Depois de uma primeira semana intensa e mais longa do que o habitual, o dia descanso chegou em boa hora para a maioria do pelotão. Contudo, a atenção que tinha que ser redobrada no regresso à estrada, já que o pós-descanso tende a trazer surpresas no desenrolar de uma corrida como a Volta a França. Não foi bem isso que aconteceu esta terça-feira, numa das etapas mais espectaculares deste Tour. Se, por um lado, não houve diferenças na classificação geral, por outro, a tirada em redor de Toulouse teve ataques desde o quilómetro zero e até praticamente ao fim, foi decidida ao sprint por dois elementos que estiveram em fuga desde o início e teve Tadej Pogacar (UAE Team Emirates-XRG) envolvido numa queda a poucos quilómetros do fim. Ainda assim, o esloveno afastou de imediato as preocupações, antes de uma etapa que ia colocar à prova a sua forma e o seu estado físico.

O dia foi de outro Jonas, mas teve Tadej como protagonista: etapa de ataques marcada por vitória da fuga e queda de Pogacar

“Estou bem. Estou um pouco dolorido, mas superámos, portanto estou bem. Foi um dia um pouco caótico do início ao fim, mas quero agradecer ao resto do grupo por esperar por mim depois da queda. A etapa estava quase no fim, mas eles podiam ter aproveitado para ganhar tempo. Talvez não muito, mas teria que usar as minhas reservas para regressar [ao grupo]. Quero agradecer a todos na frente pelo apoio. Tínhamos acabado fazer a última descida. Todos estavam a dar tudo de si. O Matteo [Jorgenson] e o Jonas [Vingegaard] atacaram e levaram todos ao limite, mas viram que o Jhonny [Narváez] respondeu. Ele fez um trabalho fantástico mantendo o grupo sob controlo. Num final como este todos querem ganhar segundos, há ataques e muitos ciclistas reagem a eles. Infelizmente, um ciclista seguiu um ataque da esquerda para a direita, não me viu e tocou na minha roda dianteira”, explicou o esloveno.

Foi assim que chegámos à primeira chegada em alto de alta montanha deste Tour, num dia marcado pelas homenagens a Samuele Privitera, ciclista de 20 anos da Hagens Berman Jayco — de Daniel Moreira e Gonçalo Tavares — que morreu esta quarta-feira, após sofrer uma queda no Giro Valle d’Aosta. A ligação de 180,6 quilómetros entre Auch e o Hautacam trazia um desnível acumulado de 3.850 quilómetros e prometia a reedição de um duelo do passado, já que foi naquela montanha de categoria especial que, em 2022, Vingegaard (Visma-Lease a Bike) deixou Pogacar para trás e ganhou-lhe mais de um minuto na luta para aquela que foi a sua primeira conquista do Tour.

A primeira incursão pelos Pirenéus começou a todo o gás, com uma fuga de 52 corredores de 22 equipas — só a Picnic PostNL ficou de fora — a marcar a etapa. Entre os presentes encontrava-se Carlos Rodríguez (Ineos Grenadiers), que chegou a esta quinta-feira a 5.44 minutos de Ben Healy (EF Education-EasyPost) e, para além disso, contava com o apoio de quatro colegas de equipa. Com Emirates, EF Education e Lidl-Trek unidas na perseguição, a diferença entre os grupos esteve bastante tempo abaixo dos dois minutos, fazendo com que esta se tornasse na segunda etapa desta edição com a média mais alta na primeira hora: 51,8 km/h. A corrida partiu-se no Col du Soulor, com Mattias Skjelmose (Lidl), Michael Woods (Israel-Premier Tech) e Bruno Armirail (Decathlon AG2R La Mondiale) a ficarem sozinhos na frente. No pelotão, Remco Evenepoel (Soudal Quick-Step) foi o primeiro candidato a ficar para trás, seguindo-se Healy e Enric Mas (Movistar).

Na aproximação à penúltima subida do dia, o Col des Bordères, já com Pogacar virtualmente na liderança, Armirail isolou-se e, no grupo dos favoritos, Jorgenson passou por dificuldades, acabando por manter-se devido a uma desaceleração do colega Simon Yates (Visma). Na descida que antecedeu o ponto alto da etapa, o belga da Soudal acabou por reentrar no grupo e os fugitivos que seguiam em posição intermédia foram alcançados. Já no Hautacam, o trabalho de Tim Wellens (Emirates) permitiu a aproximação a Armirail e fez com Yates e Sepp Kuss (Visma) desfalcassem desde cedo as opções de defesa de Vingegaard. O mesmo aconteceu com Evenepoel, que voltou a ceder na fase inicial. Logo a seguir, Narváez atacou com Pogacar na roda e partiu de vez o grupo, com o dinamarquês a conseguir seguir, por pouco tempo.

A 11 quilómetros do topo, o campeão do mundo alcançou Bruno Armirail e, com o passar dos metros, Jonas continuou a perder para Tadej e complicou as suas aspirações neste Tour. Atrás, os perseguidores juntaram-se num grupo composto por Evenepoel, Primoz Roglic e Florian Lipowitz (Red Bull-Bora-hansgrohe), Kévin Vauquelin (Arkéa-B&B Hotels), Oscar Onley (Picnic) e Tobias Johannessen (Uno-X Mobility). A seis quilómetros da meta, Pogacar já ganhava um minuto a Vingegaard, sendo que a diferença continua a aumentar até ao fim. Com uma jornada de sonho, Pogacar livrou-se dos fantasmas do passado e chegou à 20.ª vitória na Volta a França, igualando Nicolas Frantz no álbum de ouro. Esta foi a segunda ascensão mais rápida de sempre ao Hautacam, com o esloveno (35.08) a perder apenas para Bjarne Riis (34.38, 1996), batendo o tempo do rival em 2022 (36.35). Vingegaard chegou a 2.10 minutos. Esta foi a quinta vez em 2025 que o esloveno e o dinamarquês terminaram nos dois primeiros lugares de uma etapa, sempre com vantagem para o Emirates.

Na geral, a camisola amarela mudou de dono pela sétima vez neste Tour, com Tadej Pogacar a recuperar aquilo que foi seu entre a sétima e a nona etapa. O campeão do mundo tem agora 3.31 minutos de vantagem para Jonas Vingegaard e 4.45 para Remco Evenepoel, que foi sétimo, a 3.35. Florian Lipowitz, a 5.34, e Kévin Vauquelin, a 5.40, completam o top 5. Primoz Roglic cedeu 4.08 minutos na etapa e é agora sétimo classificado, a 7.30 do esloveno. O ex-camisola amarela, Ben Healy, entrou na meta a 13.38 e desceu para o 11.º posto.