os fundos substanciais de uma fundação de caridade com o seu nome”. “Estes recursos, essencialmente propriedade do Estado russo e destinados a apoiar teatros e jovens talentos, foram utilizados para lhe garantir uma vida confortável. A possibilidade de gastar milhões impunemente, bem como os títulos honoríficos, os cargos e as honras oficiais, são o preço que Putin lhe paga de bom grado pela sua dedicação e lealdade incondicionais”, denuncia Yulia Navalnaya, que acusa Gergiev de ter trocado a “liberdade criativa” pelo “apoio a um ditador sanguinário”.

O maestro Valery Gergiev atuou pela última vez em Itália, no Teatro alla Scala, em Milão, no dia 23 de fevereiro de 2022, horas após o começo da guerra na Ucrânia — que se tem recusado a condenar. Ao longo dos anos, apoiou Putin em várias ocasiões. Apareceu num anúncio de campanha em 2012, apoiou a anexação da Crimeia em 2014 e apoiou o líder russo nas presidenciais de 2018.